Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
O que vai
mudar na política para a Saúde ou o que vai mudar naquilo que a ministra pensa sobre a política seguida, até agora, pelo Governo para o sector da Saúde
No programa
Face The Nation de segunda-feira, dia 28,
Hillary Clinton deu uma resposta a Bob Schieffer que em Portugal seria mais do que pindérica: era pirosa e sei lá que mais. Nos EUA dá votos, apesar dos charutos e das pretéritas brincadeiras com Mónica Lewinsky na Sala Oval. Mas o tempo e o poder são esponjas eficazes. Afinal, se Bill se excede no apoio a Hillary, contra Obama, é por amor.
Bob Schieffer pergunta: Algumas pessoas disseram que ele [Bill Clinton] estava fora de controlo, outras que estava a fazer exactamente o que você queria, que era o seu cão de ataque... continuará ele a agir desta forma agressiva ou vai mudar? [tradução livre]
Hillary Clinton responde [transcrição]: “Oh Bob, my husband has such a great commitment to me and to my campaign,
he loves me, you know, just like... you know... husbands and wives get out there and work in each others behalf. I certainly did that for him for many years and you know I’m very grateful for all of the help he is giving, supporting me along with my daughter. (...) In my own support of him, sometimes I also got a little carried away.
It’s human nature Bob, the spouses of all three of us have been passionate a vigorous defenders of each of us and maybe got a little carried away. (...) that comes wit sleep depravation...
Entrei num café ali na Duque de Ávila e pedi: “É uma bica e um queque, destes aqui, por favor!”
O empregado eriçou o bigodinho e trouxe a bica e queque. “Quanto é?”, perguntei. Ele respondeu:
- Hoje só paga o bolo. O café é oferecido.
E deu-me o panfleto de um banco, do balcão que ficava mesmo naquela rua.
- Eles hoje é que pagam!
Podem achar estranho, ou que sou muito vulnerável ao marketing (normalmente não sou), mas gostei tanto que me tivessem oferecido o café, que fiquei cheio de vontade de aceitar o convite e ir lá ver o que mais tinha o dito banco para me dar. Mas não fui.
Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008
Imagino que Sócrates deu rédea solta a Correia de Campos, na última semana, para dar entrevistas e aparecer à farta nas televisões, rádios e jornais, a "explicar aos portugueses" - como pedia o Presidente da República - a reforma da Saúde. Ele apareceu. Como se esperava, tanta foi a visibilidade, tanta foi a conversa, tanta foi a casca de banana, que afastá-lo se traduz num alívio para os portugueses e numa descompressão para o Governo. Um alívio ilusório. Acredito que mude o estilo. Duvido que se altere a política.
Para a Saúde vai uma mulher porque da Cultura saiu uma mulher. O Governo que instituiu as quotas não podia deixar a ministra da Educação a corar sozinha com as conversas de homens do Conselho de Ministros. Uma mulher, Ana Jorge, com low-profile, é uma técnica, uma par dos profissionais que tutela, e raramente se irrita: um perfil contrário ao de Correia da Campos, para pacificar um sector central e preparar 2009.
Na Cultura, um homem com high-profile substitui uma ministra por quem não se dava. Pinto Ribeiro vai aparecer, vai dar nas vistas, é mediático e sabe sê-lo, vai ser um Carrilho de mundanidades (também tem melena estudada e namorada mediática) como se quer numa área como a Cultura. Aqui Sócrates quer recuperar as elites. A mudança de política será tanta quanto o novo ministro evitar os disparates da ex-ministra.
Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008
Este Pais Não é Para Velhos, de Cormac McCarthy. É uma história sobre o mal, sobre como o mal é invencível, sobre como pode sê-lo, mesmo contra a nossa angústia. Apesar de pensarmos, no conforto das nossas vidas ocidentais, que o mal foi feito para ser vencido pelas forças do bem – pela polícia, pela medicina, pela justiça, seja o que for -, nem sempre é assim (o 11 de Setembro já mudou essa percepção, apesar de o livro nada ter a ver com isso). É um western moderno, mais fácil de ler que A Estrada. O poder de Chigurh quando atira a moeda ao ar é o mesmo de Deus quando traça o destino e decide da vida e da morte. Moss não anda longe de sermos nós. O xerife somos nós. Chigurh é o outro. Espero ansiosamente pelo filme dos irmãos Cohen, cheio de nomeações para os Óscares, onde Javier Bardem faz de Chigurh.
Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008
O Meu Nome é Legião, de António Lobo Antunes. Borreguei na página 262, de 380. É um génio, pois, que escreve como mais ninguém, como aliás ele diz com razão. Ninguém escreve assim, tão em trança, a não ser as imitações baratas do mestre: enquanto conta a história os personagens vivem e pensam, e pensam sobre os seus pensamentos, como nós enquanto estamos aqui pensamos coisas que se transformam em pensamentos que nos pensam a nós. Naquele mundo, nós somos esses pensamentos, mais do que aquilo que nos acontece. Ninguém escreve tão bem como se estivesse dentro de uma pessoa a viver e a pensar, e a ser dominado pelos seus pensamentos, assaltado a toda a hora por reminiscências involuntárias. Reconhecer isto é uma coisa. Ler o livro até ao fim é outra: personagens sempre assaltadas pelos brinquedos de infância, pelas fachadas dos prédios dos subúrbios, pelos objectos da cozinha, por tudo numa eterna repetição... Parei a leitura quando os meus pensamentos passaram a dominar-me, como às personagens, e deixei de ter domínio sobre o livro e acrescentei mais umas tranças às tranças do livro e ficou tudo empeçado. Então, fui à estante, e peguei no Este País não é para Velhos, de Cormac MacCarthy, e não parei de o ler.
Segundo o
Correio da Manhã de hoje, 117 deputados (em 230) já suspenderam funções e 37 renunciaram aos mandatos. Se a eleição como deputado não é para levar a sério, nós também não levamos a sério. O problema é cada vez mais esse. Mais um ponto a favor dos círculos uninominais.
Exemplos
PS: Pina Moura, António Vitorino, Jorge Coelho, João Cravinho, José Apolinário...
PSD: Luís Filipe Menezes, Luís Marques Mendes, Morais Sarmento, Dias Loureiro..
CDS: Pires de Lima, Álvaro Castelo-Branco...
PCP: Odete Santos... (eles bem tentaram correr com a Luísa Mesquita)
Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008
“O Consultor de gregos e troianos”. Numa peça com este título, o Público hoje toca na zona infectada da ferida: António Cunha Vaz era assessor de Carlos Santos Ferreira na Caixa Geral de Depósitos, e, enquanto isso, assessorava Jardim Gonçalves num dos episódios da crise do BCP, para logo depois assessorar o mesmo Santos Ferreira como candidato à presidência do BCP, enquanto assessorava Luís Filipe Menezes que dizia que o PS estava a tomar o BCP de assalto – por via daquele malandro do Santos Ferreira assessorado pelo seu assessor - e que a CGD devia sobrar para o PSD. Nada disto faz sentido mas acontece em Portugal.
Só por uma tendência exagerada para a autofagia se percebe que o PSD ande a consumir energias a discutir se a agência de comunicação Cunha Vaz deve ter ou não ter um agente no Parlamento. A posição de Santana
vs Ribau (no
Público de hoje) é reveladora da confusão que vai entre São Caetano e São Bento. Enquanto os santinhos se zangam em guerrinhas do Alecrim e Manjerona, Sócrates vai rindo. Por pior que a situação esteja, o povo olha para o lado direito do PS e não confia.
Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008
Os sinais estão aí. Há demasiados ovos no ar: crise financeira mundial; bolsas com quedas abruptas; abrandamento económico geral; os EUA em ambiente de pré-recessão a tomarem medidas preventivas; os norte-americanos nervosos a reagiram, através de Bush, a rádio-amadores pensando que são iranianos a fazer ameças de guerra; o Paquistão em crise; a América Latina imprevisível, etc., etc...
O Governo tem de se mostrar optimista, claro, ou então era melhor fazer as malas e ir para casa. Mas há muita gente e demasiado importante com quem tenho falado, a fazer esta leitura: vem aí crise económica e, como se sabe, em ano de eleições “it’s the economy, stupid!”; até Junho já não dá para fazer nada, leia-se ter o PRACE prontinho e acabado para depois aparecerem os resultados; no Verão o País pára; e a partir de Setembro Sócrates começa a campanha eleitoral a lançar obras a torto e a direito.
O problema do Governo, e de todos nós, é se um dos ovinhos que está no ar cai no chão e depois caem os outros todos porque não temos mãozinhas para os agarrar. Cassandra só dava más notícias, mas tinha sempre razão.