Andar a mexer em arquivos dá nisto: parece que o tempo passa, mas não saímos do mesmo lugar. Estas notícias são todas de uma primeira página do Expresso, em 10 de Dezembro de 1977.
1) Sócrates marcou as más notícias para a hora em que o Benfica jogava para a Champions (em Maio, o PEC 2 também foi anunciado quando o País celebrava a conquista do campeonato). O Benfica tem costas largas, está visto. Eu, por mim, ia no carro e só queria ouvir o relato do Benfica na rádio. Não pude. Está visto, o povo tem que sofrer, como explicou o magnífico Almeida Santos, que já nem se dá ao trabalho de disfarçar.
2) "Chegou o momento de agir", anunciou Sócrates. Chegou só agora. Aqui há uns meses o mesmo Sócrates jurava que o mundo tinha mudado em duas semanas, ou em três, conforme lhe apetecia, mas isso não lhe deu nenhuma pista sobre a necessidade de agir então. "Nenhum movimento especulativo fará o Governo mudar de plano", jurava Sócrates; "mudar o PEC mina a confiança", "seria um erro" suspender o TGV e o novo aeroporto, jurava Sócrates. Agora, só agora, "chegou o momento de agir". Tarde piaste.
3) "Eu engano-me, mas não engano", dizia Teixeira dos Santos em Fevereiro, para explicar o "engano" de ter previsto para 2009 um défice quase quatro vezes (4!) abaixo do verificado. Engano é um gajo querer ligar à amante e ligar à mulher. Engano é pôr sal no café em vez de açúcar. Engano é o César Peixoto fazer uma jogada de jeito. O que se tem passado com Teixeira dos Santos, Sócrates & Cia não é engano. É incompetência, má fé, irresponsabilidade e chico-espertismo.
4)"Depois de mim virá quem de mim bom fará". Há anos que é o meu provérbio popular favorito. Aposto que também é o de Manuela Ferreira Leite.
No momento em que posto este texto é meia noite de 30-09-10. Passaram 4 horas sobre o anúncio de José Sócrates de que "chegou o momento de agir". Esta rapaziada ainda nem piou. É comovente. Por momentos quase acredito que eles pensam mesmo aquilo que têm andado a escrever este tempo todo.
O ministro das Finanças diz que "tudo fará" para cumprir as metas orçamentais. O secretário de estado do Orçamento diz que "tudo fará" para não deixar fugir o défice. O PS diz que está disposto "negociar tudo o que for necessário" para ver aprovado o OE/2011. O Presidente da República pede "todos os esforços" aos partidos para passarem o OE/2011. Os sindicatos dizem que vão "fazer tudo" para combater estas políticas.
É muito bom até aos 50 segs – e é ainda melhor depois dos 1:05 mins. Pode ser uma inspiração para a apresentação das metas de 2011 por Teixeira dos Santos. Versão com tradução está aqui.
No verão de 2009, o PS apresentava um programa de governo, coordenado por António Vitorino, em que a palavra “apoio” aparecia 136 vezes – mais do que “despesa”, com oito singelas aparições. O buraco orçamental já galopava a caminho do recorde de 9,4% do PIB, mas isso não travou o “programa com ambição de futuro”. Nele estavam “as três prioridades muito claras” do segundo mandato de Sócrates: “relançar a economia e promover o emprego”, “reforçar a competitividade” e “desenvolver as políticas sociais”. Havia obras públicas, havia “confiança”, havia um choque social. É verdade que ninguém lê estes programas, mas nós, jornalistas, pegamos neles e, com mais ou menos sentido crítico, filtramos as ideias principais para as massas.
O PS acabou por perder a maioria absoluta, mas ganhou as eleições. Mas logo depois veio a Grécia. E veio a revelação de que o défice orçamental português tinha explodido para 9,4%. E veio a crise da dívida, com os mercados malvados. Sócrates explicou: “O mundo mudou”. E o seu governo – com um elenco de segunda linha montado para não desafiar a autoridade do chefe – ficou sem programa. Ironicamente, a mesma crise que forçou Sócrates a descer à realidade, terreno onde não tem rumo, funciona como o seu seguro de vida - é a crise que trava a demissão do ministro das Finanças, que trava uma moção de censura da oposição inexperiente, que impede o fim anunciado de um governo minoritário cada vez mais paralisado. Até quando?
Quando a Irlanda crescia, exortava-se Portugal a seguir-lhe o exemplo - deixando de lado o facto de os irlandeses terem uma grande diáspora (com dinheiro e influência) em países ricos e, sobretudo, de estarem a crescer às costas de uma grande bolha imobiliária.
Agora que o governo irlandês corta o défice orçamental (com um acordo inédito com os sindicatos) há quem não tenha o esforço em grande conta. Argumento? Tanto esforço para nada, dizem: a Irlanda está em recessão e tem um défice a caminho de 25%. O problema do argumento? Ignora que o país tem nas mãos um buraco chamado Anglo Irish Bank, um gigante da banca que ruiu com o fim da bolha especulativa, e que vai custar um mínimo de 25 mil milhões de euros. Ignora, de uma forma geral, que o colapso repentino de uma bolha no imobiliário deixa inevitavelmente uma economia de rastos durante alguns anos - a Irlanda, tal como a Espanha, está a pagar esse preço.
Uma grande diferença para Portugal? Visto daqui, parece-me que em Dublin há quem tenha percebido mais depressa do quem em Lisboa o alcance desta crise da dívida. Vamos ver quem consegue pôr primeiro a economia a crescer.
Carolina Patrocínio, a mandatária do PS para a Juventude nas legislativas de há um ano - mas mais conhecida por só comer melancia e uvas se a empregada lhes tirar as pevides - está de volta. Aqui se transcreve a notícia do Jornal da Região (Oeiras):
"Afastada do pequeno ecrã há já algum tempo, Carolina Patrocínio dedicou-se nos últimos meses a concluir o mestrado em Media e Jornalismo, em que desenvolveu uma tese sobre 'Comunicação Política'. Um tema 'escolhido em conjunto com a orientadora' do curso e depois de ter tido várias aulas sobre a matéria." (itálico meu)
José Sócrates faz escola. Diz que ele também se licenciou em engenharia depois de ter "várias aulas sobre a matéria".