Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Não aprendemos mesmo nada

"No quadro da problemática desta moção de censura é previsível que o Governo não deixe de insistir no seu leit motiv predileto: "o PS não é alternativa". Se assim fizer, significa que renunciou a procurar fazer a prova positiva da sua capacidade e do acerto da sua ação".

"A coligação governamental já colocou o país em situação bem pior do que o havia recebido".

"O Governo não está à altura do momento grave que o país atravessa e mesmo em relação ao seu próprio programa (que o PS oportunamente criticou) foi fácil demonstrar que não está, minimamente, a cumpri-lo".

"A incapacidade governativa para resolver os problemas básicos está a arrastar Portugal para um impasse inevitável e a conduzir os portugueses para posições de profundo desencorajamento ou, o que é ainda pior, de desespero".

"O PS tem tido sempre uma posição responsável, pondo como lhe cumpre, as exigências nacionais acima dos interesses meramente partidários".

"Porque é uma exigência nacional mudar de política e mudar de Governo. Para que Portugal possa caminhar e os portugueses se reencontrem com a esperança".

 

As citações acima são do debate sobre a moção de censura. Não o de ontem, mas o que aconteceu em fevereiro de... 1982. O secretário-geral do PS, autor da moção de censura, era Mário Soares, o Governo (AD) censurado era o de Pinto Balsemão. Fora essas diferenças, o resto, como se lê, mantém-se igual. Andamos aos círculos.

publicado por Cristina Figueiredo às 12:56
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Domingo, 31 de Março de 2013

O mais belo lugar onde antes havia uma livraria

Como faço quase sempre quando estou no Porto, fui ontem à Livraria Lello. Ou melhor, tentei ir. À porta, um individuo com cara de poucos amigos barrou-me a entrada – a mim, à minha mulher e ao meu filho. Exigiu 2€ por pessoa (não cheguei a perceber se o miúdo pagava bilhete inteiro ou meio bilhete). Comecei por achar que era uma chico-espertice tuga para sacar uns euritos aos espanhóis que enchem a cidade (e vi vários a desembolsar os 2€), mas depois percebi que era um bocadinho mais do que isso. Depois de uma conversa entre o surreal e o desagradável, em que o homem se queixou do “desgaste” da livraria, demos meia volta e fomos para sítios mais frequentáveis, que não faltam na cidade.

 

Escrevi no Facebook o que se tinha passado e a história acabou numa notícia da Lusa. Parece que o cavalheiro em questão já cobra entradas a “grupos de turistas organizados” e diz que pondera fazer o mesmo a toda a gente. Sobre a segunda parte, a mentira tem perna curta – nunca tinha pensado que lá em casa fossemos um “grupo de turistas”, e muito menos “organizados”. Mas que ele nos tentou cobrar entradas, tentou. Tanta conversa sobre cultura para, afinal, se comportar como um porteiro de discoteca labrego que cobra segundo a cara do freguês…

 

A primeira questão que levantei foi a da manifesta ilegalidade da coisa. O proprietário da Livraria Lello pode pensar que tem um museu – cada um pode pensar o que quiser –, mas para todos os efeitos não tem. Tem um estabelecimento comercial sem autorização para cobrar entradas. Se o quiser fazer, não chega por-se à porta a sacar 2€ em troca de uns reles marcadores de livros. Questiono-me sobre o enquadramento legal dos ingressos que o cavalheiro assume que já cobra.

 

Mas a questão vai mais longe do que isso, e mostra um interessante caso de tacanhez e ganância. A Livraria Lello é lindíssima – só por essa razão é que eu, que adoro livrarias e sou um razoável comprador de livros, insisto em lá ir, embora não tenha preços competitivos nem se distinga pela oferta, arrumação ou limpeza. Apesar disso, uma vez lá dentro, é difícil sair de mãos a abanar. Mas nas livrarias gosto de pagar à saída, e não à entrada. Enfim, manias…

 

Consta que já várias publicações internacionais distinguiram a Lello como uma das “mais belas livrarias do mundo”. O que devia ser uma oportunidade parece que é, para os proprietários, um problema: a casa enche-se de curiosos que insistem em deambular por ali, apesar dos empregados mal-encarados e dos avisos permanentes de “No photo”. Podiam ter bom merchandising, postais e posters atraentes, monografias sobre o edifício com boas fotos e bom grafismo, uma cafetaria catita, enfim, essas coisas que em qualquer sítio do mundo fazem os turistas soltar não 2, mas 10 ou 15 ou 20 euros. Mas não – a solução, pelos vistos, é cobrar entradas.

 

É claro que isto tem um probleminha: uma livraria não é um lugar com livros – é um lugar com livros e com gente que os vai comprar, e gente que só deambula pelos corredores, a ver. É um lugar com vida. Uma livraria não é um museu. Um museu é outra coisa.

 

Vale a pena ir à Lello – para comprar ou só para ver – por ser uma das “mais belas livrarias do mundo”. Mas a Lello talvez deixe de ser tão interessante se passar a ser apenas “o lugar onde antes havia uma livraria”.

publicado por Filipe Santos Costa às 00:42
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Domingo, 24 de Março de 2013

A Índia também tem o seu Gaspar. Mas o Gaspar deles pensa nos votos

Pranab Chidambaran, ministro das Finanças da Índia

Foi um outono quente para a coligação. A estagnação da economia e a derrapagem do défice fizeram tremer as finanças e chamaram a atenção das agências de rating. Às ameaças de corte da notação da dívida soberana, o ministro das Finanças respondeu com um discurso de austeridade, cujas primeiras linhas provocaram a revolta do povo e o protesto dos parceiros de governo. Com a coligação à beira de se desfazer e manifestações nas ruas, o primeiro-ministro foi à TV falar à nação. “Temos de agir antes que os outros percam a confiança na nossa economia”, explicou, para justificar a inédita austeridade. Enquanto o ministro das Finanças recebia cartas de outros ministros, tornadas públicas, protestando contra cortes nas respectivas áreas, os “mercados” aprovavam os planos de austeridade. O Governo e as agências de rating estavam de acordo: era a única receita possível.

A história soa familiar – mas não é a nossa. É um resumo dos últimos meses da política indiana, desde que Pranab Chidambaran – o Vítor Gaspar deles –lançou um discurso de reforma e austeridade e ganhou lugar cativo nas primeiras páginas. Uma greve geral que quase parou o país foi a reacção mais visível. “Se não protestarmos agora, o governo vai acabar com os pobres e com a classe média”, dizia um grevista, em setembro.

A primeira medida anunciada foi um corte nos subsídios estatais ao preço dos combustíveis. Na calha, mais cortes: nos subsídios do Estado aos juros, à comida, às sementes, aos fertilizantes. A previsão de um crescimento do PIB abaixo dos 5% no ano fiscal de 2012 (o ano fiscal vai de abril a março) assim o impunha. Leu bem: 5%. O suficiente para os analistas falarem em “estagnação” e soarem as campainhas de alarme, depois de uma década a crescer, em média, 8% (com três anos em que a riqueza cresceu acima dos 9%).

Na imprensa indiana há quem fale de “abismo”. Como chegou o país aqui? Salvaguardadas as distâncias (em todos os sentidos), a história, mais uma vez, soa familiar. O boom que teve um pico nos anos 2000 criou uma nova classe média movida por jovens com poder de compra, o que se traduziu num crescimento do consumo e do endividamento privado. O Estado acompanhou a onda, aumentando a despesa num país a precisar de quase tudo – de comida a infraestruturas. O espetacular progresso, nos anos 2000, em todos os indicadores económicos e de desenvolvimento humano teve um preço: a despesa pública aumentou 200% entre 2004 e 2012, a dívida pública cresceu e o orçamento passou a ser consumido, em grande parte, pelo pagamento de juros, pensões, subsídios de toda a espécie, garantias aos Estados (a Índia é um estado federal) e defesa. Em 2009, quando o crescimento dava sinais de quebrar, o Governo avançou com ambiciosos pacotes de estímulo à economia que hoje são vistos como “politicamente convenientes”, pois nesse ano havia eleições (mais uma vez, é irresistível o paralelo com as legislativas portuguesas desse mesmo ano).

Com um défice para 2012 que deverá ficar em 5,8% (1,2% acima do previsto) e as agências de rating a ameaçar com a classificação de “lixo”, a prioridade, anunciou Chidambaran, é consolidar as contas públicas. Os caminhos são os do costume. Primeiro, subir impostos – o ministro das Finanças anunciou o aumento da carga fiscal sobre as empresas e sobre os mais ricos, criando uma taxa adicional e “apenas por um ano” (onde é que já ouvimos isto?) de 10% sobre os rendimentos dos “muito ricos”. E anunciou mais impostos sobre os bens de luxo.

As medidas têm um evidente travo populista, sabendo-se que este é o último exercício orçamental completo antes das eleições de 2014. A veia eleitoralista do OE não escapou a ninguém. Entre os eleitores, que querem prosperidade, e os mercados que exigem austeridade, Chidambaran tentou contentar ambos. “Superavit de votos, défice de visão”, resumiu a capa da revista India Today. Os grupos sociais mais protegidos pelo Orçamento são, por coincidência, os mais importantes para a reeleição do Governo: mulheres, jovens e pobres. Nisso, o Gaspar deles é diferente do nosso – é um advogado com um agudo sentido político e eleitoral, ao ponto de ser apontado como um dos nomes mais fortes que o Partido do Congresso (no poder) poderá apresentar para a chefia do Governo no ano que vem.

O pacote de medidas para reanimar a economia também passa por um emagrecimento das despesas do Estado. O ministro das Finanças anunciou um corte nominal de 18%, número que impressiona mais do que a realidade – a maior parte destes “cortes” vem de verbas que estavam alocadas aos vários ministérios no ano passado e não foram gastas. Os subsídios mal foram tocados. A austeridade pouco belisca a máquina do Estado – uma máquina que domina, com requintes barrocos de burocracia, todos os sectores da economia.

Apesar da revolução económica lançada em 1991 por Manmohan Sigh, então ministro das Finanças e actual primeiro-ministro (no cargo desde 2004), abrindo a economia à iniciativa privada, muito do caminho está por fazer: privatizar ou contratar com privados e suavizar as interdições, burocracias, licenças e entraves vários que criam a barreira de proteccionismo que deixa o país tão mal classificado na tabela dos melhores destinos para investimento estrangeiro (133º lugar entre os 186 países analisados pelo Banco Mundial – Portugal ficou em 31º). E não se pense que é um problema só dos estrangeiros. Em dezembro, Ratan Tata, o histórico chairman do gigante indiano Tata Group, dizia ao Financial Times que os problemas da Índia tornavam outros destinos mais interessantes para investir.

Reconquistar o investimento estrangeiro é a outra grande vertente do caminho que o Governo propõe, empurrado pelas circunstâncias: num país onde todos os anos 10 milhões de jovens querem entrar no mercado de trabalho, a economia não pode “estagnar em crescimentos de 5 por cento” (palavras de Yashwant Sinha, ex-ministro das Finanças). Chidambaran já se fez à estrada para namorar potenciais investidores – também na Índia a diplomacia foi trocada pela diplomacia económica.

Mas terá a Índia ultrapassado de vez a desconfiança em relação aos que vêm de fora? Dhiraj Nayyar, colunista da India Today, a principal revista de informação geral do país, tem dúvidas. A sua análise merece a atenção de quem pense investir na Índia: “Parece haver uma continuada relutância do poder político, em particular do Partido do Congresso [no poder] em abrir a investidores estrangeiros, de forma agressiva, as portas relativamente fechadas da economia indiana”.

Para já, a Moody’s considerou credível a perspectiva de crescimento 6,2% este ano e de 7% a partir de 2014. Contudo, a ideia do Governo de que a Índia possa em breve voltar a crescer nos dois dígitos é rotulada como “loucamente optimista”. A Standar & Poor’s e a Fitch, porém, olham para o orçamento com reservas e mantêm o outlook negativo. É que a consolidação orçamental depende mais do crescimento das receitas fiscais do que do corte na despesa do Estado. Mais uma vez: onde é que já vimos isto?

 

Crónica publicada no Expresso de 16-3-13, no seguimento de uma reportagem na Índia, na rubrica O Caminho da Internacionalização

publicado por Filipe Santos Costa às 12:38
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Sexta-feira, 22 de Março de 2013

Freakpolitics: Durma melhor dr. Gaspar, pela nossa saúde!

 

Talvez tenha sido um excesso de sinapses – demasiadas ligações entre neurónios em cérebros cansados –, que resultou na brilhante decisão do Eurogrupo em relação aos depositantes cipriotas. No fundo, ideias a mais, tudo por causa da privação de sono. Um estudo citado na Scientific American diz que a falta de sono aumenta a actividade cerebral, mas isso não quer dizer que o resultado produzido pela massa cinzenta exausta seja o melhor. A cabeça parece que trabalha mais, mas pior.

A privação de sono aumenta a actividade do córtex pré-frontal mas trava a actividade do lóbulo parietal segundo umestudo da Universidade de S. Diego, Califórnia, prejudicando “muitas tarefas cognitivas”, e assim faz mal à governação. Devia haver uma lei a mandar os ministros para a caminha cedo, depois de um chá de camomila. Mas quando se juntam 17 líderes europeus noite fora, todos mal dormidos e implicativos, o resultado só podia ser este. A conferência de imprensa em que o Eurogrupo anunciou o novo estilo de resgate a Chipre foi às quatro da manhã. O repórter da Reuters descreve uma Christine Lagarde, directora do FMI, com ar cansado, “que parece ter perdido noção do calendário”, ao desejar aos repórteres feliz St Patricks Day um dia antes da efeméride. Isso porém não era grave.

Ministros cansados, exaustos, metidos em reuniões que duram mais de 10 horas não ajudam aqueles que representam e prejudicam a sua própria saúde. Segundo um artigo da Wikipédia, a falta de sono torna o raciocínio mais lento, causa problemas de memória, provoca irritabilidade e prejudica a capacidade de decisão racional. No fundo, é uma análise de bom senso: nós sabemos tudo aquilo que sentimos quando não dormimos uma noite ou quando não dormimos bem várias noites seguidas. Isto para não falar dos delírios e alucinações, mas não podemos apontar este tipo de sintomas aos srs. Ministros das Finanças da zona euro, porque isso provocaria uma reacção nos mercados com implicações sistémicas. Nem tão pouco os problemas sexuais que produz a falta de sono, inversamente proporcionais aos do sr. Dominique Strauss-Kanh.

Analisemos agora o caso particular no “nosso” Vítor Gaspar, um short-sleeper que por vezes chega ao ministério às cinco ou seis da manhã com as suas olheiras vigilantes e sai quando sai; o pobre homem tinha passado as últimas três semanas assoberbado com a sétima avaliação da troika; tinha passado a última semana em negociações duras e prolongadas com o triunvirato; tinha passado a véspera da reunião do Eurogrupo a preparar a conferência de imprensa de sexta-feira, dia 15, de manhã, em que nos deu mais um pacote de notícias aterradoras; tinha passado metade dessa sexta-feira a responder aos principais jornalistas económicos do País; tinha viajado para Bruxelas, e, às quatro da manhã de sábado, concordou e votou a decisão de ir sacar 9,9% aos depositantes cipriotas com mais de 100 mil euros no banco e 6,75% aos restantes. 

O cérebro daquele ministro não podia estar em si. Os cérebros dos ministros não serão em média muito diferentes dos nossos, por mais que nos custe pensar que temos um cérebro em média parecido ao dos políticos. Para aguentar uma vida daquelas com o processador em perfeitas condições seria preciso tomar drogas estimulantes com outros efeitos secundários e nós não acreditamos que os ministros tomem drogas para aguentar a pressão. Descanso aos cérebros dos ministros já!
 
Parece secundário, mas o cansaço físico na política é um aspecto fundamental a considerar no desempenho dos líderes. Marcelo Rebelo de Sousa – o short-sleeper oficial do País – costuma contar que conseguiu arrancar medidas importantes da revisão constitucional de 1998 ao socialista António Vitorino exausto às cinco da manhã. A capacidade de resistência é uma arma, mas o corpo tem limites...

As pessoas que dormem pouco produzem mais cortizol, a hormona do stress, revelou outro estudo da Universidade do Surrey citado pelo LA Times e isso em política é fatal. O stress alimenta a falta de sono que alimenta o stress. É um ciclo vicioso. O mesmo estudo detectou mudanças em centenas de genes nas pessoas que são privadas de sono. Os genes que provocam danos foram amplificados pela falta de sono, ao mesmo tempo que muitos que alimentam e renovam as células foram desligados. A privação de sono prolongada, como acontece aos políticos, aumenta a probabilidade de diabetes, ataques de coração, tensão alta e obesidade.

Tendo em conta os resultados da governação nacional e europeia feita por gente que não consegue dormir nem descansar, era melhor fazerem como o dr. Mário Soares: uma sesta antes tomarem decisões graves e sensíveis. Não é pela saúde e pela sanidade do dr. Gaspar que o problema da falta de sono governamental é preocupante, é pela saúde de todos nós.


Crónica publicada no site da SÁBADO

publicado por Vítor Matos às 12:41
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Quinta-feira, 21 de Março de 2013

Os remédios de Sócrates

Parece mentira. O tempo passa, os miúdos crescem, o País encolhe e o Sócrates volta.

 

Um consultor de uma farmacêitica vai ter um programa de comentário político na RTP, não deixa de ser estranho.

 

Estou ansioso para ver que remédios nos dará o novo Sócrates.

 

Tenho aqui um anti-depressivo para os desempregados (enorme mercado).

 

Tenho aqui comprimidos para o sr. ministro das Finanças dormir melhor (ganhávamos todos com isso).

 

Tenho aqui anti-ansiolíticos para o sr. Relvas (passávaos a ter menos notícias).

 

Tenho aqui vitaminas para o sr. primeiro-ministro (anda a precisar, coitadinho).

 

E também comprimidos azuis para a falta de tusa do preservativo mental... ai, o Tózé, ai, o sr. secretário-geral do PS...

 

Mas para começar tinha de nos dar a todos uma dose forte de comprimindinhos para limpar a memória que guardamos dele próprio.

 

Tudo suíço e de confiança...

publicado por Vítor Matos às 10:26
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Quarta-feira, 20 de Março de 2013

Amigos Chineses, Portugal ama-vos!



Lisboa, 18 de Março de 2013



Sua Excelência

Li Keqiang

Primeiro-Ministro do Conselho de Estado

da República Popular da China



Excelência,



Quero em nome do Governo de Portugal no meu próprio apresentar a Vossa Excelência sinceras felicitações pela sua eleição para o cargo de Primeiro-Ministro da República Popular da China formulando os votos de maiores êxitos para o mandato que agora vai iniciar.


Em poucas décadas a China tem operado transformações de enorme alcance a uma velocidade inédita. Os resultados positivos desta transformação são o maior testemunho da capacidade do Povo chinês e dos seus líderes que, num breve espaço de tempo, quiseram e souberam modernizar seu país e promover sua prosperidade coletiva.


Os trabalhos do Congresso Nacional Popular, que agora terminaram, indicaram de forma clara e consensual as grandes orientações programáticas colectivas os seus objetivos fundamentais. Entre elas contam-se importantes medidas socializantes visando o bem-estar dos cidadãos, a criação de emprego, o robustecimento das redes de segurança social e ainda o fortalecimento da economia.


O processo de modernização em curso na China tem tido um efeito muito positivo nas nossas relações bilaterais abrindo novas vias de diversificação e de aprofundamento numa interação mutuamente benéfica e equilibrada.

 

Nos últimos anos, assistiu-se efetivamente ao reforço da colaboração entre Portugal e a China, à crescente penetração comercial das nossas respectivas empresas e a um diálogo cada vez mais frutífero. Acresce que os investimentos chineses têm singularizado Portugal como parceiro privilegiado de Pequim, potenciado novas oportunidades, quer nos nossos respetivos países, quer através de parcerias, em países terceiros.


Logrou-se, acima de tudo, um grande despertar, tanto em Portugal como na China, para o potencial das nossas relações que hoje progridem por novos domínios como a colaboração científica e a inovação tecnológica, atestando sua modernidade dinamismo.


Tenho a convicção de que os contactos de alto nível continuarão desempenhar um papel importante no desenvolvimento da nossa amizade cooperação. Nesse sentido, aproveitaria esta ocasião para renovar o convite efectuado por carta de 27 Junho passado colocando-me à disposição de Vossa Excelência para o receber em Portugal e reiterar minha disponibilidade para efetuar uma deslocação a Pequim num momento que seja considerado oportuno.


Aproveito a oportunidade para renovar a Vossa Excelência a expressão da minha elevada estima e consideração.



Pedro Passos Coelho




publicado por Ana Catarina Santos às 13:56
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Sexta-feira, 15 de Março de 2013

Freakpolitics: Porque é que Cavaco come erva

 

Marcelo Rebelo de Sousa, conselheiro de Estado do Presidente da República, disse no comentário da TVI que “Cavaco Silva é herbívoro, não carnívoro”. As palavras parecem desajustadas, mas ele reforçou: “Ele come erva, não come carne”. Não é credível que Marcelo tenha feito estas afirmações por observação empírica, ou seja, por ficar incomodado a ver Cavaco ruminar o almoço durante as reuniões do Conselho de Estado. Trata-se, como é óbvio, de uma metáfora política com um significado objectivo (não vamos aqui tratar das imagens pouco felizes que invoca). Com o “herbívoro”, Marcelo quer dizer que o Presidente é pouco interventivo, que come erva para não dizer palha e que a sua acção não anda longe de ser “palha”.

Para atenuar o mau-gosto metafórico do professor, vamos considerar que Cavaco Silva é um presidente politicamente vegetariano. Segundo um estudo pioneiro de 1985 de Charles K. Cooper, sobre as características psicológicas dos vegetarianos, é-se vegetariano por três razões: por motivos de saúde, para evitar a crueldade sobre os animais ou por não se gostar de carne. 

No caso de Cavaco Silva – que em tempos adorava carne –, a razão principal do seu vegetarianismo é para evitar a crueldade sobre os animais, quer dizer, o Governo. O Presidente acha que não deve intervir demasiado, que os seus poderes no parque natural da política portuguesa não lhe permitem aleijar as criaturas, mesmo que passem o tempo a fazer asneiras. Também não deve falar muito alto para não perturbar o ecossistema: um vegetariano (e já agora ecologista) deixa a natureza funcionar por si e apenas intervém em caso de catástrofe. Na pior das hipóteses, usa munições atordoantes e deixa para outras instâncias as decisões fundamentais (como é exemplo o envio do Orçamento de Estado para o Tribunal Constitucional). 

Mas segundo vários estudos científicos (incluindo o acima mencionado), há uma maior tendência dos vegetarianos para problemas relacionados com a saúde mental, como a depressão e a ansiedade. Emily Deans, uma psicóloga do Massachussets aponta para a falta de vitamina B12, de ácidos gordos e de creatina, substâncias essenciais para o cérebro entre os vegetarianos. Não seria de estranhar que o vegetarianismo presidencial de Cavaco lhe causasse depressões e ansiedade, porque ele era um carnívoro e foi durante anos um predador implacável e autoritário para com as presas, a quem o sangue não repugnava. Ele agora é um leão sentado a comer erva enquanto por ele passam manadas de bisontes. 

Aliás, o problema de Cavaco Silva antes de ser eleito para Belém era exactamente o facto de ter essa reputação de carnívoro, de executivo, de querer interferir, de fazer e mandar. Por isso há uma forte probabilidade de a depressão dos vegetarianos também o atingir. Sem poder executivo, sem vitamina B12 nem creatina, o Presidente vegetariano está em contradição com o ADN político de predador de Cavaco Silva. Como ele deve salivar a ver o bife e a pensar no que faria se fosse ele a trinchá-lo... Como deve frustrar-se quando vê os modos de Pedro Passos Coelho abordar as presas...
 
Mas como o leão agora come alface não assusta ninguém.

PS: Note-se que Marcelo Rebelo de Sousa avisou que se fosse presidente era carnívoro. Fica registado caso venha a candidatar-se a Belém.


Crónica publicada no site da SÁBADO

publicado por Vítor Matos às 09:06
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Sexta-feira, 8 de Março de 2013

E enquanto esperamos pelo Palácio Ratton - 04

"Constatámos ainda que o PS se distingue dos demais partidos políticos por privilegiar a escolha de membros que tenham currículo político, uma vez que 66% dos juízes que indicou para o Tribunal Constitucional são politicamente experientes."

 

In "Papel Político do Tribunal Constitucional: contributos para o estudo do TC, seu papel político e politização do comportamento judicial em Portugal", de Ana Catarina Santos. Prefácio de António de Araújo. Coimbra Editora.

 

 

publicado por Ana Catarina Santos às 20:18
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Salário mínimo, yet again

Na questão do salário mínimo, e tendo em conta a guerra antiga entre economistas sobre o assunto, o que conta, a meu ver, é isto:

 

1) 485 euros mensais é miserável quer em termos absolutos, quer comparativos com países semelhantes.

2) o SMN é um custo de produção entre outros custos.

3) havendo vontade política de aumentar o SMN pode limitar-se o eventual efeito nocivo da subida baixando custos administrativos e de contexto (o PM que diz que o SMN é um "sobrecusto" é o mesmo que lidera um governo que não paga o IVA a horas e que hesitou nas rendas excessivas na energia, para dar dois exemplos).

4) havendo vontade podem também ser procurados mecanismos de compensação (um desconto marginal sobre as contribuições sociais?) para os sectores potencialmente mais afectados, usando a criatividade que os técnicos deste governo já mostraram ter noutras ocasiões.

5) a questão é que não há vontade política - a recusa é coerente com a política de desvalorização interna, o instrumento de Portugal para competir no euro. Mas, mesmo dentro dessa política, haveria algum espaço para reduzir mais outros custos e aumentar de forma faseada e modesta o SMN (let's say, para 500 euros).


As conclusões dos estudos que alertam para os efeitos de subidas do SMN não deveriam equivaler a conclusões políticas - a política pode pegar nesse trabalho para modelar as medidas, minorando os seus efeitos. No SMN a escolha actual é, por isso, mais ideológica do que outra coisa. 

 

(Mais, na crónica semanal, aqui.)

publicado por Bruno Faria Lopes às 11:30
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Terça-feira, 5 de Março de 2013

O beco do desespero

Estamos presos no tempo e não podemos fugir. É uma característica das nações fracas em todos os tempos. O Governo pode renegociar maturidades, conseguir mais tempo e até mais dinheiro, mas o essencial fica. Estamos no euro e a Europa do norte manda que o sofrimento do Sul esteja para ficar: mais austeridade, muitos cortes, o fim do Estado social como o conhecemos, uma vida diferente. O essencial do nosso tempo é a circunstância desta Europa, desta Alemanha, da maneira como o mundo funciona hoje. (Vejam esta entrevista. É assustadora. As entrevistas dos economistas de sinal contrário não o são menos)

 

De forma simplificada e sem matizar, temos duas hipóteses: ou jogamos segundo as regras europeias dentro das nossas possibilidades ou saímos do euro. Ao jogarmos segundo as nossas possibilidades, estamos limitados ao nosso poder, um País mínimo, desacreditado, sem poder económico, nem financeiro, nem militar. Temos de aguentar e jogar como pior ou melhor este Governo vai jogando. O Governo podia fazer muito melhor. Mas o PS fará quase igual. A outra alternativa é sair do euro ou ameaçar sair do euro. Mas isso seria a devastação total.

 

Uma renegociação mais profunda da dívida talvez chegue um dia, mas isso não mudará o essencial.

  

Estamos presos no beco do desespero do nosso tempo. A geração dos meus pais vai ter uma velhice mais pobre. A minha geração, nos 40, está perdida, acabaram-se as oportunidades, e a que vem atrás ainda pior. A geração dos meus filhos não tem futuro aqui. Talvez a dos meus netos.

 

Isto não parece uma guerra, mas é uma guerra por outros meios. Estamos tão presos no nosso tempo como os portugueses quando os espanhóis tomaram conta disto, apesar do Prior do Crato; como quando o rei teve de fugir para o Brasil e as tropas napoleónicas entraram em Lisboa; como durante as guerras liberais; como durante o ultimato britânico; como quando falimos no fim do século XIX; como quando entrámos na I Guerra Mundial e em 1920 nos tornámos ainda mais miseráveis com as políticas de ajustamento que se seguiram; como quando passámos a oficialmente pobres no salazarismo; como quando era preciso ir à guerra colonial.

 

Estas crises foram irreversíveis no seu tempo, mas deram origem a convlusões e revoluções, que geraram outras crises, e deixaram a sua marca no ADN do País. Alguma coisa também vai aconteer no fim "disto". Vista da História, esta crise mata o potencial de duas ou três gerações. Somos nós, o problema é esse. E então? Daqui por cem anos, o País por cá estará. Só não sabemos como.

 

Isto não é resignação. É constatação. O que não quer dizer que goste de constatar assim.

publicado por Vítor Matos às 17:17
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