É cedo para exigir detalhes dos prometidos cortes na despesa pública, como é cedo para dizer que há ministros invisíveis ou para pedir resultados da governação. Mas, passado um mês da tomada de posse, começa a estar na altura de notar que o executivo tende a olhar para a “mudança” prometida do estreito ponto de vista da contabilidade nacional e de algum liberalismo económico. O problema é que sem encarar como prioridades outras áreas negras, como a falta de transparência das instituições ou a corrupção, não será possível falar de mudança com uma cara séria. Um mês é pouco tempo para tirar conclusões neste campo – mas chega para detectar sinais pouco encorajadores.

A Lucy Pepper acaba de inaugurar o mais recente blogue associado ao Portugal Daily View: chama-se exactamente Lucy Pepper, porquê inventar outro nome quando se tem um nome tão bom? É uma britânica a viver em Portugal há cerca de 12 anos, e aqui escreve textos deliciosos sobre os tiques dos portugueses, acompanhados pelas suas magníficas ilustrações (como esta aqui em cima). Lucy Pepper é como um espelho que reflete a nossa imagem do ponto de vista anglo-saxónico. Este post é delicioso, sobre as superstições e aquele remate que tanta gente pendura nas frases: "Sedayooshkeezehr"...
Diz Boaventura Sousa Santos, hoje, na Visão: "Não tenho vergonha de o dizer publicamente: podemos ser preguiçosos, podemos não saber como nos governar, mas não matámos 6 milhões e judeus e ciganos. Tenho pena de o dizer, mas tenho de o dizer. O nacionalismo puxa o nacionalismo. A Europa sempre foi isto. E é disto que tenho medo."
Pois, o homem não tem vergonha e eu não tenho pena de dizer que ele sim, mete medo e sempre foi isto.
Cheguei a casa.
Sabe bem voltar a casa.
Sinto que a minha vida, nas últimas quase seis semanas, foi uma montanha russa.
Ups and downs like a merry-go-round.
Emoções, experiências, conhecimentos, viagens, pessoas, reuniões, diversão, lágrimas, gargalhadas, afectos, homens, mulheres, abraços, olhares, cheiros, o arco-íris de Black-Hills, cores, rostos, pessoas, sons, sentimentos, sotaques, idiomas, pensamentos, frases, pessoas, alegria, tristeza, sabedoria, atitude, povo, ideias, vontades, blogue, medo, solidão, ansiedade, felicidade, amor, saudade, postais, preocupação, avó, aperto, memórias, culpa, estradas, rádio, livros, olhos, olhares, poemas, prédios, a espreguiçadeira na noite de High Line em NY, as estrelas, a noite, em que pensas?, lábios, vozes, pessoas, o cabelo despenteado da sem-abrigo "Miss Dallas" ao acordar, revolta, conformismo, cobardia, sociedade, energia, arquitectura, rugas, hábitos, hálitos, amigos, arte, histórias, bom, hamburgueres, aviões, suores, calores, calafrios, cidade, urbe, a roda gigante de Chicago, descalça, olhos fechados, "mereço?", lágrimas de felicidade, luz, tempo, mapas, danças, dançar, música, cantar, fotografia, verdade, sentir, temer, erros, entrega, pessoas, dor, o olhar fixo daquele prisioneiro em Stateville, o som da prisão, mensagens, palavras, esperança, sonhos, futuro, o sol da meia noite no Alaska, o silêncio, em que pensas?, o búfalo a atravessar a estrada, gargalhada, nudez, molhar os pés no Lago Michigan, correr de sapatos na mão, molhar o vestido, partir, pessoas, amizade, adeus, dor, palavras, promessas, saudade, voltar, casa. Eu.
Vida.
Viver.
A história completa ainda está por contar, mas o Público diz hoje que foi mais ou menos assim: O PS e o Bloco compremeteram-se em dar 500 mil euros à campanha presidencial de Manuel Alegre, mas ao que parece só entregaram 220 mil euros e 90 mil euros, respectivamente. É claro que do Bloco já conhecemos as posições sobre a reestruturação da dívida: o credor emprestou, então não emprestasse, correu o risco, agora aguente-se. Neste caso, pobre do poeta, mas os poetas estão habituados a ser pobres, vejam-se os grandes Camões ou Pessoa. O Bloco contestou a informação, assim como o PS. No entanto, não se percebe a forretice dos socialistas, que no ano de 2010 receberam na sede cerca de 80 milhões de euros só de subvenções estatais pelas três eleições de 2009, tanto quando o orçamento dos dois serviços secretos portugueses. Onde é que anda a massa? Era só poupança ou houve pelo Rato o algum desvio colossal?
Paulo Portas perguntava isto numa entrevista antes da campanha eleitoral para justificar a necessidade de ter o CDS no Governo: "O CDS não depende do Estado para a satisfação de clientelas: acredita que o PSD por si só vai fazer alterações significativas nas empresas públicas?"
Sim, o PSD já fez algumas alterações significativas: passou os gestores da CGD de 7 para 11. E que fez o CDS? Nomeou o seu próprio boy para também lá estar representado.
Há mais. Em Janeiro, o CDS pôs a circular um PowerPoint com o vencimento dos gestores públicos. Escândalo! Escândalo! Sim é um escândalo, vale a penar ler aquilo. Os vogais da CGD, como o boy do CDS Nuno Fernandes Thomaz ganhavam entre 450 mil euros e 500 mil euros por ano. O dobro do que ganha todos os anos a chanceler Merkel (220 mil), dizia o CDS. Que diz o CDS agora?
No mínimo, esperamos que o dr. Thomaz anuncie o plafonamento do seu próprio salário: tudo aquilo que receber para além do vencimento anual da sra. Merkel irá para a caridade ou lá o que for e ainda ganha uns trocos. Ou agora e tal os gestores têm de concorrer com o privado e tal, e é preciso ter os melhores e tal e tal...
O Governo diz que no final de Agosto vai apresentar um plano para cortar mil milhões de euros em despesas. Só se pode interpretar este valor por modéstia ou gestão de exectativas. Na verdade, o PSD fará cortes nos gastos do Estado muito maiores: não podemos esperar um corte inferior a 1.700 milhões de euros. Foi isso que, num certo dia de Abril de 2010, disse o actual ministro da Administração Interna Miguel Macedo e, ao que parece, estava a falar a sério. Afirmou-o no Parlamento, onde as pessoas não costumam brincar nem mentir e até distribuiu documentos com a coisa por escrito:
"A redução de gastos que agora propomos, de cerca de 1700 milhões de euros, é superior ao aumento de impostos que o Governo propõe no PEC para 2011, de cerca de 1100 milhões de euros". E depois elencava onde ia cortar.
Como não se espera que o novo ministro das Finanças venha dizer que a antiga proposta do PSD é impossível de aplicar, é só fazer as contas:
mil milhões de euros de imposto extraordinário + 1.700 mil milhões de euros de corte na despesas - dois mil milhões de euros de desvio colossal = 700 milhões de euros adicionais para abater nos 5,9% de défice. Há dúvidas?
Se isto não acontecer só podemos tirar duas conclusões: o PSD na oposição estava a enganar-nos com soluções impossíveis; ou então era tão ingénuo que só agora pecebeu que o mundo se complica quando depende de nós. Há uma terceira hipótese: estava a ser ingénuo por achar que não ia ser apanhado a enganar-nos quando lá chegasse.
"There was only one catch and that was Catch-22, which specified that a concern for one’s own safety in the face of dangers that were real and immediate was the process of a rational mind. Orr was crazy and could be grounded. All he had to do was ask; and as soon as he did, he would no longer be crazy and would have to fly more missions. Orr would be crazy to fly more missions and sane if he didn’t, but if he was sane he had to fly them. If he flew them he was crazy and didn’t have to; but if he didn’t want to he was sane and had to. Yossarian was moved very deeply by the absolute simplicity of this clause of Catch-22 and let out a respectful whistle.
“That’s some catch, that Catch-22,” he observed."
É difícil falar destes tempos que nos cercam (é este o verbo: não são "os tempos que se vivem", são "os tempos que nos consomem") sem usar três palavrões a preceder (ou a seguir) cada um dos substantivos utilizados. Mas há quem consiga. Liguei a Manuel Alegre para o ouvir sobre o futuro do PS e da esquerda e do país e da Europa e do mundo. A conversa foi precedida de uns considerandos sobre o vento que, desta vez, "não passa" (parece que é amanhã, se as previsões meteorológicas não afinarem pelos diapasões com que se costuma coser o Orçamento do Estado e acertarem). Alegre não compôs uma trova, mas saiu-lhe este verso: "Até o Verão nos roubam". Afinal, ainda é possível descrever-se a crise com poesia.
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