Sexta-feira, 22 de Março de 2013

Freakpolitics: Durma melhor dr. Gaspar, pela nossa saúde!

 

Talvez tenha sido um excesso de sinapses – demasiadas ligações entre neurónios em cérebros cansados –, que resultou na brilhante decisão do Eurogrupo em relação aos depositantes cipriotas. No fundo, ideias a mais, tudo por causa da privação de sono. Um estudo citado na Scientific American diz que a falta de sono aumenta a actividade cerebral, mas isso não quer dizer que o resultado produzido pela massa cinzenta exausta seja o melhor. A cabeça parece que trabalha mais, mas pior.

A privação de sono aumenta a actividade do córtex pré-frontal mas trava a actividade do lóbulo parietal segundo umestudo da Universidade de S. Diego, Califórnia, prejudicando “muitas tarefas cognitivas”, e assim faz mal à governação. Devia haver uma lei a mandar os ministros para a caminha cedo, depois de um chá de camomila. Mas quando se juntam 17 líderes europeus noite fora, todos mal dormidos e implicativos, o resultado só podia ser este. A conferência de imprensa em que o Eurogrupo anunciou o novo estilo de resgate a Chipre foi às quatro da manhã. O repórter da Reuters descreve uma Christine Lagarde, directora do FMI, com ar cansado, “que parece ter perdido noção do calendário”, ao desejar aos repórteres feliz St Patricks Day um dia antes da efeméride. Isso porém não era grave.

Ministros cansados, exaustos, metidos em reuniões que duram mais de 10 horas não ajudam aqueles que representam e prejudicam a sua própria saúde. Segundo um artigo da Wikipédia, a falta de sono torna o raciocínio mais lento, causa problemas de memória, provoca irritabilidade e prejudica a capacidade de decisão racional. No fundo, é uma análise de bom senso: nós sabemos tudo aquilo que sentimos quando não dormimos uma noite ou quando não dormimos bem várias noites seguidas. Isto para não falar dos delírios e alucinações, mas não podemos apontar este tipo de sintomas aos srs. Ministros das Finanças da zona euro, porque isso provocaria uma reacção nos mercados com implicações sistémicas. Nem tão pouco os problemas sexuais que produz a falta de sono, inversamente proporcionais aos do sr. Dominique Strauss-Kanh.

Analisemos agora o caso particular no “nosso” Vítor Gaspar, um short-sleeper que por vezes chega ao ministério às cinco ou seis da manhã com as suas olheiras vigilantes e sai quando sai; o pobre homem tinha passado as últimas três semanas assoberbado com a sétima avaliação da troika; tinha passado a última semana em negociações duras e prolongadas com o triunvirato; tinha passado a véspera da reunião do Eurogrupo a preparar a conferência de imprensa de sexta-feira, dia 15, de manhã, em que nos deu mais um pacote de notícias aterradoras; tinha passado metade dessa sexta-feira a responder aos principais jornalistas económicos do País; tinha viajado para Bruxelas, e, às quatro da manhã de sábado, concordou e votou a decisão de ir sacar 9,9% aos depositantes cipriotas com mais de 100 mil euros no banco e 6,75% aos restantes. 

O cérebro daquele ministro não podia estar em si. Os cérebros dos ministros não serão em média muito diferentes dos nossos, por mais que nos custe pensar que temos um cérebro em média parecido ao dos políticos. Para aguentar uma vida daquelas com o processador em perfeitas condições seria preciso tomar drogas estimulantes com outros efeitos secundários e nós não acreditamos que os ministros tomem drogas para aguentar a pressão. Descanso aos cérebros dos ministros já!
 
Parece secundário, mas o cansaço físico na política é um aspecto fundamental a considerar no desempenho dos líderes. Marcelo Rebelo de Sousa – o short-sleeper oficial do País – costuma contar que conseguiu arrancar medidas importantes da revisão constitucional de 1998 ao socialista António Vitorino exausto às cinco da manhã. A capacidade de resistência é uma arma, mas o corpo tem limites...

As pessoas que dormem pouco produzem mais cortizol, a hormona do stress, revelou outro estudo da Universidade do Surrey citado pelo LA Times e isso em política é fatal. O stress alimenta a falta de sono que alimenta o stress. É um ciclo vicioso. O mesmo estudo detectou mudanças em centenas de genes nas pessoas que são privadas de sono. Os genes que provocam danos foram amplificados pela falta de sono, ao mesmo tempo que muitos que alimentam e renovam as células foram desligados. A privação de sono prolongada, como acontece aos políticos, aumenta a probabilidade de diabetes, ataques de coração, tensão alta e obesidade.

Tendo em conta os resultados da governação nacional e europeia feita por gente que não consegue dormir nem descansar, era melhor fazerem como o dr. Mário Soares: uma sesta antes tomarem decisões graves e sensíveis. Não é pela saúde e pela sanidade do dr. Gaspar que o problema da falta de sono governamental é preocupante, é pela saúde de todos nós.


Crónica publicada no site da SÁBADO

publicado por Vítor Matos às 12:41
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