Quarta-feira, 31 de Março de 2010
Portugal do Minho a Timor, sem fusos horários,
no i de hoje: os alunos da Escola Portuguesa de Dilí fazem os exames à mesma hora dos portugueses. Em Lisboa, acabam às 17h. Em Timor terminam às duas da manhã, para evitar copianços e tráfico de perguntas. No tempo do Salazar também era assim, ou a culpa é da internet?
Primeiro: a decisão é correcta.
Segundo: a decisão é contraditória.
O Governo
suspendeu o sr. Jurgen Adolff, cônsul honorário de Portugal em Munique, por ser suspeito de ter recebido 1,6 milhões de euros em luvas para facilitar a aquisição de submarinos do consórcio alemão, depois de uma notícia da revista
Der Spiegel.
Augusto Santos Silva, ministro da Defesa, justificou assim a decisão:
"Na medida que chegaram informações ao Ministério dos Negócios Estrangeiros que poderiam por em causa a credibilidade e as condições de exercício de funções da parte de quem representa Portugal, como o cônsul honorário, o ministério decidiu suspender o cônsul". Refira-se que não há uma acusação formal ou uma decisão judicial transitada em julgado.
Façamos um pequeno exercício de pensamento sobre esta augusta frase. Mas aplicada a outras notícias em que se alegou a separação de poderes e a presunção da inocência. Tomemos estes exemplos: "Polícia inglesa suspeita que Sócrates recebeu luvas no Freeport"; ou então, "Sócrates suspeito no processo Cova da Beira"; ou ainda, "MP suspeita que Sócrates quis manipular TVI através da PT". Com base nestas premissas, pedimos ao leitor que releia a frase de Santos Silva em abstracto, sem as referências ao cônsul: "Na medida que chegaram informações que poderiam por em causa a credibilidade e as condições de exercício de funções da parte de quem representa Portugal..." [e aqui as consequências]
Tendo em conta a rapidez com que o Governo actuou agora contra o cônsul, relembro o padrão de decisões em que fez exactamente o contrário:
- caso Lopes da Mota, em que o Governo recusou actuar;
- caso José Penedos, que só caiu da REN quando a isso a Justiça obrigou;
- caso Rui Pedro Soares, que se manteve na administração da PT para além do limite e nunca foi censurado pelo Governo;
Assim é fácil: o caso em investigação remonta ao tempo do PSD-CDS e além disso o Governo fará tudo o que puder para fazer cair o contrato dos submarinos, como já se percebeu.
Não se pode esperar de um
boxeur político lisura nos golpes:
escrevi que Sarmento tinha batido Granadeiro por KO, mas fez batota. Afinal José Leite Pereira
já era director editorial do
Jornal de Notícias quando Granadeiro se demitiu da Lusomundo e quem está numa redacção sabe a diferença entre um director executivo e um
chairman de um jornal. Se Sarmento jogou baixo, os deputados mostraram péssima preparação e lentidão a reagir. Ele devia ter sido confrontado com essa informação enquanto ainda estava no Parlamento.

Foto: VM
Menina Botero no diner. Phoenix, 2008.
As más notícias: o Banco de Portugal reviu em
baixa as previsões de crescimento de 0,7% para 0,4% para 2010, o rendimento disponível dos portugueses vai
diminuir e o desemprego vai continuar a aumentar; o País afunda-se.
As notícias do costume: Sócrates diz que está "
confiante" de que o crescimento económico seja melhor do que as previsões do Banco de Portugal. Pagam-lhe para gerir expectativas e não para baixar o astral, mas parece cada vez mais o general de Bagdade com os tanques americanos à porta; a orquestra continua a tocar.
As boas notícias: não há. Quando as taxas de juros começarem a subir as famílias vão estoirar, a popularidade do Governo vai cair mais depressa do que se aumentasse o IVA, o PSD com nova liderança será tentado talvez antes disso a derrubar a minoria do PS, e à crise financeira e económica vai juntar-se uma crise política (se não for até Setembro, será logo na primeira oportunidade, o destino está marcado). Aconteça o que acontecer, não se vê uma saída.
Terça-feira, 30 de Março de 2010
Um uppercut de direita, um gancho de esquerda e um directo ao queixo: Henrique Granadeiro no tapete, KO. Leite Pereira não era director do JN quando Granadeiro se demitiu da Lusomundo. Morais Sarmento está a desfazer o presidente da PT na Comissão de Ética. Depois da baralhação por causa da data em que informou Sócrates do negócio com a TVI, é muita baralhação junta para o presidente de uma das maiores empresas portuguesas.
Se o
Apocalypse Now não era um filme sobre a guerra, era a própria guerra, o vencedor dos Óscares
The Hurt Locker também não é sobre a guerra: são as entranhas dos homens na guerra.
Se em Apocalypse Now o coronel Kurtz balbuciava o horror... o horror... em Estado de Guerra (péssima tradução) não era preciso verbalizar esse horror que vem de dentro. O filme é tensão do princípio ao fim, uns nervos permanentes uma ansiedade angustiante, uma história contada por dentro: por dentro dos personagens mas sobretudo por dentro do espectador. O filme é sobre explosões (mesmo assim é um exercício de contenção à tentação do fogo de artifício), mas por mais que rebentem coisas, a explosão de que estamos sempre à espera é a do peito dos personagens (e do nosso próprio peito como espectadores).
Estado de Guerra não é sobre a guerra nem é a guerra. É sobre o vício de homens que não conseguem vivem sem a guerra e sem estarem permanentemente à beira de rebentarem por dentro na guerra.
Segunda-feira, 29 de Março de 2010

Foto: VM
Suporte para nariz, Chicago.
Sábado, 27 de Março de 2010
Com uma vitória esmagadora no bolso, no seu primeiro discurso como líder eleito do PSD, Pedro Passos Coelho começou bem o mandato ao convidar os seus adversários a pertencerem à direcção do partido. Seja qual for a resposta de Paulo Rangel e de Aguiar-Branco (eu apostava que vão recusar), trata-se da manifestação de um líder forte sem medo da sombra.
Quando Passos discursou para as televisões, Miguel Relvas, o homem mais importante na sua ascensão ao poder, ficou atrás das câmaras a ver. Por detrás do novo líder apareceram três caras do menezismo: Marco António Costa, Miguel Santos e Luís Montenegro. Devia ter havido algum cuidado em diversificar.
Não deixa de ser sintomática a forma como Manuela Ferreira Leite deixa a chefia do partido: sem fazer um simples telefonema ao candidato que lhe vai suceder.
O PS agora deve moderar-se nas ameaças de bater com a porta: ou tem mais cuidado com as dramatizações do género agarrem-me senão eu vou-me embora ou Passos vai mesmo romper e levar o Governo a eleições antecipadas até Setembro, porque aliás sabe que o prazo de validade dos líderes do PSD é muito curto. É uma questão de esperar pelas sondagens dos próximos dois meses.
O CDS já tem um líder que foi militante da JSD: Paulo Portas.
O PS já tem um secretário-geral que foi militante da JSD: José Sócrates.
Finalmente, só faltava ao PSD ter um presidente que também militou na JSD e esta noite conseguiu: Pedro Passos Coelho ganhou as eleições internas e agora vai ter à direita e à esquerda dois ex-militantes da organização que dirigiu.
No fundo, deve haver um bocadinho de DNA político comum aos três.