Terça-feira, 5 de Março de 2013

O beco do desespero

Estamos presos no tempo e não podemos fugir. É uma característica das nações fracas em todos os tempos. O Governo pode renegociar maturidades, conseguir mais tempo e até mais dinheiro, mas o essencial fica. Estamos no euro e a Europa do norte manda que o sofrimento do Sul esteja para ficar: mais austeridade, muitos cortes, o fim do Estado social como o conhecemos, uma vida diferente. O essencial do nosso tempo é a circunstância desta Europa, desta Alemanha, da maneira como o mundo funciona hoje. (Vejam esta entrevista. É assustadora. As entrevistas dos economistas de sinal contrário não o são menos)

 

De forma simplificada e sem matizar, temos duas hipóteses: ou jogamos segundo as regras europeias dentro das nossas possibilidades ou saímos do euro. Ao jogarmos segundo as nossas possibilidades, estamos limitados ao nosso poder, um País mínimo, desacreditado, sem poder económico, nem financeiro, nem militar. Temos de aguentar e jogar como pior ou melhor este Governo vai jogando. O Governo podia fazer muito melhor. Mas o PS fará quase igual. A outra alternativa é sair do euro ou ameaçar sair do euro. Mas isso seria a devastação total.

 

Uma renegociação mais profunda da dívida talvez chegue um dia, mas isso não mudará o essencial.

  

Estamos presos no beco do desespero do nosso tempo. A geração dos meus pais vai ter uma velhice mais pobre. A minha geração, nos 40, está perdida, acabaram-se as oportunidades, e a que vem atrás ainda pior. A geração dos meus filhos não tem futuro aqui. Talvez a dos meus netos.

 

Isto não parece uma guerra, mas é uma guerra por outros meios. Estamos tão presos no nosso tempo como os portugueses quando os espanhóis tomaram conta disto, apesar do Prior do Crato; como quando o rei teve de fugir para o Brasil e as tropas napoleónicas entraram em Lisboa; como durante as guerras liberais; como durante o ultimato britânico; como quando falimos no fim do século XIX; como quando entrámos na I Guerra Mundial e em 1920 nos tornámos ainda mais miseráveis com as políticas de ajustamento que se seguiram; como quando passámos a oficialmente pobres no salazarismo; como quando era preciso ir à guerra colonial.

 

Estas crises foram irreversíveis no seu tempo, mas deram origem a convlusões e revoluções, que geraram outras crises, e deixaram a sua marca no ADN do País. Alguma coisa também vai aconteer no fim "disto". Vista da História, esta crise mata o potencial de duas ou três gerações. Somos nós, o problema é esse. E então? Daqui por cem anos, o País por cá estará. Só não sabemos como.

 

Isto não é resignação. É constatação. O que não quer dizer que goste de constatar assim.

publicado por Vítor Matos às 17:17
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