Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
“Nunca imaginei que um Presidente da República fosse capaz de fazer uma comunicação ao País tão ridícula e lamentável",
disse Alfredo Barroso, antigo assessor de Mário Soares na Presidência da República, sobre a intervenção de Cavaco Silva acerca do "caso das escutas". Sem dúvida que, no tempo de Soares, o talento para intrigar e manipular era muito mais apurado. Era feito às escondidas mas, também, à luz do dia, através das "Presidências abertas".
Peço desculpa por me estar a citar a mim próprio, mas escrevi
isto num editorial do Negócios publicado no dia seguinte ao da primeira notícia do "Público" sobre as alegadas escutas sobre Belém e hoje não retiraria uma vírgula. Sobretudo ao último parágrafo.
Agora, não sejamos ingénuos. Se existiu interesse público em denunciar uma fonte do "Público", argumento que eu considero muito discutível, ao ponto a que as coisas chegaram se calhar também já não chocaria ninguém que a fonte que deu a cópia do "e-mail" interno do "Público" ao "DN" fosse revelada. Pelo menos, quanto a saber quem tem mais habilidade e currículo para a intriga política ficaria tudo em pratos limpos.
Terça-feira, 29 de Setembro de 2009
1- A última pessoa e instituição em que os portugueses confiavam acaba de enterrar toda a sua credibilidade. Cavaco não sai bem desta história que ainda não sabemos como vai acabar.
2- O PR deixou passar 43 dias desde a primeiro notícia do Público para dizer que o PS estava a fazer um aproveitamento político inaceitável de uma notícia do Semanário, um jornal que nem existe. Nem a desmentiu nem pôs os socialistas mais excitados no lugar. Deixou arrastar.
3- Ao fim de 43 dias de factos e factóides, não faz uma declaração institucional mas uma "interpretação dos factos", o que me parece inaceitável para um PR.
4- Se considerou "graves" as declarações sobre os assessores do PR estarem a colaborar no programa do PSD porque é que não o disse antes?
5- Cavaco acusa o PS de o estar a encostar ao PSD, mas foi ele próprio que se deixou arrastar para a luta partidária com o seu silêncio. O PSD já disse que lamenta que ele tenha ficado calado tanto tempo, e com razão.
6- O PR acha que o seu assessor não cometeu um "crime" ao questionar as declarações políticas dos socialistas que falavam da colaboração entre Belém e o PSD. Mas já acha grave que deputados do PS façam comentários políticos sobre essa colaboração com base numa notícia de jornal reproduzida no site do PSD e não desmentida.
7- Cavaco só tem razão quando questiona a oportunidade da publicação no DN do email trocado entre os jornalistas do Público. A intenção de quem o fez chegar às redacções é óbvia: prejudicar o PR e o PSD.
8- O PR também acha que não é crime um membro da casa civil ter desconfianças em relação à atitude de outras pessoas. Mas esquece-se que falar com um jornal sobre essas suspeitas, em nome de um Presidente, não é como ter uma conversa de café. Não é crime: é só muito grave. Cavaco desculpa o indesculpável aos seus fiéis.
9- Quando o PR assume que há "vulnerabilidades" no seu sistema informático, lança uma suspeita inaceitável. Até a Nasa tem vulnerabilidades. A questão é se ele desconfia ou desconfiou alguma vez de que essas vulnerabilidades estavam a ser aproveitadas por alguém. Não pode achar que o desvio de um mail no Público - cujo sistema informático não foi violado -, pode justificar as suas desconfianças. Cavaco ainda terá de se explicar melhor sobre isto.
10- Cavaco Silva só se pode queixar de si próprio em toda esta comédia de enganos.
11- Em que condições dará posse a José Sócrates num momento em que o País precisava de um PR forte?
12- O PR inaugurou a mais grave crise institucional desde a estabilização democrática. Este lavar de roupa suja em declarações oficiais ao País, nem quando Eanes fundou o PRD. Isto não aproveita a ninguém. O País está triste.
Ainda a campanha vai no adro e os golpes baixos já começaram. A
acusação de António Costa a Pedro Santana Lopes de que este prefere investir em diversão em vez de apoiar a luta contra o cancro, a propósito da discussão sobre os terrenos para onde está prevista, pelo actual executivo camarário, a instalação do Instituto Português de Oncologia, é de evidente mau gosto. Se é por aqui que vai a campanha, então vai muito mal.
A chamada "Lei da paridade" não só não aumentou a presença de mulheres no Parlamento, como até
baixou o seu peso no hemiciclo. Se isto à força não vai lá, que tal revogarem a legislação, deixarem de tratar as mulheres como fantoches e deixá-las decidir se querem, ou não, seguir uma carreira na política?
Curioso, o sentido de oportunidade da justiça portuguesa, quando
decide tomar iniciativas no processo dos submarinos, dois dias depois de Paulo Portas ter tido um notável reforço de posições nas eleições legislativas.

Se hoje ao serão Cavaco Silva falar de vigilâncias ao Palácio de Belém ou assumir outros factos graves para a República e para o funcionamento das instituições, então o caso é gravíssimo porque o PR não agiu a tempo e com autoridade como é seu dever.
Se hoje ao serão Cavaco Silva desvalorizar tudo o que foi sendo publicado sobre as alegadas vigilâncias a Belém e nada passar de invenções, então o facto é gravíssimo para a República e para o funcionamento das instituições porque o PR não agiu a tempo e com autoridade para repor a verdade como é seu dever.
Este beco não tem muitas saídas.
Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
O PS ganhou perdendo. José Sócrates fragilizado, criticado, acossado, no meio de uma crise profunda e a cometer erros sucessivos, susteve a sua queda com uma grande colaboração dos seus adversários directos.
O PSD de MFL teve apenas mais 7 mil votos que PSL. Isto diz tudo. Prova que uma má campanha e uma má estratégia nunca é boa, mesmo que a candidata quisesse parecer boa por ser tão má.
O CDS capitalizou finalmente a fraqueza do PSD, que desguarneceu todas as frentes à esquerda e à direita. Portas é a prova, tal como Sócrates e Louçã, de que o profissionalismo em política compensa.
O Bloco tem na fraqueza do PS a sua força. O mistério é saber: dadas as diferenças, o que vê no BE quem votava PS?
O PCP continua firme como um rochedo, apesar do último lugar. Outra perplexidade: porque é que os votos à esquerda não se transferem para o PC? Se não fizerem a sua autocrítica, os comunistas caminham para a exiguidade.
Mais 0,1% e tinham-nos nacionalizado o blog...
Queria deixar aqui os parabéns aos Portugueses que, como sempre e ao contrário dos mais cépticos e arrogantes, souberam escolher com inteligência.
A mim, como membro daquela classe de portugueses a quem chamam o "português comum", sem conotações políticas, jornalísticas ou sectaristas, tudo me pareceu normal e racionável:
1. Deram o governo à pessoa que mais competência tem para o exercer (dos 5 candidatos que se perfilavam para tal);
2. Tiraram a maioria absoluta a penalizar uma equipa que não soube exercer o poder total de forma equilibrada e participativa;
3. Castigaram um partido que ofereceu um vazio de ideias e que pedia um cheque em branco. Teria sido constituído um antecedente gravíssimo se Portugal tivesse elegido uma equipa sem ideais nem ideais...
4. Fizeram subir o partido que mais claramente apresentou as suas ideias, melhor vincou os alvos do seu combate, mais perto ficou dos reais problemas dos Portugueses;
5. Atirou para o fundo da tabela um partido que já não tem muita razão de existir, que repete o seu discurso ano após ano, e que, mais lentamente do que muitos gostavam, se vai eclipsando.
Por isto tudo, há que fazer o elogio ao português comum e à inteligência como quis "falar" ontem através de uma simples cruz num papelinho A4.
E a subida de votos do BE, perguntarão vocês? Bom, como sou uma pessoa da área tecnológica e científica, deixem-me tratar esse fenómeno como um "side effect"...

O ambiente registado ontem nas turmas do CDS e PS, gente que passou pelas várias fases da vida durante a campanha.

O ambiente registado ontem, na sede do PSD.
Edvard Munch
"A dança da vida" e "Morte no quarto do doente"