Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Confiança e desconfiança

“Houve uma fraude. O banco não tem condições de verificar se todos os emitentes não estão envolvidos em fraudes", disse um administrador do Banco Espírito Santo a propósito do recurso que a instituição vai apresentar de uma decisão judicial em Espanha, que condena o BES a reembolsar em meio milhão de euros um cliente que viu o seu dinheiro ser aplicado num fundo ligado ao esquema de Ponzi liderado por Bernard Maddoff.

É, pelo menos, razoável admitir que o banco não tem condições para fazer aquela verificação. Mas já é menos razoável aceitar que a instituição não tem quaisquer responsabilidades sobre os produtos que comercializa, ainda para mais quando ganha dinheiro com isso. É por estas e por outras semelhantes que as instituições financeiras saem da actual crise com o prestígio e a credibilidade de rastos. Pior: parece que os seus responsáveis aprenderam pouco com os acontecimentos dos dois últimos anos.

Acresce que a história, ao que se sabe, não se resume ao facto de o BES ter aplicado uma parte do dinheiro do cliente no tal fundo ligado a Maddoff. O tribunal espanhol deu como provado que o cliente tinha solicitado o investimento da soma entregue ao BES em produtos "conservadores" e nunca terá sido informado do perfil de maior risco das aplicações por onde o seu dinheiro se perdeu.

Posto isto, se é incontestável que o BES, ou outro banco qualquer, não é responsável pelas fraudes alheias, também parece ser indiscutível que é necessário ter uma perspectiva mais responsável sobre estas matérias para que possam existir laços de confiança entre as instituições financeiras e os respectivos clientes. Se os bancos se demitem das suas obrigações, por que motivo se poderão achar merecedores de crédito?
publicado por João Cândido da Silva às 19:48
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A classe média que pague a crise

"Não se trata de falar de ricos e pobres. Mas temos consciência de que há pessoas com rendimentos elevados em comparação com a maioria, que tem rendimentos mais baixos e precisa de apoios.", Teixeira dos Santos, entrevista à SIC

Se a comparação é com a maioria, então estamos conversados: 85% das declarações de rendimentos para o cálculo do IRS em 2005 diziam respeito ao escalão abaixo de 27.500 euros brutos por ano. Olhe-se para o problema de outro ângulo: 40% dos portugueses seriam pobres se não recebessem qualquer transferência do Estado (abonos, pensões, subsídios, etc.), segundo o INE.

Nestas condições – e tendo uma política fiscal que toma a maioria como referência – não admira que a definição de "ricos" em Portugal abranja a pura classe média e média/alta. O peso sobre estas pessoas (onde me incluo) tem vindo a crescer nos últimos anos: em 2006, 70% da receita de IRS foi conseguida a partir do escalão de 40 mil euros brutos anuais, que vale cerca de 8% das declarações entregues.

O Estado Social tem implícita a ideia de transferência de riqueza, da sua redistribuição – ora, em Portugal, a economia não cresce desde o início da década, a capacidade de gerar riqueza estagnou (perto de 0% entre 2000 e 2009). Como resolver?
publicado por Bruno Faria Lopes às 18:08
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Promessas vãs

Esta promessa socialista de oferecer 200 euros por cada criança que nasce, depositados numa conta que só poderá movimentar aos 18 anos (quando este dinheiro valer 250 euros), fez-me pensar: vou ter mais um filho, ai vou vou.
Ridículo, populista, medida vã, dinheiro deitado fora. O porta-voz do PS disse que isto é um incentivo à natalidade (vai tudo desatar a fazer filhos a pensar na continha) e uma educação para a poupança. Wrong! Não havia mais onde gastar aqueles, parece que são 150 milhões de euros? Mesmo que a caça ao voto seja uma actividade legítima com armas de qualquer calibre, este bodo aos pobres dará votos? - é uma dúvida que me assalta.
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publicado por Vítor Matos às 13:29
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A "long list" para o Man Booker Prize

Pistas para novos livros, com o Verão à porta. A long list do Booker foi tirada daqui:

* The Children’s Book, de A.S. Byatt (Chatto and Windus)
* Summertime, de J.M. Coetzee (Harvill Secker)
* The Quickening Maze, de Adam Foulds (Jonathan Cape)
* How to paint a dead man, de Sarah Hall (Faber and Faber)
* The Wilderness, de Samantha Harvey (Jonathan Cape)
* Me Cheeta, de James Lever (Fourth Estate)
* Wolf Hall, de Hilary Manter (Fourth Estate)
* The Glass Room, de Simon Mawer (Little, Brown)
* Not Untrue & Not Unkind, de Ed O’Loughlin (Penguin)
* Heliopolis, de James Scudamore (Harvill Secker)
* Brooklyn, de Colm Tóibín (Viking)
* Love and Summer, de William Trevor (Viking)
* The Little Stranger, de Sarah Waters (Virago)

E ainda há tempo para "White Tiger", o vencedor da edição de 2008 do Booker – uma grandíssima malha literária.
publicado por Bruno Faria Lopes às 13:04
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O erro do costume

O PS reconhece no envelhecimento da população um problema que o Estado deve ajudar a combater através de incentivos à natalidade. E propõe-se dar 200 euros por cada criança nascida, que serão aplicados num depósito que terá direito a benefícios fiscais. À superfície, isto parace muito bem.

Só há dois ou três problemas. Por um lado, esta generosidade dos cofres públicos numa altura em que o défice das contas públicas vai regressar aos níveis de há cinco anos pode ser imprudente. Depois, a soma em causa é bem capaz de não ser incentivo suficiente para que os portugueses desatem a ter filhos, apesar da boa intenção subjacente à proposta.

Por fim, a medida prometida comete o tipo de erro em que sucessivos governos têm caído. Dar 200 euros e fixar, à partida, como o dinheiro deve ser aplicado é uma iniciativa paternalista. Neste caso, manter o dinheiro durante 18 anos num depósito a prazo é forçar as famílias a fazerem um investimento com grandes probabilidades de se revelar muito pouco rentável em comparação com alternativas existentes no mercado para prazos tão longos.

É só fazer as contas. Duzentos euros aplicados a 18 anos com uma rendibilidade de 2% por ano resultarão em pouco mais de 285 euros. O mesmo valor, investido durante o mesmo prazo, mas com uma rendibilidade de 6% (inferior à média histórica dos mercados de acções) , dará um bolo próximo de 571 euros. São quase trezentos euros o preço a pagar pela incompetência do Estado quando decide assumir o papel de gestor das finanças das famílias.

Quer se trate de incentivar a natalidade ou de assegurar um complemento de reforma, o Governo devia privilegiar o investimento de longo prazo, em geral, e não este ou aquele produto como acontece com estes depósitos para jovens ou com os planos poupança-reforma. Por exemplo, não se percebe por que motivo quem investe em fundos de investimento com uma perspectiva de longo prazo não pode ter acesso aos mesmos incentivos.
publicado por João Cândido da Silva às 12:50
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Lido no Elevador

A propósito do mais recente "post" do Luís Miguel Afonso, aqui vai mais uma nota sobre um livro para ler no Verão ou em qualquer outra época do ano. Trata-se de "Netherland", de Joseph O'Neill, que já foi apontada como a grande obra sobre a Nova Iorque pós-11 de Setembro de 2001. Não me atreveria a tanto, mas recomendo este livro, em que um quadro de origem holandesa se vê forçado a viver sozinho na cidade, depois da desagregação da sua família.

A sua grande paixão pelo críquete será o ponto de partida para construir uma amizade improvável com um imigrante das Índias Ocidentais e deambular pelas comunidades que vivem, competem e sobrevivem nos bairros que rodeiam Manhattan. Nos intervalos desses périplos, o mítico Chelsea Hotel é o local de reunião de personagens bizarras que vivem o ambiente de entreajuda que se seguiu ao atentado às Torres Gémeas, essencial para manter a tranquilidade pública durante o "apagão" de Agosto de 2003.

O livro não tem (ainda?) edição em português.
publicado por João Cândido da Silva às 12:15
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Política e língua portuguesa: "não baixar" e "não subir" impostos

Ouço as notícias durante a bela viagem matinal para a battlestation laboral e levo com isto: "Ferreira Leite afasta descida de impostos a curto prazo". Ora, poderá haver espaço para alguma confusão visto que nos últimos dias tivemos estes anúncios: "José Sócrates rejeita baixar impostos", "Governo afasta subida de impostos e orçamento rectificativo", "Ferreira Leite garante que não vai aumentar impostos". Portanto: não baixar, não subir, não subir e hoje não baixar.

O Elevador põe um travão na fantástica folia e esclarece: 1) no fundo, todos estão a dizer que querem MANTER o nível de impostos; 2) isso não significa que a carga fiscal sobre alguns contribuintes não suba já em 2010; 3) a história mostra que subidas pronunciadas no défice orçamental levam sempre a maiores agravamentos da carga fiscal: ou seja, será uma sorte daquelas se impostos ou carga fiscal não subirem em 2010.
publicado por Bruno Faria Lopes às 12:04
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Terça-feira, 28 de Julho de 2009

Prova dos nove

Não sei se Ricardo Salgado foi um dos inquiridos portugueses que se manifestou a favor da união política ibérica, mas, tendo em conta a importância que atribui à crescente integração entre os dois países, será curioso verificar se manterá esta perspectiva no caso de algum banco espanhol se mostrar interessado em comprar uma grande instituição financeira portuguesa.
publicado por João Cândido da Silva às 19:12
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Convicção interesseira?

Desconfio que este entusiasmo dos portugueses pela união política com Espanha não passa de um desejo mal disfarçado de arranjar alguém que nos pague as contas. O problema é que a altura não é muito propícia para alimentar estas fantasias.
publicado por João Cândido da Silva às 18:54
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Música de Elevador

The Duckworth Lewis MethodThe Duckworth Lewis Method
The Duckworth Lewis Method
July 2009 :: Divine Comedy

Ora bem, o disco deste Verão resulta da parceria de dois gandas malucos da música britânica (irlandesa, para ser mais preciso): o irónico romântico Neil Hannon (Divine Comedy) – aqui a fazer as vezes de Lewis - e o lírico jovial Thomas Walsh (Pugwash) no papel de Duckworth. E o que é que estes ilustres senhores se lembraram? De fazer um álbum à volta do mundo do Cricket, um dos desportos mais chatos à face da terra. Chato para nós, como é óbvio! Tem todos os ingredientes para não resultar, dirão vocês. Mas o mais interessante, é que resulta. E em grande!

Imaginem um disco cheio de canções pop, simples, despretensiosas, a lembrar cantigas de um musical já perdido, de um cabaret à muito encerrado, de um carrossel onde os cavalos já perderam muita da tinta que lhes emprestavam o brilho. Mas o resultado não é pobre, antes pelo contrário. The Duckworth Lewis Method é um disco de uma melancolia invejável e, simultaneamente, de uma alegria contagiante, como só estes dois senhores são capazes. Onde o devemos catalogar? Difícil. Talvez na secção de Pop/Rock dos anos 70. Remixed, é claro!

Site Oficial: http://www.dlmethod.com/
publicado por Luis Afonso às 17:35
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