Sexta-feira, 31 de Julho de 2009
"Tenho mais medo da morte do meu marido do que da minha. Mas não me apetece nada morrer".
Maria Cavaco Silva, no i. 17 valores no índice do Amor de Perdição.
Com o PSD e o PS empatados, teremos um Outono mais quente do que os calores do Verão eleitoral. Embora hoje as sondagens... enfim... a verdade é que o estudo da Eurosondagem
SIC/Expresso/RR deixa antever uma grande dor de cabeça para Cavaco Silva. É preciso não esquecer que Cavaco não poderá dissolver a AR nos seis meses seguintes às Legislativas, ou seja, até Abril de 2010; e também não a poderá dissolver a partir de Agosto de 2010, seis meses antes das eleições Presidenciais. Portanto, poderemos vir a ter vários governos com base na mesma composição parlamentar. Os resultados são estes:
PS - 33%
PSD - 31%
BE- 10%
CDU - 9,4%
CDS - 8,5%
Com um resultado mais ou menos assim, podemos ter cenários estranhos, mesmo muito estranhos. Os partidos irão a Belém na segunda-feira, 28 de Setembro, comunicar as suas posições ao PR e depois o tabuleiro é de Cavaco. Convém não esquecer que, segundo a Constituição, o PR nomeia o PM com base nos resultados eleitorais, depois de ouvidos os partidos com assento parlamentar e isso dá-lhe uma grande margem de manobra.
Cenário 1 - O PS assume um Governo minoritário, fazendo acordos pontuais com o CDS, o Bloco e por vezes o PSD. O CDS e o PS adoptarão uma táctica de "tenaz" para entalar e diminuir o PSD, que terá toda a pressão do PR para manter a estabilidade e a governabilidade - sobretudo se a líder continuar a ser Manuela Ferreira Leite.
Cenário 2 - O PS assume que fará um governo minoritário, mas uma coligação pós-eleitoral PSD-CDS reclama o Governo junto do PR, por ter mais deputados ainda que não a maioria absoluta. Cavaco tem de decidir. Mas se der o Governo à direita terá toda a esquerda a precipitar uma crise rapidamente. O PR tem de usar de toda a sua influência junto do PS para lhe amansar os ímpetos.
Cenário 3 - PS coliga-se ou faz um acordo de incidência parlamentar com o BE. Terá o PSD e o CDS do outro lado da barricada e será o PCP o fiel da balança.
Cenário 4 - Bloco Central. Pode assumir duas formas: coligação governamental ou acordo parlamentar, com Cavaco a funcionar como pivot do diálogo entre as duas forças políticas. é muito improvável com as actuais lideranças.
Cenário 5 - Cavaco dá posse a um governo suportado pelo PS e pelo PSD com um primeiro-ministro à cabeça que ambos os partidos aceitem e que não é nenhum dos líderes partidários.
A fantasia daria para muito mais, mas temo que a realidade venha a ser mais fértil do que a minha modesta imaginação.
Ao ler o programa do PS de 2005 deparo com esta frase que explica tanta coisa, tendo por motivação uma honesta tentativa de cumprir uma promessa.
- "Reduzir para metade o insucesso escolar nos ensinos básico e secundário"
Se criar 150 mil postos de trabalho é uma tarefa que foge às mãos dos governantes mais bem intencionados porque estes só detêm uma pequena parcela do poder para resolver o problema, no caso do insucesso escolar a coisa é mais ínvia. Então a quantificação do objectivo - "reduzir para metade" - torna o cumprimento da promessa um insulto à natureza do que é uma escola.
Um Governo não devia estar preocupado com o insucesso escolar, mas sim com a exigência no meio escolar. Em circunstâncias normais, o sucesso ou insucesso é da responsabilidade de cada indivíduo e não do governo. Ter bons professores, mais exigentes, pode ajudar, mas também pode precipitar um cataclismo de insucessos sobre quem não estiver preparado para uma exigência acima da média. Portanto, o sucesso a curto prazo, como se viu, para cumprir uma promessa eleitoral que nunca devia ter sido feita deu péssimos resultados, como se viu no abaixamento da exigência de algumas provas ou aligeiramento nos critérios de avaliação. Aqui o Governo traiu-se. De facto, na Educação esteve a trabalhar para a estatística errada.
Quinta-feira, 30 de Julho de 2009
O PR ganhou a guerra política do Estatuto dos Açores.
Acaba de saber-se: não passou no Tribunal Constitucional. Cavaco vetou duas vezes. Sócrates, tal como Cavaco fazia aos vetos de Soares, aprovou o diploma duas vezes no Parlamento, obrigando o PR a promulgar. O TC agora desempatou e deu a vitória a Belém. A pressão de Cavaco foi tão grande e o conteúdo da lei era tão ridículo e mal engendrado que o desfecho só podia ser este. Fica por saber o que levou Sócrates e o PS a insistirem em tamanha aberração: precipitar eleições antecipadas, comprar uma guerra com o PR para acabar com a cooperação estratégica... vamos lá percebê-los.
Quer fazer um banco? Contrate bons advogados. A avaliar pelas
declarações de António de Sousa, antigo governador do Banco de Portugal, ontem, na SIC, foram os causídicos mandatados pelos accionistas do Banco Privado Português (BPP) que forçaram o orgão de supervisão a conceder ao projecto a licença que o banco central, alegadamente, tinha dúvidas em dar.
Ficou a saber-se que, em matéria de autorizações para a instalação de novas instituições financeiras, o Banco de Portugal não manda nada. Mesmo amuados - ou "contrariados", como afirmou António de Sousa - os responsáveis da instituição vão fazendo as vontades, desde que, supõe-se, pressionados pelos juristas certos e escudados numa legislação com costas largas e que não lhes dá margem de manobra.
Tudo isto se passou em 1996, ano em que a licença de actividade foi concedida ao BPP, quando o Banco de Portugal tinha a obrigação de não ignorar dúvidas como as que são levantadas por
esta auditoria. O
documento acusa João Rendeiro, maior accionista e antigo presidente do BPP, de ter feito negócios que prejudicaram um fundo do Grupo Totta - que geria - em benefício de uma outra instituição - que também geria - e de que não foi possível determinar quem eram os proprietários.
Quem acredita que o Banco de Portugal só começou a ressonar profundamente com a chegada de Vítor Constâncio à sua liderança, está enganado. A instituição já anda anestesiada há muitos mais anos e é um caso paradigmático sobre como, em esferas elevadas, funciona o velho conceito do "nacional porreirismo".
O retrato da justiça em Portugal é este: Fátima Felgueiras foi ilibada, como Avelino Ferreira Torres já tinha sido. Falta sabermos de Isaltino Morais. Os presumíveis inocentes agora são oficialmente inocentes, e culpados somos todos nós que os insultámos ao longos destes anos, coitadinhos. Já não sei se o escândalo maior são os escândalos que os levaram aos julgamentos se o resultado final.
No Programa de governo do PS, não percebemos como o Estado vai gastar menos. O Estado não tem apenas que gastar menos: tem de gastar muito, muito menos. Estaremos em crise, não será o momento, mas será quando? No entanto, o PS apresenta medidas positivas, como a adaptabilidade do horário de trabalho (que a esquerda do PS vai criticar) e a articulação do trabalho parcial com o subsídio de emprego; a compra de carros híbridos o eléctricos para o Estado; ou a continuação da política de energias renováveis. É positivo rever a lei das rendas, mas isso não deixa de ser um atestado de incompetência que o próprio PS passa a si mesmo.
O negativo: o PS mantém todos os grandes investimentos sem margem para dúvidas; quer diminuir deduções fiscais a “ricos” que não o são; afirma Estado!, Estado!, Estado!, quando o problema português é o excesso de Estado; prevê oferecer 200 euros por bebé; tenciona regionalizar. Sócrates quer parecer de esquerda, não sendo tanto quanto parece, para puxar ao eleitorado perdido e ao alegrismo fugido. Apesar de tudo, o programa é melhor do que o discurso de Sócrates ontem. Mas ninguém acredita que assim vamos salvar o País. Como se isso fosse possível.

Gosto disto. Canções simples e caseiras, guitarras acústicas, melodias serenas e boas harmonias vocais.
"Home" é o terceiro álbum na discografia de Peter Broderick. Foi editado no ano passado mas anda agora, novamente, a fazer-me companhia no leitor de CD do carro. A "folk" que por aqui se escuta tem semelhanças com aquilo que faz José González. Para fãs de "singer-songwriters" como Nick Drake ou Paul Simon, entre outros, Broderick tem argumentos para agradar e conquistar.
Quarta-feira, 29 de Julho de 2009
Estive há umas horas no CCB a ouvir José Sócrates apresentando o programa eleitoral do PS - uma desilusão.
Não que estivesse iludido - há muito que não cultivo a expectativa na política - mas com tantas críticas à ausência de ideias no PSD, pensei que viesse aí o grande fôlego do PS para os próximos anos, mas o discurso de Sócrates soube a pouco, a muito pouco, pobrezinho, muito pobrezinho, cheio de generalidades, pior que os seus discursos parlamentares.
No discurso desta tarde, numa sala cheia de tão pequena, em vez de sublinhar novas políticas do PS, atacou o PSD. Tem razão nas críticas, mas se critica falta de ideias dos outros era bom que nos desse algumas que valessem a pena. Falou em "continuar", "estender", "reforçar" e "melhorar" as políticas anteriores. Repetiu as últimas medidas que apresentou no Parlamento e nos jornais. E não deu nada de verdadeiramente novo que fosse relevante ou mobilizador para o futuro do país. Nem falou da regionalização (espero que tenha desistido dessa e que não tenha sido mera omissão táctica).
Num momento em que o País enfrenta a crise que tem, em que as eleições vão ser decididas por um voto ou dois, em que a crise política pós-eleitoral pode ser grave, surge-nos pela frente um primeiro-ministro com menos capacidade de olhar para o mundo hoje do que quando se candidatou pela primeira vez em 2005. E com menos pujança.
É um contra-senso. Agora Sócrates tem mais experiência. Mais informação. Devia ter mais condições para lançar ideias que fossem mais à frente das que teve há quatro anos. A não ser que esteja desiludido, cansado, menos ambicioso, mas isso não cola com a imagem do "estou muito satisfeito comigo mesmo".
Assim não vai lá. Mas vou dar o benefício da dúvida: vou ler o programa e depois logo digo se o acho melhor que o discurso de Sócrates ou se o discurso foi curto por o programa ser pouco. Qual então a diferença em relação ao PSD?
O cumprimento da "lei da paridade", que obriga a que as listas de candidatos ao Parlamento sejam compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33% de cada um dos sexos, é um dos grandes motivos de interesse do actual período pré-eleitoral. Vamos ter mulheres candidatas, simplesmente porque são mulheres, sem que exista qualquer relação com o seu mérito ou, até, vontade de ocupar o cargo.
Eu sei que é politicamente incorrecto, mas aos partidos que se vejam em dificuldades para cumprir com aquilo que a lei ordena, o Elevador da Bica sugere que o recrutamento seja efectuado junto de empresas como
esta ou
esta. Para que não nos acusem de machismo, também há nestes "sites" modelos masculinos que acreditamos terem condições para figurar nas listas e para dar boa pinta aos cartazes de campanha.