Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

O'Neill, galinhas e pobres: um tema polético

A temática das galinhas a fugirem de pobres com pedaços de côdea no bico parece ter muito de político mas é sobretudo poético. Agradecemos as imagens de Fernando Nobre e do camarada Chico Lopes, mas sobre esse tema em concreto preferimos Alexandre O'Neill:

Histórias quadradinhas: o provérbio chinês

O pobre corre atrás da galinha.
A galinha, còcòri-pescoceando, foge-lhes sobre
os dois garfos, sobre as duas baquetas
em rajada de baterista. «Vale a pena!
Vale todas as penas!», silva bronquiticamente o
pobre. A galinha derrapa, quilha de rojo.
O pobre joga-lhe para cima o maxi-farrapo da jaqueta.
Falha. Vai de gengivas ao chão. A galinha
reencorpora-se, estica os garfitos, sacode
a asa. Do bico sai-lhe um balão:
QUANDO O POBRE COME GALINHA...
«Isso é um provérbio chinês!, indigna-se,
queixos no pó, o pobre.
E a charlotada termina - quadradinho que
se segue - com a galinha toda coqueta,
afastando-se (à bandarilheiro contemplado
com música?) e fazendo estourar, fumaça de vaidade,
outro balão:
... UM DOS DOIS ESTÁ DOENTE.

(em As Horas Já de Números Vestidas - 1981)
publicado por Vítor Matos às 02:06
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Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

Um homem com quem eu gostava de conversar

Há umas semanas, duas ou três, liguei ao comandante Azevedo Soares, para saber se tinha memória de um facto antigo que eu precisava de confirmar para um artigo. Atendeu-me com a mesma simpatia e disponibilidade de sempre, mesmo quando eu ligava com perguntas chatas e depois ficávamos a discutir a ver quem tinha razão. Mas não era o mesmo, era uma voz sumida, nunca o tinha ouvido assim. Que voz é essa? Disse-me que estava doente. Eu disse que não era nada, que não queria incomodar. Não perguntei que doença era. Mas ele quis responder. Falámos então do assunto que motivou a chamada. Ele não se lembrava exctamente do facto em causa, mas por dedução acabou por me dizer o que realmente se tinha passado. Confirmei depois e fazia todo o sentido. Hoje soubemos todos da notícia triste da sua morte, para mim inesperada. Fica aqui a minha homenagem a um homem com quem eu gostava de conversar.
publicado por Vítor Matos às 16:19
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Freakpolitics - o que diz o lado improvável dos políticos (22)

Os dez factos políticos mais 'freak' de 2010


Top elaborado segundo este critério: quando a realidade ultrapassou aquilo que se poderia escrever numa crónica destas.

'Freak': anormal, bizarro, atípico, aberrante, esquisito, excêntrico, sem paralelo

1. Ricardo Rodrigues rouba gravadores É o campeão da Freakpolitics. O gesto habilidoso da tomada de posse dos gravadores da SÁBADO - sem que os jornalistas dessem conta -, define melhor o perfil do socialista Ricardo Rodrigues que milhares de caracteres de prosa sobre as suspeitas do seu envolvimento em negócios escuros nos Açores. Porém, mais freak foi a reacção do PS e dos outros partidos: ninguém exigiu consequências. Muito estranho, muito estranho mesmo. 

2. Ricardo Rodrigues faz leis que funcionam ao contrárioO deputado socialista (com Luís Montenegro, do PSD) coordenou as alterações à lei do financiamento dos partidos com a justificação de baixar os gastos nas campanhas. Na prática, a lei funciona ao contrário: deixa que os gastos aumentem sem limite; permite que as campanhas dêem um lucro que pode ficar para quem os candidatos quiserem, apesar de o diploma dizer que o excedente é para o Estado. Ainda escancara a porta à distribuição de malas de notas aos partidos e abre alas à lavagem de dinheiro. O mais bizarro: Cavaco promulgou.

3. A gente é mais bolaEste caso ganha o prémio da excentricidade. Mário Lino, ex-ministro das Obras Públicas, foi à comissão de inquérito parlamentar sobre a tentativa de compra da TVI por parte da PT dizer o seguinte: Rui Pedro Soares, administrador da PT, ia ao gabinete dele, aos fins-de-semana, para falar da jornada de futebol e dos problemas pós-parto da mulher. Embora Lino fosse o ministro da tutela, nunca falavam da PT, nem da eventual compra da TVI para afastar Manuela Moura Guedes. Isso é que não.

4. Passos e o crime políticoPedro Passos Coelho defendeu a criminalização dos políticos que não cumpram os orçamentos (como José Sócrates). Repetiu a ideia duas vezes e calou-se. Se alguma vez a medida fosse implementada, já estávamos a ver os primeiros-ministros e os ministros das Finanças na cadeia no fim dos mandatos. Uma ideia muitíssimo anormal.

5. A estranha negociação do OEO acordo para aprovar o Orçamento do Estado mais importante da história da democracia foi assinado em casa do representante do PSD, que nem é filiado no partido. Antes disso, houve cenas edificantes como Eduardo Catroga “à seca” no Parlamento a dizer que tinha de se ir embora cuidar dos netos. Note-se que Catroga conseguiu que os produtos da Solvena, grupo que administra, não aumentassem o IVA. Não lembra ao careca, diria Marcelo Rebelo de Sousa.

6. O cata-vento determinadoDá-lhe o vento e o primeiro-ministro tem a certeza absolutíssima de estar a apontar para o lado certo. Passou o ano cheio de certezas quanto ao caminho a tomar, mesmo quando os ventos da crise internacional e de Bruxelas o obrigavam a ir na direcção oposta ao que prometera no dia anterior. Aumento dos impostos, corte nos salários, congelamento de obras etc. Duas frases ficam nos anais: “O pior que pode acontecer a um político é quando tem um plano pensar mudá-lo quando encontra uma dificuldade. Eu não sou desses”. A outra é: “O Governo não entra em desnorte nem muda de orientação política”. Claro que não.

7. O PSD é contra mas está a favor A liderança de Manuela Ferreira Leite começou o ano a abster-se no Orçamento do Estado para 2010 que tinha as medidas que ela diabolizava. A seguir viabilizou o PEC1. Depois veio o PSD de Pedro Passos Coelho, que era contra o aumento de impostos, votar a favor do PEC2 que os aumentava. Acabou a viabilizar o OE para 2011 em nome da Pátria. Um ano atípico.

8. Rating de rabo na boca
As agências de notação financeira começaram a baixar o rating de Portugal porque o défice e o endividamento eram insustentáveis. O Governo apresentou o primeiro pacote de austeridade, mas o rating voltou a baixar porque as medidas eram recessivas e a economia do País não ia produzir o suficiente para pagar as dívidas. Mas como a economia não ia crescer, tornava-se ainda mais difícil pôr as contas em ordem e assim o rating voltava a descer. O Governo tomava mais medidas draconianas e assim a economia...

9. O corruptor ofendidoSituação da categoria aberrante. No mesmo dia em que o Parlamento debatia o pacote anti-corrupção, o Tribunal da Relação absolvia o empreiteiro Domingos Névoa, que foi apanhado numa gravação da Judiciária a tentar corromper José Sá Fernandes através do seu irmão e advogado Ricardo.

10. Cavaco condecora Santana
O Presidente da República que antes de o ser contribuiu para a queda do Governo de Pedro Santana Lopes em 2004 com o artigo da má moeda, atribuiu ao ex-primeiro-ministro a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Parece que foi por serviços relevantes à Pátria que Cavaco tinha antes classificado - de forma abstracta - como pior que irrelevantes.

Crónica publicada no site da SÁBADO
publicado por Vítor Matos às 11:49
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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

Era uma vez há um ano...

Publiquei este post há quase um ano. É ler e pensar, ou ler e penar: um deles conhecia a realidade, mas mascarava-a de optimismo surreal, procurando enganar-nos a todos com doces palavras; o outro conhecia a realidade e denunciava-a, mas deixava-se ficar e não fazia mais nada. No fundo, do ponto de vista moral as duas atitudes são parecidas. Do ponto de vista prático as duas atitudes levaram ao mesmo.


O post era este:


José Sócrates no discurso de Natal - "A crise económica mundial persiste, é certo, mas há agora sinais claros de que estamos a retomar lentamente um caminho de recuperação. Precisamos de investimento público que crie emprego. Precisamos de investir nos domínios que são essenciais à modernização do nosso país: as infra-estruturas de transportes e comunicações, as escolas, os hospitais, as barragens, as energias renováveis. Precisamos de continuar a apoiar as nossas empresas, com particular atenção às pequenas e médias empresas, às empresas exportadoras, às empresas criadoras de emprego."

Cavaco Silva no discurso de Ano Novo - "Mas o desemprego não é o único motivo de preocupação. A dívida do Estado tem vindo a crescer a ritmo acentuado e aproxima-se de um nível perigoso. O endividamento do País ao estrangeiro tem vindo a aumentar de forma muito rápida, atingindo já níveis preocupantes. Acresce que o tempo das taxas de juro baixas não demorará muito a chegar ao fim. (...) Com este aumento da dívida externa e do desemprego, a que se junta o desequilíbrio das contas públicas, podemos caminhar para uma situação explosiva. Em face da gravidade da situação, é preciso fazer escolhas, temos de estabelecer com clareza as nossas prioridades. Os dinheiros públicos não chegam para tudo e não nos podemos dar ao luxo de os desperdiçar."
publicado por Vítor Matos às 15:50
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publicado por João Cândido da Silva às 13:04
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Pastelaria 2011

Entrar e pedir para atenuar as penas:

- São dois sonhos e um bom bocado!
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publicado por Vítor Matos às 12:07
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Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010

Dois dedos de lucidez

Este caso que envolve a Ensitel é exemplar sobre o poder que as redes sociais dão aos consumidores, em compensação pela falta de protecção prestada por quem o devia fazer, começando pela própria empresa e seguindo pelos labirintos insondáveis da justiça portuguesa.

O mais incrível nesta história está no facto de, ao que parece, ninguém com dois dedos de lucidez ter percebido, na Ensitel, que os prejuízos para a imagem junto dos consumidores serão maiores do que o custo de trocar um telemóvel defeituoso, como era a sua obrigação.
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publicado por João Cândido da Silva às 19:02
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Cavaco yo! Boas festas, man!

Nunca uma mensagem de Natal do Presidente foi tão apelativa. E divertida. E popular: só no youtube foi vista mais de 15 mil vezes! É hilariante a versão rap da mensagem de boas festas do casal Presidencial. A Presidência bem que poderia reforçar o Gabinete de Comunicação e Imagem com a contratação de Rui Unas.

publicado por Ana Catarina Santos às 01:49
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Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

Arre burriquito vamos a Belém...


Arre burriquito, vamos a Belém, ver o menino que a senhora tem.
Em Belém, o menino Presidente recebeu hoje os cumprimentos natalícios dos Magos.
É bonito, não é feio, diria um pretérito candidato presidencial. A Democracia até dá gosto.
publicado por Vítor Matos às 19:58
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Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010

Música que gostei de escutar em 2010 (IV)

Pianistas, e dos bons, é o que não falta por aí. A questão está em que nem sempre o material que escolhem para os seus discos é o mais estimulante. Os velhos clássicos já foram tão explorados que é difícil arranjar curiosidade suficiente para escutar mais uma abordagem de "Autumn Leaves" ou "All The Things You Are", quando já estão registadas para a posteridade muitas versões que se classificam entre o excelente e o soberbo.

É aqui que entram pianistas de uma nova geração como Vijay Iyer, Mathew Shipp ou Jason Moran, um trio de músicos inovadores que, há poucos meses, foi reunido para o tema de capa da revista "Downbeat". Todos eles tocam ao mais alto nível e preenchem os discos que editam com temas da sua autoria ou leituras menos ortodoxas de material alheio.

Este ano, Vijay Iyer lançou, pela primeira vez na carreira, um disco inteiramente a solo, intitulado, sem surpresa, "Solo". A música é, em geral, mais acessível do que aquela que caracterizou o trabalho anterior de Iyer em trio ou em quarteto, o que não significa que o pianista abdique de procurar construir os temas fora daquelas sequências de notas que estão mais batidas. "Solo" é um disco com horizontes largos e "Patterns" é uma das minhas faixas favoritas, por agora.

Clicar aqui para ver o vídeo em que Vijey Iyer fala sobre a gravação de "Solo".
publicado por João Cândido da Silva às 13:20
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