O outro dia, ainda esta semana, foi uma barulheira de concertina na inauguração dos dois jardins reabilitados (reabilitação que pelo menos num deles correspondeu a uma triste destruição). Esta semana, que antecede a grande Feira de Agosto em Grândola, abre a época das inaugurações, e parece que há coisas para inaugurar que não acaba. Ora estava eu há dias a jogar basquetebol com o meu filho (cinco anos) no chamado Parque Desportivo, num campo onde joguei anos e anos, horas esquecidas, há mais de vinte anos, quando um jovem e diligente funcionário nos avisou: "As ordens que tenho é que não podem usar o campo antes de ser inaugurado!" Eu: ?!?!!??!!!!!! Ah pois é: i-nau-gu-ra-do! O piso era novo, pois era. As tabelas também, piores do que as antigas, mas novas, uma rede de ténis e duas balizas. A inaugurar. Ora aquele campo deve ter sido inaugurado vezes que esquece. Joguei lá hóquei em patins devia ter ums 12 anos, portanto, foi inaugurado pela primeira vez pelo menos há 26, e, como não havia ainda polidesportivo coberto, no inverno jogávamos e treinávamos à chuva escorregávamos nos patins e depois escorregávamos na chuva. Adiante. Obediente, fui-me embora. O campo ficou lá sem uso à espera que um politiquinho de merda qualquer cortasse uma fita de merda qualquer. Gostava de ouvir o discursinho de merda que um politiquinho de merda faz quando inaugura o piso novo de um campo velho. Mas esses momentos patéticos são de evitar quando se está de férias, já basta o que basta quando somos obrigados a ouvi-los quando estamos a trabalhar.
-Segundo Mário Crespo revelou na altura, nos inícios de 2010, “O primeiro-ministro deste país (na altura José Sócrates) disse que eu era um problema por resolver. Isso é insofismável.”
-Miguel Relvas ainda não disse que o convite a Crespo era mentira. Aparentemente, Crespo já não é um problema. Isso é insofismável.
-É esse precisamente o problema. Nem todos os jornalistas são problema para o poder. Mas convém que quando o são, sejam para todos os poderes. Assim, parece um prémio por ter sido um problema de outro.
-Foi uma escandaleira (um “problema”) quando o governo de Santana Lopes fez pressões para acabar com os comentários de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI. Ou quando Sócrates soube e disse que não sabia do quase-negócio PT-TVI. Ah, pronto, era por não ser na RTP e andarem a meter-se nas tv’s privadas. Na RTP isto já não é problema?
-Ainda ninguém teve um ataque, de vergonha ou algo assim, na RTP?
-Depois da fuga para o Expresso, haverá ainda lata para que Crespo vá mesmo para Washington? Menos provável. Assim se estraga um futuro feliz ao jornalista. Os jornalistas são um problema.
Alberto João Jardim, que há três décadas é levado no andor pela hierarquia da igreja da Madeira, já considera os locais de culto como coisa sua. Pois claro.
PS: Há sempre alguém que resiste, graças a deus!
O Conselho de Ministros de ontem durou 10 horas. Hoje, o ministro Vítor Gaspar em vez de anunciar cortes colossais anunciou aumento de receita através de um incremento do IVA sobre o gás e a electricidade. Ou seja, os cortes são no nosso orçamento familiar. Em política isto é claro como água: para terem passado tanto tempo juntos, ontem os ministros não se entenderam quanto aos cortes, o que é provável, ou estiveram só a fazer um balanço das medidas e da avaliação da troika e não debateram cortes nenhuns. Em qualquer dos casos, o sinal que sai da PCM é de incompetência: ou não tinham o dossiê dos cortes consolidado entre o PM, o MF e os ministros sectoriais; ou então não percebem nada mas mesmo nada de comunicação. Não se lançam expectativas destas para nada. E as expectativas nestas matérias contam muito. Não era o PSD que queria cortar 1700 milhões de euros? Estar na oposição é muito fácil.
Na linguagem dos velhos da sueca lá do meu jardim, eles não estão de corte mas estão destrunfar. Um dia destes, quando quiserem cortar já não têm trunfos.

Quando sabemos que durou 10 horas o Conselho de Ministros de hoje, onde foram decididos os cortes orçamentais que o ministro Vítor Gaspar vai anunciar amanhã, podemos começar a imaginar que não foi apenas um Conselho de Minsitros sobre os cortes orçamentais. Foi uma discussão, só pode ter sido. Não foi um discurso de 180 segundos do amigo Gaspar e começou assim: "Desde meados do século XX, que os cortes orçamentais dos governos portugueses, como está no anexo 3245... não estou a ver os senhores ministros a virarem as folhas...". E a seguir podemos imaginar os ministros a discutir. Isto não augura nada de bom, porque nos governos organizados, temas sensíveis como este chegam a CM digeridos, trabalhados e decididos em conselho de secretários de Estado ou em reuniões conclusivas entre o PM, o MF e cada ministro sectorial. Além disso o PM esteve de férias esta semana: terá sido boa ideia? No CM de hoje:
- O meu corte é maior do que o teu!... Eh pá, e ali a Assunção, não tem cortes porque já cortou nas gravatinhas? Ai é?
- ... nos anos 60, os cortes orçamentais foram impossibilitados pela guerra...
- Ó Vítor, isso é que não! Não podemos cortar aí, então e depois com'é que é? Isto não funciona...
- Ó pá, se os polícias num têm cuortes que se beja, num bais cortar na tropa, num bais nãoe... há biaturas inop parqueadas e nabios a ber nabios, num se puode cortar ainda mais na tropa, não pode...
- ... nos anos 70, a revolução cortou os cortes e depois... vejam o anexo 378 b)...
- Tás a ver a Inglaterra? Põe-te a cortar na polícia e depois diz que eles te partem a montra...
- Eh pá, eu quero mais cortes, pá, eu quero um corte colossal, pá,e que as pessoas percebam que o meu ministério está disponível para se sacrificar. Acho que o meu ministério tem poucos cortes!.. eu... fico com os cortes da Assunção pá!... Estou de corte, estou de corte!
- Olha, o teu superministério não tem um supercorte!... Assim não dá, não vim para o Governo para isto, humm! Não posso ser eu a levar com tudo...
- Oh senhores ministros, estamos reunidos há seis horas e ainda só conseguimos cortar 600 milhões... vá lá, a esta média a reunião ainda vai demorar mais quatro horas...
- e... para terminar... nos últimos anos, o governo não cortou... e passo a enumerar as novas oportunidades perdidas, página 8432, ponto1 alínea a)...
Amanhã saberemos mais...
Apesar de o verão ter acabado de chegar, sinto já o cheiro do outono (senão mesmo um prenúncio de inverno) no ar. Talvez a explicação resida no facto de só ontem ter lido com atenção as mensagens que o Presidente da República e o primeiro-ministro fizeram a delicadeza de publicar no facebook, suspeito que, mais do que com o objetivo de nos desejar boas férias, com o fito de nos fazer lembrar que "as férias, meus caros, são um interlúdio breve, brevíssimo, na expiação sem fim dos pecados a que estamos todos condenados". Tanto bastou, com efeito, para ignorar os 37 graus e o azul do céu que só agosto consegue ter. Enrolei-me mentalmente em posição fetal, obcecada pelo pensamento de que setembro se aproxima a passos largos, precedido da angustiante certeza de que é só o princípio de um ano que tem tudo para ser inesquecível - no pior sentido da palavra. Não me sai da cabeça o consolo, a solidariedade, o aviso, a ameaça que o PR e o PM afixaram no mural em jeito de "aproveitem bem, pois nunca se sabe quando voltarão a ter outras". Votos de boas férias.

Achei bonito.
Do site do Guardian. Diz a legenda: "A large crowd turned out in Clapham with brooms and dustpans to help clean up the streets."
E na Grécia não se viu disto. Coisas dos ingleses.
Do país onde a direita não tem complexos, nem merdas – e ainda está viva. Ler este texto com calma é profilaxia contra qualquer eventual pulsão para deitar nas costas da "austeridade" e dos "cortes nos centros para jovens" a responsabilidade pelo London blitz de 2011.
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