Domingo, 31 de Janeiro de 2010

A morte lenta

Vai por aí um charivari por causa das agências de rating, sobretudo por causa de uma canalhíssima apreciação sobre a economia pátria que, ao que parece, estava a caminhar para uma "morte lenta", análise pobre que roça o racismo econométrico, já o disse alguém, pois somos parcos em resultados, não confundir isso com porcos, ou pigs, ou lá o que é, porque em banhos e duches pedimos meças a anglo-saxónicos e povos do norte. Corações ao alto, que esta nação custou muitas cabeças a lutar contra os mouros! Isto não é a Grécia, é uma economia que tende mais para a "rápida vivacidade" do que para a "morte lenta", é um campo florido de optimismo empreendedor e de exemplo para o mundo civilizado.

Se olharmos para o coiso económico assim um bocadinho mais em termos genéricos, percebemos que não é preciso ser um especialista-analista de risco internacional para tirar uma conclusão óbvia: a economia portuguesa está a morrer lentamente, década a década, e só daqui a 20 ou 30 anos vamos perceber se houve uma inversão deste plano inclinado.

- Na década de 80, o PIB português cresceu: 3,2%;
- Na década de 90, o PIB português cresceu: 2,7%;
- Na década de 00, o PIB português cresceu: 0,5% ou 0,6%;
(Estes números não são meus, note-se, são do prof. Medina Carreira)

- Na próxima década alguém arrisca prever um valor semelhante ao dos anos 80, o único capaz de inverter a destruição de empregos e relançar o País na senda da prosperidade?

publicado por Vítor Matos às 23:15
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Sábado, 30 de Janeiro de 2010

Lost in Translation

Quando o economista/jornalista Martin Wolf escreve isto no Financial Times:

"Martin Wolf: It is scandal that the model of payment for the credit rating agencies has not been changed. They should be paid by agents for the buyers not by the sellers. More important, the regulatory role of ratings should be removed altogether. They have no credibility, in this regard. My own view is that, at best, ratings are a lagging indicator of what is happening in the market. At worst, they are actively misleading. Nobody should be required to hold assets of a particular grade. Will this failure cause another crisis? I don’t know. But it won’t help us avoid one, that is for sure."

Esta turma bem informada lê isto:

"É um escândalo que o modelo de pagamento para as agências de notação de crédito não tenha sido mudado. Elas deviam ser pagas por agentes dos compradores, não dos vendedores. Mais importante, o papel regulador das notações deveria ser eliminado pura e simplesmente. Elas não têm credibilidade, nesta matéria. O meu ponto de vista é que, quando muito, elas são um persistente indicador do que está errado no mercado. Na pior das hipóteses, elas estão activamente a enganar".

Note-se como fica convenientemente fora da tradução a frase em que Wolf diz que os avisos e mudanças nas notações funcionam muitas vezes com atraso face ao mercado (não cumprindo, por isso, a sua função). O sistema actual das agências tem que mudar? Sim, claro. Até podem vir a desaparecer, quem sabe. Mas há que não esquecer uma coisa: o mercado que empresta dinheiro para as nossas extravagâncias, essa besta negra, vai andar sempre por aí. A olhar para gente extravagante, sem músculo para criar riqueza - e, talvez, sem possibilidade de pagar as suas dívidas.
publicado por Bruno Faria Lopes às 20:55
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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Caderno de memórias coloniais virtuais


Nos 800 quilómetros entre Maputo e Vilanculos, só depois do Xai-Xai (a um quarto da viagem - milímetros no mapa de Moçambique) é que o queixo começa a cair. A estrada estende-se até perder de vista, quebrada por lombas. A terra ao lado é vermelha, os buracos lunares e os condutores dos chapas obrigam a estar de olho aberto. O sol fustiga o mato e as pessoas que andam pela berma da estrada - e há sempre pessoas na berma da estrada. Tudo forte, tudo vasto, como deve ser - como nós esperávamos que iria ser. A partir de Inharrime a boca abre-se mais e assim fica enquanto atravessamos a província de Inhambane. A província onde a minha mãe nasceu.

Pelo caminho passamos em Morrumbene, uma vila que o guia Lonely Planet chama de "sítio onde só vale a pena parar se ficarmos ali presos à noite". Se esse infortúnio se abater sobre o viajante, o guia sugere o único sítio com camas na vila: a Pousada do Litoral. A pousada que foi dos meus avós durante mais de 30 anos, cenário referencial das dezenas de histórias que ouvi em miúdo, enquanto eles (aqueles avós) tomavam conta de mim.

Olhando agora para trás acho que percebo porque saí do carro e puxei logo da máquina fotográfica. A Susan Sontag escreveu que a máquina é um objecto de defesa e distanciamento entre a realidade e quem a olha, e ali eu estava em zona de desconforto. É estranho visitar a cenografia virtual que construímos na infância, a partir das memórias não resolvidas das pessoas que nos são mais próximas. Os lugares que aprendemos a mitificar e que quase nunca são como imaginámos.

As fotografias foram um erro (atraíram atenção e recados indesejados) e seguimos viagem. No regresso não houve merdas - parámos o carro na estação de serviço (antiga "Estação Faria") e entrámos na pousada pelo bar. Às caras fechadas ao balcão pedimos uma 2M, que veio bem gelada. Entrámos na sala de jantar, passámos na recepção, metemos pelo corredor que dá para o pátio. Sempre imaginei que veria o lugar com a amargura da perda deles. Mas aconteceu o contrário. Afastei a decadência do lugar e imaginei-os ali noutra era - e assim reescrevi as memórias coloniais que não vivi. Deixei de vê-los como ex-colonos amargurados e a caminho da velhice, iguais aos que a Isabela Figueiredo tão bem descreve (Almeida Santos e Mário Soares eram figuras odiadas em minha casa). Vi-os ali, incansáveis e inconscientemente felizes, longe do cinzentismo e da miséria da Metrópole.
publicado por Bruno Faria Lopes às 17:44
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Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

E foi o ping pong que abriu o caminho a Nixon

A China mete duas jogadoras nas meias-finais de um Grand Slam: Li Na e Jie Zheng.
publicado por Bruno Faria Lopes às 18:55
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Lido no Elevador

"O riso do Kindle" e "Tiros ao lado", por Alberto Gonçalves, na "Sábado".

Primeiro, a emergência dos livros electrónicos a propósito de as vendas terem superado as dos livros tradicionais no Natal passado na loja Amazon: "Quando os livros ficarem obsoletos, terei paredes e paredes de inutilidades a assombrar-me com imaginária reprovação e pó verdadeiro. É algo tão macabro quanto manter as ex-namoradas embalsamadas na sala de estar, vivas ou mortas".

Depois, a análise às razões adiantadas por Manuel Alegre para se candidatar à Presidência da República, alegando capacidade para dar aos portugueses o "direito à beleza" e aos jovens o "direito de dançar a vida": "Apesar do poder de inspiração e capacidade de invenção, as declarações de Alegre sugerem que ele próprio ainda não encontrou qualidade nenhuma [que o recomendem para a chefia do Estado]".
publicado por João Cândido da Silva às 15:30
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A descoberta do dia

É uma maravilha – um cantinho online sobre livros, feito pela The New Republic.
Bem escrito, bem desenhado. Aqui.
publicado por Bruno Faria Lopes às 15:29
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Até já, PPM

O PPM do ABC do PPM vai tirar uma sabática da blogosfera. Esperemos que seja apenas isso – uma (breve) pausa.
publicado por Bruno Faria Lopes às 15:24
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O iPad afinal já tem quatro anos

publicado por Bruno Faria Lopes às 12:25
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iParvos

O messias falou e mostrou a nova tábua. E os pacóvios dos terráqueos aplaudiram, sem qualquer espécie de filtro.

O epifenómeno que a Apple criou - marketing que merece elogios - teve um acompanhamento jornalístico descerebrado. No mundo inteiro, nuns jornais mais que noutros. Somos todos crianças e aqui está o brinquedo novo. Dizem que pode ser a salvação do jornalismo. Disso não sei e, sinceramente, tenho dúvidas sobre o papel tão determinante deste brinquedo no jornalismo. Mas, antes de pensar na cura, talvez fosse boa ideia preocuparmo-nos com a doença. E não agravá-la com este tipo de comportamentos, onde andamos todos, tipo cães amestrados, atrás das guinadas da maçã.

A Apple foi revolucionária nos nossos hábitos, "canibalizando" invenções dos outros e banhando objectos com a sua habitual capa social de "estatuto". Touch screen no iPhone e a rodinha no iPod, deram imenso jeito. Mas também dão os assentos de sanita aquecidos.

O que acho curioso é que haja tanta página sobre o iPad e ninguém questione porque é que é tão barato... Se é um produto novo tão ansiado pelo público, que vai mudar a vida de todos, não faria sentido que o preço permitisse margens de lucro adequadas à histeria? Foi assim com o iPod e com o iPhone. E é assim com os Mac. Se calhar o facto de o iPad forçar comportamentos nos consumidores que ainda não são generalizados (o livro é um livro é um livro), pode ajudar a perceber o preço tão baixo. E, já agora, a Apple vai perder quanto, nos primeiros anos, com esta brincadeira?

Não sei. E essa é a questão. Tenho demasiadas incertezas sobre isto. Ao contrário das certezas de muitos outros.
publicado por Pedro Esteves às 11:25
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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Com a táctica do Calimero não se vai lá

José Sócrates considerou "injustas" e "desproporcionadas" as reacções negativas dos mercados e das agências de "rating" à proposta de Orçamento do Estado para 2010. Com esta táctica de Calimero, o primeiro-ministro não vai a lado nenhum. É preciso provar, com decisões e boa governação, que se quer, mesmo, sanear as finanças públicas. O resto é só, e apenas, conversa.
publicado por João Cândido da Silva às 17:21
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