Gaspar disse o que devia ter dito na altura certa. O governo só vai cumprir a meta deste ano com contabilidade criativa - o género de coisas que agências de rating (e os mercados, agora mais atentos) cheiram à distância. Por isso era essencial dizer já que em 2012 a correcção estrutural do défice será feita para corrigir os desvios. Tradução: o ano que vem vai ser ainda mais tramado do que estávamos à espera.
O ministro Gaspar acaba de informar que o valor da dívida não reportada da Madeira é de 6,3 mil milhões de euros. Em submarinos, que é sempre uma boa maneira de contar as coisas, o Alberto João conseguiu esconder o valor de pelo menos uma dúzia. É obra: ele tornou invisíveis 123% do PIB da região. O homem é um ilusionista e tem talento. Este número nem o Luís de Matos...
Há uma mercearia tradicional na esquina da minha rua, que era do sr. Américo, que depois passou para uma ucraniana de olhos azuis muito tristes, que agora é de uns indianos, tem internet e está aberta até à meia noite. Dá muito jeito, porque o sr. Américo a essa hora já ia no terceiro sono e nós nunca sabemos a que horas precisamos de um ramo de coentros para fazer uma açorda lá em casa. Ora regressava eu de mais um fecho de edição, depois das onze e meia, e então passei pela mercearia com o peso na consciência de não ter comprado a fruta e os iogurtes para as crianças. Benditos indianos. Entrei e escolhi a fruta. Depois os iogurtes. Olhei olhei e não vi, e então perguntei. Não tem iogurtes? O homem ficou a olhar com os olhos assim, calado. Iogurtes, não tem? Ele apontou calado para uma prateleira e eu vi latas de leite condensado ao lado de comida enlatada e várias massas. Iogurtes? Iogurtes?
O homem abanou a cabeça com um sorriso a meio. Do you speak english? E puxou de um computador portátil, que pousou no balcão, e eu googlei "yoghurt" no google images. Aaaah yoghurt... didn't understand... don't speak portuguese... don't have... ahaha... sorry sorry. No outro dia de manhã havia fruta lá em casa e uma história para contar. Vê lá tu que ontem fui ali à mercearia e...
O aparato da segurança, a atenção dos media, o imaginário cinematográfico, a iconografia do edifício-sede, o drama, o poder – tudo isto pode contribuir para uma ideia glamourosa do que se passa numa Assembleia Geral da ONU. Afinal, encontram-se naqueles pouco mais de 7 hectares todos os grandes do mundo (e os pequenos, que são bastantes mais). Mas não há glamour que resista à realidade: os 39 andares do edifício do Secretariado estão em obras, há andaimes, toldos e estruturas metálicas por todo o lado, mais as tendas montadas de propósito por causa da AG. Boa parte das reuniões realizam-se num edifício provisório, um bloco branco a que, por piada, alguém da delegação portuguesa batizou como IKEA – um mamarracho tão frio e incaracterístico por dentro como por fora, com escadas de metal e ar de pavilhão multiusos, que podia servir para feiras industriais.
Este é o placo de muitas das reuniões bilaterais. As restantes acontecem no edifício da Assembleia Geral, em pequenos cubículos divididos por biombos cinzentos. Não há vestígio de luxo ou de sofisticação. Nalguns casos, nem de conforto. Noutros, nem sequer de privacidade. É o que há – espacinhos atarracados onde cabe o essencial: uma mesa baixa, dois cadeirões a dar ar de cerimónia e quatro cadeiras de cada lado. E água.
É aí que se desenrolam os trabalhos à margem da Assembleia Geral: encontros bilaterais em sessões contínuas. Sai uma delegação, entra outra. Next!
(Na foto, Paulo Portas numa das portas do edifício da Assembleia Geral, entre as tendas improvisadas, num dos locais onde era possível fumar)
A reportagem "Paulo no centro do mundo", sobre os bastidores da semana de Paulo Portas
na Assembleia Geral da ONU é publicada na revista Única, com a próxima edição do Expresso
... a Fátima Campos Ferreira e o Presidente da República são mais do que vagamente parecidos quando falam de "empreendedorismo" e do "dinamismo dos jovens".
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