Terça-feira, 31 de Maio de 2011

O Batman de Oliveira do Bairro

O jantar tinha sido servido. A sala estava cheia, quente, abafada, povoada. Na mesa mais ruidosa, a dos militantes do Ribatejo que se deslocaram “em carro próprio” até Oliveira do Bairro, ecoavam gargalhadas espalhafatosas, derramadas sobre os copos cheios de tinto. Subitamente surgiu um burburinho diferente na sala, uma agitação qualquer, uma tensão nervosa.

 

Uns gritinhos de senhora. As mãos sobre os cabelos. Ar de nojo. O som abafado do arrastar das cadeiras de plástico de pessoas que admitiam sair da sala. Houve quem pusesse guardanapos sobre a cabeça. Mais uns gritinhos de senhoras muito maquilhadas. O olhar de condenação irónico, por parte de alguns machos com quatro botões da camisa abertos, mostrando os pêlos do peito e o fio de ouro.

 

Ele falava no palanque. É cabeça de lista por Aveiro, tinha que correr tudo na perfeição. Era a sua noite, no seu distrito. O sorriso cintilante e os gestos firmes de Portas disputavam a atenção perante aquele outro protagonista da noite de Oliveira do Bairro. Um morcego, perdido, atarantado, cego pelos holofotes, surdo pelas palmas, gargalhadas e gritos, inebriado pelo cheiro dos perfumes, do vinho e da carne assada. Voava, tonto, sobre os ninhos de cabelos arranjados.

 

Portas é de palco. Não gosta que lhe tirem protagonismo. O povo devia estar ali para ouvi-lo e não para admirar um solitário morcego. Chegou a desvalorizá-lo: “não se preocupem com o morcego, é como as sondagens”. Mas o povo não tirava os olhos do tecto. Portas tinha de mudar de estratégia. Enfrentou-o cara-a-cara: “meu caro morcego”, disse. A estratégia resultou, ao sentir os sorrisos na sala. “Será um indeciso” - acrescentou, confiante. Agarrava a sua plateia. O povo voltava a olhar para o palanque. Colocou a mascarilha, vestiu a capa e convidou o morcego para ser o seu Robin. O protagonista voltava a ser o Batman.

publicado por Ana Catarina Santos às 22:16
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Enquanto o Elevador não anda

 
Fica-se com música do Elevador.
Uns estão na campanha, outros com projectos pessoais, outros ainda recuperam do choque do regresso após uma ida a banhos no Mediterrâneo.
Só para confirmar que isto vai continuar a andar, mas (ainda) mais lento. Não desistam.

 

publicado por Bruno Faria Lopes às 13:26
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Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

Os pensionistas estão melhor do que os políticos dizem

Quando o PSD chumbou o PEC IV, uma das razões apontadas inicialmente foi o programa congelar as pensões mínimas. Já antes, o governo PS tinha adiado até ao limite a penalização dos pensionistas, que foram amplamente poupados nos sucessivos pacotes de austeridade. Há dias, no debate entre os líderes de partidos tão diferentes como o Bloco de Esquerda e o CDS, foi difícil perceber quem era o maior defensor dos pensionistas. Numa altura de emergência orçamental e de apreensão quanto ao futuro, toda esta dedicação reflecte duas coisas: a percepção distorcida que a classe política tem da dimensão da pobreza dos pensionistas e o enorme poder eleitoral deste grupo.

É evidente que num país com quase 2 milhões de pobres há uma fatia considerável de pensionistas pobres (e doentes ou vítimas do isolamento). Mas a situação da maioria é melhor do que o discurso político quer fazer crer. Em primeiro lugar, o combate à pobreza entre os mais velhos tem registado progressos notáveis, como demonstra um estudo feito pelo economista do ISEG Carlos Farinha Rodrigues, publicado há dias pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. A taxa de pobreza dos idosos caiu para cerca de metade em apenas 15 anos (de 40% em 1993 para 20% em 2008), muito mais que a das crianças, por exemplo, que desceu apenas três pontos (de 23% para 20%). Esta redução da pobreza, explicada em parte pelas políticas sociais, foi combinada com um aumento da esperança de vida depois dos 65 anos (dois anos neste período e cinco anos entre 1970 e 2008).

Em segundo lugar, convém perceber que nem todas as pessoas que recebem pensões baixas são pobres. Um estudo do mesmo Carlos Farinha Rodrigues e do economista Miguel Gouveia, da Universidade Católica, mostrava em 2000 que só 31% das pessoas que recebiam a pensão mínima eram efectivamente pobres - um resultado que, segundo um dos autores, não mudaria muito caso o trabalho fosse actualizado. Há razões para isto, como as poupanças feitas ao longo da vida (por quem não contribuiu para o sistema).

É bom sublinhar de novo que isto não significa que haja poucos pensionistas em dificuldades. O que significa é que as pensões em geral - e em especial as não contributivas - não são recebidas por uma maioria pobre. Por outras palavras, o cobertor da Segurança Social está a ser usado para manter promessas difíceis de cumprir e para reforçar desigualdades na redistribuição de rendimentos. Tudo à custa das deficitárias finanças públicas, o que impõe um ajustamento mais duro a quem trabalha - quer através dos descontos (feitos também por jovens, a maioria precários que sabem que não terão direito a este tratamento no futuro), quer por outras medidas, como a substituição do congelamento das pensões mínimas pela subida do IVA, como já propôs o PSD.

Não deixa de ser irónico que os partidos que tão prontamente cavalgaram os interesses dos jovens da "geração à rasca" sejam os mesmos que não arriscam perder votos com medidas elementares de justiça entre gerações (e de combate mais eficaz à pobreza). A demagogia e os estereótipos à volta das pensões servem de esquema político de compra do voto dos pensionistas, à custa dos restantes grupos sociais. Isto acontece porque os pensionistas não só são um dos grupos demográficos mais fortes (3,2 milhões de pessoas!), como tendem a votar mais - muito mais que os jovens à rasca, que preferem ficar em casa ou ir a manifestações e acampamentos.

Crónica publicada no i

publicado por Bruno Faria Lopes às 10:39
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Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

Os 200 milhões da discórdia chegam ao WSJ

LISBON—Controversy on how Portugal is meeting its budget deficit targets under a €78 billion ($110.1 billion) bailout deal is brewing after a parliamentary agency said that more than €200 million in first-quarter state spending cuts actually came from unpaid bills.

 

O mal que estas coisas fazem a Portugal só não é maior porque a) infelizmente já vêm em cima de outras coisas descredibilizantes e têm por isso um impacto marginal menor, b) a situação económica do país já é tão dura que... o impacto marginal é menor e c) lá fora já conhecem as práticas do poder incumbente. Razões pouco animadoras, convenhamos.

publicado por Bruno Faria Lopes às 23:42
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

Dear EU citizens

 

Rossio, Lisboa, hoje.

Crédito: AFS

publicado por Bruno Faria Lopes às 17:42
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Terça-feira, 24 de Maio de 2011

Boys

E uma promessa que Passos Coelho nunca conseguirá cumprir.

publicado por Bruno Faria Lopes às 17:23
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Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

Ora então vamos lá a isto

publicado por Bruno Faria Lopes às 13:34
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Sexta-feira, 20 de Maio de 2011

Debate, debite, debote, debute...

O debate

Passos ganhou o debate (aos pontos, não por KO) porque não se deixou enredar nas armadilhas retóricas de Sócrates de se esquivar às suas responsabilidades. Conseguiu fazer passar a ideia de que a responsabilidade pelo estado a que as coisas chegaram é, naturalmente, de quem governou como Sócrates governou e não da oposição; ganhou porque não se deixou esmagar tendo em conta que expectativas não eram altas. Dito isto, não creio que o debate seja decisivo para a distribuição dos indecisos. Passos sai um pouco mais favorecido na tendência geral. Não sai dali com as eleições ganhas. Para o debate ser decisivo era necessário  que o adversário cometesse uma gaffe desastrosa.

 

O debite

Não é que Passos tenha ganho neste domínio: foi  Sócrates a perder eficácia. O ponto mais fraco do PM foi o golpe em que ele costuma ser forte: o repisar do mesmo discurso, dos mesmos soundbytes, e das mesmas ideias feitas, construídas e estudadas ao milímetro, que Passos não deixou passar e rebateu com bastante eficácia. Nos "bytes", Passos perdeu pontos quando não explicou a questão dos co-pagamentos na saúde. Depois disso, Sócrates raramente pontuou.

Um dos momentos mais altos foi sobre a taxa social única quando Passos disse a Sócrates para deixar falar quem estudou. O debyte devia ter sido este: "Se o senhor não estudou é um problema seu, mas agora deixe falar quem ainda estudou alguma coisa na vida..."

 

O debote 

Quem quer ser José Sócrates hoje? Ninguém. A posição dele é a mais difícil de todos os candidatos. Nunca um primeiro-ministro se recandidatou numa posição tão difícil (Santana não conta porque nunca tinha sido eleito), ao fim de anos de governação e polémica. Conseguir manter o bote à superfície e não estar já completamente esmagado pelas sondagens e pelos adversários é de uma capacidade política invejável. Sócrates ganhou o debote, nem que seja por não ter ido ao fundo como uma pedra.

 

O debute 

No primeiro debate do resto da vida dele, Passos passou no teste. Passos Coelho ganhou o debute. Com mais ou menos nervosismo, visível nas mãos e nas expressões faciais e corporal, ele passou na prova mais difícil desde que é líder do PSD. Ganhou o debute. Meia vitória num combate destes é conseguir desviar-se dos golpes de um lutador temível como Sócrates e usar a força do adversário para o deitar ao chão.

 

Agora, isto foi só um debate. Governar é outra conversa...

 

ADENDA1: nas primeiras conversas com eleitores indecisos após o debate, ainda não tinham decisão formada. Vale o que vale, mas os olhos da maioria das pessoas não são como os dos jornalistas e comentadores. E lá por alguém achar que este ou aquele esteve melhor num debate não quer dizer que vão a correr votar nele e é preciso não esquecer isto.

 

ADENDA2: parece que uma sondagem da Católica dá 23% a dizerem que o debate contribuiu para decidirem o sentido de voto, sendo que a maioria acha que ganhou o Passos. Veremos amanhã esses resultados.

publicado por Vítor Matos às 22:38
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Bom fim-de-semana

publicado por Bruno Faria Lopes às 21:01
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Portugal, a China e o populismo de Merkel

Exactamente um dia depois de Portugal pedir a assistência externa, os economistas alemães celebraram aquilo que poderá ser um ponto de viragem para a história económica daquele país: a China será o maior mercado de exportação da Alemanha já em 2015, ultrapassando os Estados Unidos. Esta semana a chanceler alemã Merkel voltou a humilhar os portugueses, os espanhóis e os gregos, mandando-os trabalhar mais horas, ter menos férias e sair mais tarde para a reforma - tudo para serem mais iguais aos exemplares alemães. Estes dois acontecimentos estão ligados: com a ascensão da China, a Alemanha precisa cada vez menos da Europa para crescer e menos ainda da Europa do Sul. Portugal, Grécia e Espanha só são importantes na medida em que devem muito dinheiro à banca alemã. A situação é perigosa: podemos arder à vontade desde que não perturbemos o euro e paguemos o que devemos.

Os quatro países problemáticos do euro - Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia - valem apenas 5% das exportações alemãs. Só a Bélgica vale 6%. Estes países são os que têm maior défice externo, cuja correcção terá de ser feita com esmagamento do consumo e das importações - um problema que não deve preocupar muito os alemães. Quem em Portugal diz que o nosso endividamento serviu para comprar BMW e dar dinheiro a ganhar aos alemães não conhece a justificada fraqueza desse argumento em Berlim (já o contrário é verdade: a Alemanha é o segundo maior mercado para as nossas exportações).

Mesmo o resto da Europa tem vindo a perder importância relativa para as exportações alemãs. A razão está sobretudo na China. Com os seus carros de luxo, a sua maquinaria industrial, as suas turbinas e produtos de grande consumo, os alemães têm tirado mais partido que ninguém do crescimento da China. Os alemães não precisam de trabalhar mais que os portugueses (trabalham em média menos três horas por semana) - a diferença está no valor daquilo que produzem. As exportações para a China mais que quadruplicaram na última década e valem agora 5,6% do total alemão. Se olharmos para toda a Ásia, a quota global nas vendas dos alemães já é de 10%, o dobro do verificado há 20 anos.

A importância da China e dos restantes emergentes para as exportações da Alemanha - que são o coração da economia - está, portanto, a deslocar as prioridades de Berlim. O historiador económico Niall Ferguson é claro sobre o que se passa: "Se não fosse a China, os alemães estariam a sofrer com a crise. Isto ajuda a explicar por que razão os alemães continuam tão duros face aos problemas da periferia da zona euro." O compromisso com a Europa mantém-se? Sim, mas este é outro mundo.

O problema adicional é que, apesar de sermos pouco importantes para as vendas, somos devedores relevantes. Foi o excedente exportador alemão, depositado na banca, que financiou alegremente o despesismo do Sul da Europa. Os bancos alemães têm a maior exposição à dívida de Portugal, Grécia e Espanha: mais de 226 mil milhões de euros. A seguir, com 216 mil milhões em jogo, vem outro grande exportador europeu e peso-pesado na política: a França.

Em resumo, valemos cada vez menos para o negócio e damos mais dores de cabeça. Esta é a visão de Berlim. Há ainda o facto de o euro ter sido construído nas costas dos cidadãos, mas é na economia que se joga a questão essencial. A posição portuguesa na Europa nunca foi tão frágil. O populismo perigoso de Merkel nasce também daqui. Perceber isto é urgente para reflectir sobre a aceitação cega das políticas e dos recados que vêm de Berlim. Se o debate político em Portugal não fosse tão pobre, a resposta a esta fragilidade deveria ser das principais questões na campanha eleitoral.

 

Crónica publicada no i

publicado por Bruno Faria Lopes às 12:01
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