Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

Yes, we can

 

A Patrícia Fonseca assina esta semana uma extraordinária reportagem.

É uma história de sofrimento, amor, coragem e esperança que tem no meio a  Safira, uma menina de caracóis dourados e sorriso de açucar.

É também uma história sobre preconceito, sobre desafio ao totalitarismo, à lei e à burocracia, sobre assumir responsabilidades mesmo que impliquem riscos ou até um salto de fé.

É muita coisa, portanto - mas a Patrícia trabalha todos os elementos da sua história com inteligência, talento e sensibilidade. Não sendo indiferente ao que conta, não é nem lamechas nem panfletária.

Parabéns à Patrícia Fonseca. E parabéns à Visão por ter investido nesta investigação e ter feito capa com a história de uma menina que ninguém sabe quem é.

Não temos de sucumbir à ditadura das celebridades, do sensacionalismo gratuito, do aligeirar cada vez mais, dos formatos pré-cozinhados, da cópia do que os outros fazem "lá fora". Basta querer fazer jornalismo.

Yes, we can.

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publicado por Filipe Santos Costa às 16:52
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

Um economista com défice de pudor

O economista João Salgueiro diz coisas destas. João Salgueiro diz que os portugueses não perceberam que têm que mudar de vida, que os portugueses "não foram convocados para mudar de vida", não foram "convocados para a poupança". Os portugueses, turba em que João Salgueiro não se inclui - a elite portuguesa em geral fala dos portugueses com um indisfarçável distanciamento -, os portugueses, dizia eu que dizia ele, não se distraem das suas vidinhas patéticas para "tarem" mais atentos ao desperdício por esse país fora. (Ele, João Salgueiro, vê coisas incríveis quando "anda pelo país". Ainda há dias esteve na Serra da Estrela e reparou que "as luzes que são ligadas uma hora antes do pôr-do-sol").

 

Não é de hoje este derramamento de sabedoria e de paternalismo. João Salgueiro é o homem que presidia à Associação Portuguesa de Bancos e que moralizava dizendo que a culpa do endividamento era dos portugueses. (Os bancos apenas surfaram a onda dos juros baratos e foram forçados a dar crédito, suponho.)  É o economista que em 2008 não via nenhuma razão para dizer que a supervisão do Banco de Portugal falhou. É um homem rápido a moralizar "os portugueses", mas ainda mais rápido a concordar que os bancos foram forçados a comprar dívida pública e que, por isso, é injusto que o Estado agora venha a entrar no capital da banca. Se calhar também foram forçados a financiar os negócios de construção e as parcerias e mesmo os créditos pessoais em que acumulam imparidades (que só não são maiores porque em Portugal um crédito em que as primeiras prestações não sejam pagas só é levado a malparado pela parte em incumprimento e não pelo todo). E podia continuar.

 

Se o défice de pudor não fôr remediável, pelo menos que haja mais contraditório e confronto.

Até lá, haja paciência.  

 

 

 

 

publicado por Bruno Faria Lopes às 23:51
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Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

Índice de citacionismo

O ex-secretário de Estado das Obras Públicas Paulo Campos garantiu hoje que nos seis anos do governo de José Sócrates, as PPP criadas "não representaram um euro de encargos para o Estado". Ahhahah ahahah ahah!... Só pode estar mal citado, é a única explicação.

 

20 valores no índice da pinoquice

publicado por Vítor Matos às 16:38
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You're in denial, and it's not the river

"Ricardo Salgado veio queixar-se que a "imposição abrupta de rácios não permite à banca financiar a economia". Diz que o problema da banca é mais de liquidez do que de recapitalização, embora suspeitemos que a receita ideia europeia de forçar os bancos a avaliar a dívida soberana a preços de mercado venha a produzir rombos significativos nos capitais próprios dos bancos. Com as novas regras os bancos vão revelar-se muito mais frágeis do que até aqui.

 

O que já não dá para perceber é que na mesma entrevista em que sugere que não pode financiar a economia afirme que tenciona duplicar a presença bancária em Espanha. Não tem fundos para a sua actividade corrente em Portugal, mas tem-nos para fazer aquisições em Espanha?"

 

Pedro Braz Teixeira, atento, no Cachimbo

 

 

publicado por Bruno Faria Lopes às 16:11
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Da série Grandes frases de outros tempos que estão de volta (II)

Há cada vez mais mês no fim do ordenado.

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publicado por Filipe Santos Costa às 10:38
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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

Um bom fim-de-semana para o jornalismo

Name and shame.

Ex-políticos que dão as suas tragico-cómicas subvenções vitalícias a corte.

O ministro com casa em Lisboa que "prescinde" do subsídio de habitação.  

publicado por Bruno Faria Lopes às 12:16
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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

A crítica entregue aos cridos

 

Há uma comovente onda de amizade que atravessa a imprensa portuguesa e alguma blogosfera. É hora de reconhecer que estamos perante uma coisa muito bonita.

Neste país pode faltar o dinheiro, a vergonha e a paciência, mas não faltam amigos a dar a mão a quem precisa. Bem-aventurados os que têm amigos assim, como é o caso de Maria João Lopo de Carvalho, escritora.

Constato que, nas últimas semanas, se multiplicam as referências na imprensa ao novo livro da referida escritora. Tem, pelos vistos, muitos e bons amigos, que incluiram nas suas publicações referências simpáticas (ou um pouco mais do que isso) ao seu novo livro.

Ao que leio, a obra versa a vida da Marquesa de Alorna e responde pelo simpático título "Marquesa de Alorna". Consta, por outro lado, que a escritora tem qualquer coisa a ver com a sua personagem (ou coisa que o valha), e que a obra obrigou a escritora a fazer uma investigação que durou, imagine-se, mais de um ano!

A leitura da imprensa, infelizmente, acrescenta pouco para além disto. Uma análise crítica das 688 páginas, nem pensar, que isso de crítica não só é coisa aborrecida como é, por vezes, desagradável. Na generalidade dos casos, as publicações que se enterneceram com o novo livro de Maria João Lopo de Carvalho delegaram na própria a responsabilidade de refletir sobre a sua obra. Uns "cridos".

Curiosamente, saiu quase em simultâneo outro livro sobre a Marquesa de Alorna, de Maria Teresa Horta. Esse, não só foi escrutinado pelos críticos, como passou no escrutínio com distinção. Mas imagino que já vos esteja a maçar com esta conversa...

Beijinho bom e bem hajam!

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publicado por Filipe Santos Costa às 14:30
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Cavaco prepara a entrada do PS no governo de salvação

[Uma leitura alternativa à intervenção de Cavaco]

 

Em que pensa um Presidente da República quando sugere ao governo que ceda perante a oposição na principal medida de consolidação, que vale 25% do esforço total em 2012?

 

Em que pensa o Presidente da República quando faz declarações incendiárias num momento tão delicado? Se Cavaco Silva não está contra a austeridade e insiste que as metas da troika são para cumprir, por que razão fala dos limites aos sacrifícios dos pensionistas (até aqui largamente poupados, sublinhe-se) e dos funcionários públicos? Cavaco é especialista em tirar o tapete a líderes do PSD – acabou de tirar mais um – e em estratégias para salvar a pele. Mas esta intervenção traduz algo mais profundo: face ao cenário que se adivinha em 2012, de forte contestação social no plano interno e de falência grega no externo, o Presidente da República está já a pensar num governo de salvação nacional com o PS.

 

Os dados estão lançados para um cenário de enorme instabilidade no próximo ano. Desconhecedores da realidade portuguesa, os técnicos da troika não contaram com os “desvios colossais”, mas nem por isso abrandaram o ritmo das metas. Este Orçamento do Estado – que ensaia o maior corte no défice em democracia, durante a maior recessão em 37 anos – não pode ser cumprido sem mais austeridade, o que agrava a recessão. As hostes do cavaquismo – de Ferreira Leite a Capucho, passando por Vítor Bento – têm alertado para este risco (que insistam em que se cumpra o Orçamento ilustra o beco em que estamos metidos).

 

A desesperança interna vai crescer ainda mais quando o país tiver de recorrer a um segundo pacote de resgate. O dinheiro do primeiro pacote não é suficiente, a Europa mal amalgamada na mesma moeda tarda em resolver o problema e a Grécia está perto de ser a primeira falência do euro. Tudo se encaminha para aqui: sem autonomia para tomar decisões, Portugal é obrigado a um ajustamento demasiado violento, gerador de tensão social e de um colapso da economia, que não evitará um segundo resgate.

 

Perante este panorama – sobretudo o segundo resgate –, o PSD assume informalmente o cenário de trazer o esfrangalhado PS para o governo, como já noticiou a “Sábado”. Com Portas entretido com viagens, o CDS vale pelas cadeiras que ocupa no parlamento. Já o PS vale pelo simbolismo de uma união de 78% dos votos – deixando apenas a esquerda radical de fora –, mas mais ainda pela representação que tem em sectores que PSD e CDS não dominam, como a função pública.

 

E assim chegamos a Belém. Cavaco tem este cenário como claro. Daí as pressões sobre a “Europa”, repentinas e anódinas, para buscar soluções. E daí a protecção da função pública. Porque espera que a rua aqueça e que o problema financeiro piore antes de melhorar, o político mais profissional no activo lê a situação e decide que é importante poupar a função pública. A repartição do esforço com o privado é mais justa, pensa, reduz a alienação de um dos sectores mais reivindicativos da sociedade (e alvo de reformas) e tem o efeito secundário (talvez calculado por Cavaco) de dar algum gás ao papel do PS, a usar mais à frente em caso de necessidade.

 

É difícil imaginar que Cavaco não tenha transmitido a preferência por outras medidas, em privado, a Passos Coelho. O primeiro-ministro terá seguido, como lhe assiste, a cabeça do seu ministro das Finanças.

 

Mas Cavaco ainda é o homem que nunca se engana e que raramente tem dúvidas. Neste caso está mesmo à frente do irrealismo do ministro Vítor Gaspar. Por isso não hesitou em ferir de morte a estratégia de comunicação (?) do governo para o Orçamento – e em sugerir que o governo ceda perante o PS numa medida que vale um quarto do esforço de consolidação orçamental em 2012. É difícil que o governo aceite. Mas é fácil prever que, ao agir desta forma, o Presidente da República tira força ao governo e entrega-a à rua e à oposição. Cavaco acabou de acelerar o cenário negro que prevê.

 

Opinião publicada no i

publicado por Bruno Faria Lopes às 10:34
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

O hábito faz o monstro

O País afunda-se a olhos vistos, o Orçamento do Estado pode acabar com o que sobra, a rua vai ferver, a política vai pegar fogo, o nosso estilo de vida está à beira de acabar como o conhecemos.

E no meio disto, o que faz a Assembleia da República? O bom e velho foguetório.

A tarde de hoje - toda a tarde de hoje - foi passada a festejar a República.

Note-se: esta tarde não se fez outra coisa no Parlamento senão comemorar. Por muito que não se perceba o que há para festejar.

Oficialmente foi a "Cerimónia de encerramento das comemorações do centenário da República na Assembleia da República".

Vejam bem: O centenário da República comemorou-se no dia 5 de outubro de 2010, há mais de um ano; há quinze dias, comemorou-se o 101º aniversário da República. Mas para a Assembleia da República, é perfeitamente apropriado continuar a celebrar o centenário um ano e 15 dias depois da data.

E assim foi: um autocarro despejou à porta do Parlamento a fanfarra da GNR em traje de gala, outro autocarro depositou o Coro do São Carlos de smoking e vestidos compridos, mais a "soprana" (sic!, "soprana", segundo a senhora presidente da Assembleia da República) Elisabete Matos, para executar o Hino Nacional.

Uma brochura, com fitinha verde e vermelha a enfeitar, foi distribuida, com o programa, que incluia:

- Sessão solene, com discursos e "Entrega da partitura do Hino Nacional pelo Dr. Artur Santos Silva, que presidiu à Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República"

- Inauguração da exposição A Assembleia Constituinte e a Constituição de 1911

- Apresentação da reedição da Constituição de 1911 anotada pelo Professor Gomes Canotilho

... e mais uma miudezas.

Ah, e todos os deputados receberam um saquinho com brindes que, tanto quanto percebi, incluíam a dita reedição da Constituição de 1911.

Tudo pago por nós, claro. Tudo pago por um país que não tem dinheiro para mandar cantar um cego.

Vários deputados com quem falei não escondiam o incómodo pelo absurdo da situação. Um, que até esteve na conferência de líderes em que esta sessão foi marcada, justificava-se: "Aprovámos a grelha de intervenções, mas não aprovámos o foguetório."

Mas celebrar é preciso.

Devo ser eu que ando suscetível...

publicado por Filipe Santos Costa às 19:30
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Japão (4)

 

Expresso Quioto-Nara, Agosto de 2011.

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publicado por Bruno Faria Lopes às 15:14
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