Domingo, 31 de Março de 2013

O mais belo lugar onde antes havia uma livraria

Como faço quase sempre quando estou no Porto, fui ontem à Livraria Lello. Ou melhor, tentei ir. À porta, um individuo com cara de poucos amigos barrou-me a entrada – a mim, à minha mulher e ao meu filho. Exigiu 2€ por pessoa (não cheguei a perceber se o miúdo pagava bilhete inteiro ou meio bilhete). Comecei por achar que era uma chico-espertice tuga para sacar uns euritos aos espanhóis que enchem a cidade (e vi vários a desembolsar os 2€), mas depois percebi que era um bocadinho mais do que isso. Depois de uma conversa entre o surreal e o desagradável, em que o homem se queixou do “desgaste” da livraria, demos meia volta e fomos para sítios mais frequentáveis, que não faltam na cidade.

 

Escrevi no Facebook o que se tinha passado e a história acabou numa notícia da Lusa. Parece que o cavalheiro em questão já cobra entradas a “grupos de turistas organizados” e diz que pondera fazer o mesmo a toda a gente. Sobre a segunda parte, a mentira tem perna curta – nunca tinha pensado que lá em casa fossemos um “grupo de turistas”, e muito menos “organizados”. Mas que ele nos tentou cobrar entradas, tentou. Tanta conversa sobre cultura para, afinal, se comportar como um porteiro de discoteca labrego que cobra segundo a cara do freguês…

 

A primeira questão que levantei foi a da manifesta ilegalidade da coisa. O proprietário da Livraria Lello pode pensar que tem um museu – cada um pode pensar o que quiser –, mas para todos os efeitos não tem. Tem um estabelecimento comercial sem autorização para cobrar entradas. Se o quiser fazer, não chega por-se à porta a sacar 2€ em troca de uns reles marcadores de livros. Questiono-me sobre o enquadramento legal dos ingressos que o cavalheiro assume que já cobra.

 

Mas a questão vai mais longe do que isso, e mostra um interessante caso de tacanhez e ganância. A Livraria Lello é lindíssima – só por essa razão é que eu, que adoro livrarias e sou um razoável comprador de livros, insisto em lá ir, embora não tenha preços competitivos nem se distinga pela oferta, arrumação ou limpeza. Apesar disso, uma vez lá dentro, é difícil sair de mãos a abanar. Mas nas livrarias gosto de pagar à saída, e não à entrada. Enfim, manias…

 

Consta que já várias publicações internacionais distinguiram a Lello como uma das “mais belas livrarias do mundo”. O que devia ser uma oportunidade parece que é, para os proprietários, um problema: a casa enche-se de curiosos que insistem em deambular por ali, apesar dos empregados mal-encarados e dos avisos permanentes de “No photo”. Podiam ter bom merchandising, postais e posters atraentes, monografias sobre o edifício com boas fotos e bom grafismo, uma cafetaria catita, enfim, essas coisas que em qualquer sítio do mundo fazem os turistas soltar não 2, mas 10 ou 15 ou 20 euros. Mas não – a solução, pelos vistos, é cobrar entradas.

 

É claro que isto tem um probleminha: uma livraria não é um lugar com livros – é um lugar com livros e com gente que os vai comprar, e gente que só deambula pelos corredores, a ver. É um lugar com vida. Uma livraria não é um museu. Um museu é outra coisa.

 

Vale a pena ir à Lello – para comprar ou só para ver – por ser uma das “mais belas livrarias do mundo”. Mas a Lello talvez deixe de ser tão interessante se passar a ser apenas “o lugar onde antes havia uma livraria”.

publicado por Filipe Santos Costa às 00:42
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8 comentários:
De pequenos passos a 31 de Março de 2013 às 19:07
Pois tenho mmuitapena que assim seja... Também eu há bem pouco tempo tive uma má experiencia nessa livraria. Pouca simpatia, poucos sorrisos, muito autoritarismo e uma espécie de mau comercio que pretende afugentar os clientes, com certeza. Acabei por não comprar nada, perante tanta antipatia, não me apeteceu, mas foi com muita pena, pois a livraria faz parte das minhas lembranças e grandes e bons momentos lá passei, no tempo em que numa livraria se vendiam livros, sorrisos e aconchegos de alma e não se tentava "enrolar" o cliente e angariar dinheiro fácil. Enquanto me lembrar não torno a entrar. Conseguiram estragar as minhas memórias!
De Helena a 31 de Março de 2013 às 20:27
De tanto ouvir falar na livraria Lello quis visitá-la aquando das minhas férias em Portugal, no verâo passado. Fiquei desiludida! É bonita,mas a desarrumação, a escassez de espaço, o amontoado de livros, deixaram-me verdadeiramente decepcionada. E os amigos que estavam comigo ficaram como eu. E agora querem cobrar a entrada? Acho que exageram na publicidade que lhe dão. Eu fiquei sem vontade de voltar uma 2. vez...
De impressao3d a 1 de Abril de 2013 às 00:15
absurdo depois vem-se queixar provavelmente que não tem clientela enfim... só em portugal

cumprimentos
De Arminda Pinto a 1 de Abril de 2013 às 01:49
Muito pertinente o seu comentário. Também frequento por vezes a Livraria Lello, como outras e nos últimos anos tenho encontrado gente mal encarada e que não sabe aproveitar a oportunidade de ter um estabelecimento daqueles. Já deixaram fotografar ainda há uns dois ou três anos e já mais tarde um amigo do sul que tinha ido comigo se queixou de ao fazê-lo por não ter reparado no letreiro pouco visivel na entada, levar com um alto berro " No photo". Comentei a última vez que lá fui baixinho para a minha filha ao ver algumas ilustrações da Livraria, que provávelmente a proibição de fotos teria interesses comerciais, mas também poderia ser uma divulgação e uma mais valia para quem as mostra aos amigos e família noutros países. De imediato um funcionário que deveria ignorar com educação a conversa, mas estava a certa distância no balcão mostrou que era "cusca" e afinal tinha ouvido tudo e justificou entediado que estavam fartos e cansados e que já tinham tido um acidente com uma turista a tirar fotografias nas escadas.
O que leio aqui deixa-me de boca aberta porque vejo que o procedimento continua a ser o de muito má gestão do espaço herdado - "Deus dá as nozes a quem não tem dentes", como diz o povo e os senhores da Lello têm sempre desculpa para a sua pouca simpatia.
Lamentável.
Arminda Pinto
De Susana a 1 de Abril de 2013 às 01:53
Não conheço a livraria Lello , adorava conhecer, pelas fotografias parece mesmo ser lindíssima.
Tenho pena que o povo Português arranje maneiras tão destrutivas de divulgar o que temos de melhor, enfim acredito que esta ideia de cobrar entradas vá afastar muita gente, não pelos dois euros mas talvez pela atitude.
Boa Páscoa
De Alexandra a 1 de Abril de 2013 às 17:46
Ora bem... se um dia destes for ao Porto vou lá passar. E pago, os 2 euros, mas quero fatura. Sempre quero ver o que vem na descrição do produto... Os "tugas" são de facto muito tacanhos...
De Jose Lopes a 2 de Abril de 2013 às 18:43
Obrigado por tornar este caso publico, Filipe. Sou natural do Porto e vivi la ate ha 2 anos. Sempre me pareceu que o atendimento na Lello era pouco simpatico, no minimo. Se houvesse real respeito pela natureza do espaco e pelas pessoas que o visitam, deviam apostar fortemente no merchandising, como fazem tantos espacos por esse mundo fora. Alem disso, deviam melhorar a qualidade do servico enquanto livraria, quer a competitividade dos precos, quer a arrumacao e organizacao dos livros. Optam assim pelo mais facil...e ilegal. Tambem acho extraordinario que haja quem defenda que estaria tudo bem se decontassem os 2 euros em talao, como se a pratica dos descontos de qualquer hipermercado pudesse ser aplicavel a admissao de pessoas numa livraria. Gosto de ir a livrarias, quer va comprar alguma coisa, quer nao. E' ridiculo defender-se que alguem possa pagar 2 euros e depois quase sentir a pressao de gastar ainda mais para que esses 2 euros sejam abatidos. Pior ainda numa livraria que e' carota... Enquanto continuarem com esta politica, e' certinho que nao ponho la os pes.
De David a 2 de Abril de 2013 às 21:56
Já estive na Livraria Lello na altura em que era possível tirar fotografias e não achei graça nenhuma. Não podia dar um passo sem ficar na fotografia de algum loiro de olhos azuis! Agora pedirem para entrar é que não se admite. Aquilo que acho estranho é que à tarde li o seu post e agora no noticiário das 20h apareceu o patrão a dizer que nunca lhe passou pela cabeça cobrar entrada! A comunicação social deve andar doída...

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