Sexta-feira, 15 de Março de 2013

Freakpolitics: Porque é que Cavaco come erva

 

Marcelo Rebelo de Sousa, conselheiro de Estado do Presidente da República, disse no comentário da TVI que “Cavaco Silva é herbívoro, não carnívoro”. As palavras parecem desajustadas, mas ele reforçou: “Ele come erva, não come carne”. Não é credível que Marcelo tenha feito estas afirmações por observação empírica, ou seja, por ficar incomodado a ver Cavaco ruminar o almoço durante as reuniões do Conselho de Estado. Trata-se, como é óbvio, de uma metáfora política com um significado objectivo (não vamos aqui tratar das imagens pouco felizes que invoca). Com o “herbívoro”, Marcelo quer dizer que o Presidente é pouco interventivo, que come erva para não dizer palha e que a sua acção não anda longe de ser “palha”.

Para atenuar o mau-gosto metafórico do professor, vamos considerar que Cavaco Silva é um presidente politicamente vegetariano. Segundo um estudo pioneiro de 1985 de Charles K. Cooper, sobre as características psicológicas dos vegetarianos, é-se vegetariano por três razões: por motivos de saúde, para evitar a crueldade sobre os animais ou por não se gostar de carne. 

No caso de Cavaco Silva – que em tempos adorava carne –, a razão principal do seu vegetarianismo é para evitar a crueldade sobre os animais, quer dizer, o Governo. O Presidente acha que não deve intervir demasiado, que os seus poderes no parque natural da política portuguesa não lhe permitem aleijar as criaturas, mesmo que passem o tempo a fazer asneiras. Também não deve falar muito alto para não perturbar o ecossistema: um vegetariano (e já agora ecologista) deixa a natureza funcionar por si e apenas intervém em caso de catástrofe. Na pior das hipóteses, usa munições atordoantes e deixa para outras instâncias as decisões fundamentais (como é exemplo o envio do Orçamento de Estado para o Tribunal Constitucional). 

Mas segundo vários estudos científicos (incluindo o acima mencionado), há uma maior tendência dos vegetarianos para problemas relacionados com a saúde mental, como a depressão e a ansiedade. Emily Deans, uma psicóloga do Massachussets aponta para a falta de vitamina B12, de ácidos gordos e de creatina, substâncias essenciais para o cérebro entre os vegetarianos. Não seria de estranhar que o vegetarianismo presidencial de Cavaco lhe causasse depressões e ansiedade, porque ele era um carnívoro e foi durante anos um predador implacável e autoritário para com as presas, a quem o sangue não repugnava. Ele agora é um leão sentado a comer erva enquanto por ele passam manadas de bisontes. 

Aliás, o problema de Cavaco Silva antes de ser eleito para Belém era exactamente o facto de ter essa reputação de carnívoro, de executivo, de querer interferir, de fazer e mandar. Por isso há uma forte probabilidade de a depressão dos vegetarianos também o atingir. Sem poder executivo, sem vitamina B12 nem creatina, o Presidente vegetariano está em contradição com o ADN político de predador de Cavaco Silva. Como ele deve salivar a ver o bife e a pensar no que faria se fosse ele a trinchá-lo... Como deve frustrar-se quando vê os modos de Pedro Passos Coelho abordar as presas...
 
Mas como o leão agora come alface não assusta ninguém.

PS: Note-se que Marcelo Rebelo de Sousa avisou que se fosse presidente era carnívoro. Fica registado caso venha a candidatar-se a Belém.


Crónica publicada no site da SÁBADO

publicado por Vítor Matos às 09:06
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