Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
"Empresas públicas vão ser auditadas devido à 'Face Oculta'". Demorou mas está prometido. Esperemos pelos resultados. Acabar com o pantanal onde se cruzam a política e as negociatas tem que começar por algum lado e ir até ao fim.
"
Qualquer dia vão querer acabar com o sinal '+' na Matemática", ironiza o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa a propósito das ordens para retirar os crucifixos das salas das escolas públicas. A tirada faz lembrar uma história dos tempos da Berlim da guerra fria – consternados com o reflexo em forma de '+' que o sol fazia no topo espelhado da torre em Alexander Platz, os políticos da ex-RDA desesperavam em busca de uma solução para o problema bicudo de ter um símbolo religioso na construção mais alta da cidade. Até que veio a ideia, também ela brilhante: o "+" era um sinal positivo para o comunismo germânico e para a URSS.
Concordo com a retirada dos símbolos religiosos das escolas públicas, não porque a escola tenha de ser um buraco negro espiritual (como muitos defendem), mas porque pelo menos em termos formais – de representação – deve haver uma delimitação clara entre Estado e religião. O argumento do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos aponta outra razão válida: a liberdade de escolha religiosa das famílias e dos próprios alunos.
O que já não percebo é a sanha anti-religiosa nas escolas, com laivos de Iª República. É curioso que se pense que ao banir a representação religiosa – ou ao impedir pessoas das igrejas de visitar as escolas – se está a defender esse espaço imaginário de vácuo espiritual, no qual crescem saudavelmente os alunos. O cristianismo faz parte integrante da matriz cultural europeia – por outras palavras, o seu impacto indirecto é transversal a toda a sociedade. Mesmo aquela parte que, por ignorância ou pura inocência, nega à partida algo que desconhece.
Imagem: Life of Brian, 1979, Terry Jones (Monty Python)
Funcionários do Fisco e agentes da GNR são suspeitos de terem recebido presentes e compensações no âmbito das investigações do processo "Face Oculta".
O Ministério das Finanças reage e anuncia que vai tomar medidas para ajudar a apurar o que se terá passado e expurguar a máquina fiscal dos tumores malignos? O Ministério da Administração Interna fica preocupado e decide tomar as providências necessárias ao esclarecimento do que passa no interior daquela força de segurança?
Nada disso. Nas "casas" de Fernando Teixeira dos Santos e de Rui Pereira, está tudo tranquilo. Suspeitas de corrupção não parecem ser motivo para tomar medidas ou prestar contas.
Bem, talvez o silêncio seja preferível ao embaraço quase patético com que o novo ministro da Economia e Inovação, José Vieira da Silva, tentou explicar à SIC que o Governo estava atento e a acompanhar de perto os desenvolvimentos no "Face Oculta", enquanto José Penedos, arguido e presidente da REN, se mantém, impávido e sereno, no seu cargo.
Não deveria ser Vieira da Silva, enquanto representante do Estado, que é o maior accionista da empresa, o primeiro a exigir a Penedos a suspensão das suas funções até o seu alegado envolvimento na rede de tráfico de influências estar clarificado?
Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Mensagem depois de tentar aceder à página do Ministério das Obras Públicas:
Ops! Este link parece estar corrompido - www.moptc.ptParece que estavam a actualizar o nome do ministro. Ufa...

A América é um lugar estranho. Cheguei a este sítio menos de duas horas depois de Barack Obama ter aqui votado. Entrei na sala de voto, tirei fotografias, conversei com toda a gente, andei à vontade. Aqui pode-se falar de política junto às urnas. Os cidadãos não são tomados por parvos.
A máquina que está ao lado da larga Charletta Tibbs tinha engolido o boletim de voto de Barack Obama e de Michelle Obama hora e meia antes de eu fazer foto (em baixo). "Um dia de sol tão bonito como este é óptimo para um novo começo", disse-me quando lhe perguntei sobre Obama, as eleições e o clima que o país vivia naquele momento.

Barack e Michelle votaram nestas duas cabines.
Naquele momento já não havia movimento. Os jornalistas que ali estavam entrevistavam-se uns aos outros. O do Times de Londres tirava notas de uma conversa com uma equipa de três jovens jornalistas chineses, com idade de estagiários - um redactor, uma fotógrafa e uma câmera. Não devia haver nos Estados Unidos mais ninguém com tantos leitores: eles cobriram todo o processo eleitoral para a agência noticiosa oficial chinesa, cujas notícias são reproduzidas em todos os jornais da China e da diáspora. Tinham milhares de milhões de leitores.

À entrada da escola deparei com um facto insólito, impensável para um português. Um membro do partido Democrata, negro, distribuía papéis com as indicações de voto do partido aos cidadãos que se dirigiam para a sala de voto.
Naquele bairro de Chicago, o boletim tinha 24 itens, se bem me lembro. Votava-se para o Presidente dos Estados Unidos, para o senado e congresso estaduais, para juízes de círculo, para o ministério público
and so on and so on...

Não se vota de cruz. Pinta-se uma bolinha de negro e depois os boletins são enfiados numa máquina que faz imediatamente a leitura dos votos. Logo a seguir ao fecho das urnas, a contagem é feita automaticamente.

No fim desse dia, a América havia de eleger o seu primeiro presidente negro, com excessivo optimismo, como aliás se tem visto. A festa foi rija nessa noite no Grant Park de Chicago. Esse
portefólio publiquei-o neste post.
A decisão de Armando Vara de suspender as suas funções como vice-presidente do BCP é elogiada pelo
presidente da Caixa Geral de Depósitos e por
Joe Berardo, accionista do banco. Esquecem-se que Vara apenas tomou a decisão que tomou depois de ter sido pressionado, quer pelo Banco de Portugal, como pelo próprio presidente do Millennium, Carlos Santos Ferreira.
Por este motivo, falar em "gesto digno" parece-me claramente exagerado. Vara, que chegou onde chegou não por quaisquer méritos especiais enquanto gestor no sector financeiro mas por evidentes motivos políticos, fez aquilo que tinha que fazer. Não havia outra saída e, ainda assim, demorou vários dias a percebê-lo.
Só falta José Penedos optar por rumo semelhante e suspender as funções que ocupa na presidência da REN. Se não o fizer, alguém terá que o tirar de lá. Como a maioria do capital da empresa pertence ao Estado, aguarda-se que o Governo faça aquilo que lhe compete e aponte a porta da rua a mais este arguido do caso "Face Oculta".
- O défice das contas do estado português anda pelos 8% e é provável que venha a chegar aos dois dígitos;
- Precisamos de trabalhar um ano inteiro para pagar todas as nossas dívidas;
- Não se vislumbra quando voltará a crescer a nossa economia de forma sustentada, muito menos a níveis minimamente decentes, ou seja acima dos 2,5% ou 3%;
- Todas as instituições supostamente respeitáveis do País estão feridas ou feridas de morte;
- O caso Face Oculta não é mais do que uma parte da face visível de como funciona esta choldra;
- O BCP mastigou Armando Vara enquanto deu jeito ter um amigo do primeiro-ministro na administração e cuspiu-o agora que o seu nome mancha a instituição;
- Os banqueiros fundadores do BCP, dos mais respeitáveis senhores da nossa praça, estão a ser investigados por moscambilhas;
- O "banqueiro de sucesso" BPP, João Rendeiro, foi apanhado em mais moscambilhas;
- O buraco do BPN já vai em 3,5 mil milhões de euros, moscambilhas enormíssimas, onde cabem já mais de meia dúzia de submarinos novinhos em folha e a malta é que vai ter de pagar: não está ninguém na cadeia;
- O primeiro-ministro, José Sócrates, tem estado sob suspeita de uma grande moscambilha cuja verdade nunca mais se sabe; também foi acusado na praça pública de outras moscambilhices menores, mas que nada abonam em favor do seu carácter ou idoneidade;
- O Presidente da República continua fora de moscambilhadas, mas deu uma facada na sua própria credibilidade ao deixar arrastar suspeitas de moscambilhatas delirantes na praça pública antes das eleições; depois fez a mais disparatada comunicação ao País, o qual, se tiver juízo não confiará nos juízos de Cavaco;
- O Parlamento é uma manta de retalhos de gente pouco dada a entender-se com seriedade sobre o País e sentam-se lá alguns bons especialistas em moscambilhadas;
- As suspeitas sobre moscambilhadas no financiamento do partido conservador por causa do negócio dos submarinos continuam a pairar sobre o CDS e nunca mais se resolvem;
- O PSD é o único partido alternativo ao PS, mas continua envolvido em guerras de gangs e ódios pessoais entre gente que se desconsidera completamente e as bases do partido que elegem os líderes são uma ficção moscambilhada por meia dúzia de caciques;
- O PCP continua a defender a revolução proletária e a prometer o paraíso socialista na terra - era só esta moscambilhada que nos faltava - e o Bloco também. E ambos os partidos têm quase 20% de votos ;
- A Justiça trabalha mas não funciona: nem vale a pena enumerar os casos porque já estou cansado;
... e por agora é só isto, e é porque hoje acordei bem disposto e cheio de boas razões para louvar o sucesso da nossa democracia...
Terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Menos de um mês depois da
última de várias garantias de que o objectivo de 5,9% para o défice orçamental em 2009 seria cumprido,
Teixeira dos Santos abre a porta para um valor acima (
será bem acima, tipo 8%, algo que muitos já tinham percebido). Já não é a primeira vez que o politicamente hábil ministro das Finanças gere assim as expectativas da malta – recorde-se o reconhecimento tardio do impacto da crise económica, que levou a uma reacção também ela tardia por parte do governo.
Podemos sempre dizer que o ministro faz o que lhe compete, gerindo politicamente a confiança e o espírito gastador dos animais. Podemos ainda apontar o choque da "maior crise dos últimos 80 anos". Podemos até lembrar que só acredita nas garantias de Teixeira dos Santos quem quiser (ou ainda estiver a ouvir). O problema está sempre na inconveniente e maldita responsabilização dos políticos face ao seu discurso e às expectativas que pretendem manipular. E, por este andar, as garantias e palavras deste ministro arriscam valer menos do que a alta cotação de que disfruta no mercado político – estaremos aqui perante um ministro das Finanças subprime?
Adenda: Claro que nada disto acontece sem influência da mão que embala o berço.
Domingo, 1 de Novembro de 2009