Sexta-feira, 5 de Outubro de 2012

O problema de se bater no fundo...


 ... é que quanto mais se bate no fundo mais ele desce.
publicado por Filipe Santos Costa às 09:54
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

Memória: Quando Soares era um Passos Coelho

 

Camaleão experiente, Mário Soares acha que o PS deve desvincular-se do plano da troika. Argumenta que a austeridade é excessiva. Considera os líderes europeus uns irresponsáveis. Se calhar, tem razão. Mas o interessante é ver o que Mário Soares dizia sobre a austeridade e o programa do FMI entre 1983 e 1985, quando chefiava o Bloco Central e tinha de aplicar o chamado "grande ajustamento". Dei-me ao trabalho de passar uma tarde na hemeroteca à procura das frases de Soares para a "Sábado" e, por estranho que pareça, encontrei palavras de Passos Coelho em jornais amarelos, na boca do velho primeiro-ministro. Moral da história: no poder tudo muda. Aqui fica, para quem quiser recordar.

 

Os problemas económicos em Portugal são fáceis de explicar e a única coisa a fazer é apertar o cinto”. DN, 27 de Maio de 1984

 

“Não se fazem omoletas sem ovos. Evidentemente teremos de partir alguns”. DN, 01 de Maio de 1984

 

“Quem vê, do estrangeiro, este esforço e a coragem com que estamos a aplicar as medidas impopulares aprecia e louva o esforço feito por este governo.” JN, 28 de Abril de 1984

 

“Quando nos reunimos com os macroeconomistas, todos reconhecem com gradações subtis ou simples nuances que a política que está a ser seguida é a necessária para Portugal”. Idem

 

“Fomos obrigados a fazer, sem contemplações, o diagnóstico dos nossos males colectivos e a indicar a terapêutica possível” RTP, 1 de Junho de 1984. Idem, ibidem

 

“A terapêutica de choque não é diferente, aliás, da que estão a aplicar outros países da Europa bem mais ricos do que nós” RTP, 1 de Junho de 1984

 

“Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos”. Idem

 

“O importante é saber se invertemos ou não a corrida para o abismo em que nos instalámos irresponsavelmente”. Idem, ibidem

 

“[O desemprego e os salário em atraso], isso é uma questão das empresas e não do Estado. Isso é uma questão que faz parte do livre jogo das empresas e dos trabalhadores (...). O Estado só deve garantir o subsídio de desemprego”. JN, 28 de Abril de 1984

 

“O que sucede é que uma empresa quando entra em falência... deve pura e simplesmente falir. (...) Só uma concepção estatal e colectivista da sociedade é que atribui ao Estado essa responsabilidade. Idem

 

“Anunciámos medidas de rigor e dissemos em que consistia a política de austeridade, dura mas necessária, para readquirirmos o controlo da situação financeira, reduzirmos os défices e nos pormos ao abrigo de humilhantes dependências exteriores, sem que o pais caminharia, necessariamente para a bancarrota e o desastre”. RTP, 1 de Junho de 1984

 

“Pedi que com imaginação e capacidade criadora o Ministério das Finanças criasse um novo tipo de receitas, daí surgiram estes novos impostos”. 1ª Página, 6 de Dezembro de 1983

 

 “Posso garantir que não irá faltar aos portugueses nem trabalho nem salários”. DN, 19 de Fevereiro de 1984

 

“A CGTP concentra-se em reivindicações políticas com menosprezo dos interesses dos trabalhadores que pretende representar” RTP, 1 de Junho de1984

 

“A imprensa portuguesa ainda não se habituou suficientemente à democracia e é completamente irresponsável. Ela dá uma imagem completamente falsa.” Der Spiegel, 21 de Abril de 1984

 

“Basta circular pelo País e atentar nas inscrições nas paredes. Uma verdadeira agressão quotidiana que é intolerável que não seja punida na lei. Sê-lo-á”. RTP, 31 de Maio de 1984

 

 “A Associação 25 de Abril é qualquer coisa que não devia ser permitida a militares em serviço” La Republica, 28 de Abril de 1984

 

“As finanças públicas são como uma manta que, puxada para a cabeça deixa os pés de fora e, puxada para os pés deixa a cabeça descoberta”. Correio da Manhã, 29 de Outubro de 1984

 

“Não foi, de facto, com alegria no coração que aceitei ser primeiro-ministro. Não é agradável para a imagem de um politico sê-lo nas condições actuais” JN, 28 de Abril de 1984

 

“Temos pronta a Lei das Rendas, já depois de submetida a discussão pública, devidamente corrigida”. RTP, 1 de Junho de 1984

 

“Dentro de seis meses o país vai considerar-me um herói”. 6 de Junho de 1984

publicado por Vítor Matos às 13:50
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

Balanço da check-list do enviado do FMI

No dia 7 de Abril escrevi aqui a check-list da troika: foi menos mau do que tinha previsto, mas acertei em muitas. Vou mandar o currículo para Washington.

Aquelas em que acertei estão a bold.

 

 

 

RECEITA PORTUGUESA SEM BACALHAU: 

 

- Corte da massa salarial da função pública em 15% a 20%

- Pressão para uma revisão constitucional que permita despedimentos colectivos no Estado

- Corte no próximo subsídio de Natal e ou de Férias no Estado (taxa especial sobre privados)

- Corte de 10% a 15% nas pensões acima de 1500 euros (foi um pouco menos)

- Congelamento de todas as pensões

- Criação de um tecto máximo para as pensões mais altas

- Aumento na idade de reforma

- Aumento das taxas de IVA

- Revisão das [tabelas] deduções do IRS

- Oferecer um dia de salário à Nação [Força companheiro Vasco!]

- Aumento dos impostos sobre o tabaco e o álcool

- Privatizar o máximo possível de empresas públicas

- Alienar participações minoritárias do Estado e fim de golden-shares

- Vender património imobiliário

- Fechar e fundir mais escolas

- Flexibilizar o mercado de trabalho e facilitar despedimentos

- Reduzir a comparticipação em medicamentos

- Eliminação de benefícios fiscais

- Aumento do preço dos transportes públicos

- Aumento do preço das portagens

- Cortes de 20% nos consumos do Estado

- Fim da atribuição de viaturas no Estado a torto e a direito

- Redução do número de efectivos no Exército e reorganização territorial das tropas terrestres

- Redução do tempo no subsídio de desemprego e dos valores atribuídos

- Cortes nas obras públicas e cancelamento de contratos como o do TGV

- Reorganização do mapa do poder local, com o fim de muitos concelhos e freguesias e criação de outros

- Eliminação de centenas de empresas municipais

- Fim de múltiplos institutos públicos e fundações

- Cantar o Grândola Vila Morena antes dos jogos da selecção nacional

publicado por Vítor Matos às 11:35
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

Os idiotas úteis

 

O programa da troika é duro? É. Muito.

É mais duro do que o PEC 4? Sim, bastante mais duro.

As pessoas vão viver pior? Vão, bastante pior - sobretudo a classe média e a classe média-baixa.

 

O programa é uma derrota do Governo? Sim, em toda a linha - é a demonstração de que os programas anteriores não foram cumpridos e de que o PEC 4 não chegava. É a demonstração de que o País de fantasia de Sócrates só existe nos seus discursos. Ou seja, se não fosse obrigado a fazer o pedido de resgate, Sócrates iria continuar a afundar Portugal, a fazer teatrinho e a brincar às rasteiras políticas enquanto o deixassem.

 

A receita é mais soft do que a da Grécia e da Irlanda? É. Mas isso não se deve ao PM ou à capacidade de negociação do Governo. Ao contrário do que disse Sócrates, no tempo de antena de ontem à noite, o Governo não "conseguiu um bom acordo", pela simples razão de que não está em posição de "conseguir" coisa nenhuma. O País não tem força e este Governo não tem autoridade para isso.

Se este programa não é tão mau como o grego e o irlandês, isso deve-se sobretudo a dois aspectos: por um lado, Portugal já tomou algumas das medidas (como o famoso corte dos salários) que os outros foram obrigados; por outro, a troika (e em particualr o FMI) aprendeu alguma coisa com os erros da Grécia e da Irlanda.

 

Então, como é possível ler e ouvir que este programa é uma vitória de Sócrates? Ou, como dizem alguns, um pouco mais comedidos, uma "meia vitória"? Desde quando é que um atestado de incompetência ao País e ao seu Governo pode ser visto como uma vitória?

 

Tem tudo a ver com a gestão de expectativas. Ao longo das últimas semanas, a comunicação social indígena entreteve-se a fazer manchetes com os piores cenários possíveis. Com base em quê? Em muito pouco: por junto, na extrapolação para Portugal das receitas grega e irlandesa, e no spin de gente do Governo e do PSD, a quem convinha criar um cenário apocalíptico.

 

O interesse dos spin doctors do Governo percebe-se: quanto piores fossem as expectativas, melhor Sócrates sairia na fotografia, com a conversa de ter conseguido o tal "bom acordo".

Já o intuito que moveu os spin doctors do PSD - que andaram este tempo todo a prever o pior dos mundos, com ajuda de 100 mil milhões, o fim do 13º e do 14º mês e quejandos... - é que continua a ser um mistério.

 

Conclusão: a ideia de que, afinal, isto não foi assim tão mau, já se instalou. Com uma mão cheia de péssimas notícias, que o deviam afundar de vez, Sócrates prepara-se para fazer um brilharete. Deve agradecê-lo à proverbial incompetência do PSD e à prestimosa colaboração da comunicação social.

Uns e outros comportaram-se como idiotas úteis.

publicado por Filipe Santos Costa às 12:30
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
Terça-feira, 19 de Abril de 2011

A troika portuguesa de salvação nacional

 

 

Eis o governo de salvação nacional! A troika é nossa! Quem pensar que perdemos a soberania com a intervenção externa engana-se. A Democracia tem estranhos desígnios e escreve direito por linhas tortas. Estes três homens acharam que não lhes bastava aquele poder todo, era preciso mandar também em Portugal, para não deixar o País cair em mãos alheias, estrangeiras. Não senhor. É uma missão patriótica: Portugal ajoelha-se, mas diante dos seus, isto não é uma capitulação, é uma nova forma de estar no mundo. Nunca houve bancarrota em Portugal onde quem mandasse de fora fosse cá de dentro. 

 

- Como António Borges não conseguiu ser líder do PSD para chegar a primeiro-ministro, teve de se esforçar um pouco mais para ser Director do Departamento Europeu do FMI, que, diga-se em abono dele, é muito mais difícil do que ser eleito líder do PSD (uma coisa que se tornou banal), e assim governar Portugal à distância e por controlo remoto;

 

- Como Durão Barroso viu que o País era irreformável ingovernável a partir de São Bento, resolveu em 2004 ser presidente da Comissão Europeia, uma vez que, mais cedo que tarde, alguém teria de governar o rectângulo a sério. Barroso percebeu que mandar em Portugal era mais fácil a partir de Bruxelas com um comissário finlandês nas Finanças do que com a Manuela Ferreira Leite no Terreiro do Paço;

 

- Como Vítor Constâncio estava farto de ser vilipendiado por causa do cálculo do défice de 2005, por causa do BCP e pior ainda do BPN, decidiu finalmente ao fim de anos de hesitações (pelo menos desde 1989) ser mesmo governador de Portugal (com sede no BCE) em vz de governador do Banco de Portugal. Aí está ele agora a mandar mais nisto do que o próprio Cavaco - que fez dele gato e sapato quando era primeiro-ministro e o pobre Constâncio secretariava geralmente o PS e ambicionava apenas ser PM;

 

 

tags:
publicado por Vítor Matos às 00:08
link do post | comentar | favorito

apresentação

Tudo o que sobe também desce

Conheça a história do ascensor aqui.

autores

pesquisar

posts recentes

O problema de se bater no...

Memória: Quando Soares er...

Balanço da check-list do ...

Os idiotas úteis

A troika portuguesa de sa...

arquivos

links

subscrever feeds