Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

O fim do euro começa quando se começa a falar do fim do euro

A Reuters já tinha posto ontem no site um trabalho elucidativo sobre os planos de contingência que muitas empresas estão a fazer para um cenário de desmembramento do euro. O Financial Times publicou ontem à noite no site e hoje em manchete na edição impressa. Estes artigos são um novo marco na história da crise. Até aqui os vaticínios pessimistas eram dispersos e apenas isso, vaticínios pessimistas. Agora é diferente: há reconhecimento público de que gente que sabe está a fazer planos para preparar o pior. E porque esse reconhecimento foi ventilado por marcas credíveis de informação – lidas por milhões – é possível que outros media peguem na ideia e a repliquem à escala de cada país. [Veremos como será em Portugal.] Se as empresas se preparam então talvez as famílias devam pensar no mesmo: esta ligação, que já está a ser feita em privado por muitas pessoas, demorará um ou dois dias a alastrar a toda a sociedade, até chegar às televisões. And then, all hell breaks loose.

 

Pode não ser assim já. Mas isto parece seguro: se no dia 9 a cimeira redundar em nova desilusão (e o patamar para evitar a desilusão está cada vez mais alto) uma corrida aos bancos pode ser uma possibilidade no espaço de um ou dois dias. Esta é a altura para começar a ver os sinais

 

 

publicado por Bruno Faria Lopes às 18:10
link | comentar | favorito
Terça-feira, 29 de Novembro de 2011

A24, uma estatística avulsa

Em 25 quilómetros de A24 – uma auto-estrada com duas faixas, viadutos impressionantes sobre os socalcos do Douro e túneis que rasgam montanha – contei 80 carros nos dois sentidos. Acho que só não foram menos porque fiz um troço perto de Vila Real. Eram 18 horas de uma segunda-feira. Não haja dúvidas: ligar Viseu a Chaves por auto-estrada foi uma decisão estratégica.

publicado por Bruno Faria Lopes às 18:09
link | comentar | favorito

Um país abaixo do limiar mínimo da pobreza

«Bebé morre à espera de transplante que Portugal deixou de fazer». Não tenho palavras. Só palavrões.

publicado por Cristina Figueiredo às 16:34
link | comentar | favorito

Mário Soares: o político não se assume

 

 

Aos 87 anos não se devia desperdiçar tempo. Foi o que Mário Soares fez com o livro que apresentará amanhã: “Mário Soares, um político assume-se – ensaio autobiográfico, político e ideológico”. O esforço é vão, o resultado sofrível, espreme-se muito e sai pouco. Soares argumenta que o livro não é de memórias, como disse hoje a Ana Sá Lopes na entrevista ao i. Não quer ser julgado como um memorialista, então será julgado como um não-memorialista. "Não é um livro ressentido", afirma. Nem o contrário. É um livro sensaborão escrito em meias tintas por um homem que nunca foi de meias tintas. Uma desilusão.

 

Posso dizer isto, porque peguei no livro novo apenas uma semana depois de ler de empreitada os três volumes das entrevistas a Maria João Avillez, mais “A Última Campanha” do Filipe Santos Costa, mais os “Contos Proibidos do PS” de Rui Mateus”. Isto torna a leitura deste “ensaio” absolutamente inútil. Mário Soares e outros políticos portugueses têm um dever para com as gerações mais novas, que é contarem o que sabem, assumirem de facto que fizeram, interpretarem e até justificarem os erros, darem-nos significado para sucessos, e oferecemrem-nos uma leitura de adversários e companheiros. Soares já fez muito. Deu-nos uma fundação cheia de documentos, mas agora podia ter partilhado uma visão do mundo através das experiências da sua vida extraordinária, uma das mais extraordinárias do século XX português. Invejável: uma vida que valeu tanto a pena ser vivida, para um livro tão pobre.

 

 

Não tem revelações que tornem a leitura obrigatória, nem reflexões ideológicas sobre cada momento histórico vivido e testemunhado pelo protagonista que tragam uma novidade ou suscitem espeicial interesse. O homem que 37 anos depois de ter combatido a revolução – e de ter sido o primeiro menchevique da história europeia a vencer os bolcheviques –, defende hoje no i que, “se a Europa não muda terá de haver uma revolução”. Uma revolução? De que tipo? Tipo PREC? Não explica. Não se percebe. É em tudo contraditório com a sua vida. Partindo do princípio que Soares não terá nem tempo nem cabeça para revelar em memórias futuras o que não revelou até aqui, este texto é de um político que não se assume, ao contrário do que nos engana o título.

 

Eis apenas uns pequenos exemplos daquilo que Soares não assume no volume “um político assume-se”.

 

- Não assume a descolonização – há quem o odeie por isso –, nem deixa para a posteridade um testemunho sobre as circunstâncias em que a descolonização aconteceu: Soares conta e enumera uns episódios dispersos da sua actividade como MNE nos governos provisórios, mas não assume, por exemplo, a descolonização da Guiné-Bissau com a clareza com que o faz nas entrevistas a Maria João Avillez (onde mesmo assim fica muito por contar). Também não explica por que diz (nas entrevistas a Avillez) que o processo de descolonização lhe fugiu das mãos para os militares do MFA, alguns deles afectos ao PCP.

 

- Não assume as políticas que seguiu durante o Bloco Central: dedica apenas oito páginas ao tema, nunca fala de como geriu a intervenção do FMI em Portugal, nem das dificuldades da Governação, nem da fome, nem dos salários em atraso, nem dos protestos e da maneira como lidou com eles, nem dos sacrifícios que exigiu aos portugueses para salvar o país da bancarrota. Em vez de deixar um testemunho político sobre a sua experiência de governação em duas situações dramáticas (1978 e 1983), prefere hoje dizer ao i: "Alguém aceitará que tecnocratas estrangeiros, de várias procedências, governem o nosso país? Mas por que carga de água?" A senhora Ter-Minassian, que se saiba, não tinha nascido ali em Alcabideche...

 

- Não assume o chamado caso Emaudio: a Emaudio era uma empresa gerida pelos soaristas mais próximos de Soares, criada com verbas sobejantes da campanha presidencial do MASP I, depois de uma reunião na casa de Nafarros em 1986. O objectivo era criar um grupo de comunicação social afecto ao PS (ou melhor, a Mário Soares). Para cumprir esse objectivo, o então inquilino de Belém cortejou investidores estrangerios e recebeu no palácio presidencial visitantes tão ilustres como Sílvio Berlusconi, Rupert Murdoch ou Robert Maxell. Nem uma palavra sobre o que era a Emaudio, estratégias e objectivos, nem sequer para esclarecer ou contraditar o que Rui Mateus escreveu no livro “Contos Proibidos” aquela célebre edição da D. Quixote que esgotou em dois dias e nunca foi reeditada. Soares desfaz Rui Mateus em 19 linhas, chama-lhe de ignorante para baixo, coisa que não sei avaliar, mas deixa-me perplexo que tenha deixado nas mãos de tão ignóbil figura as tão importantes relações internacionais do PS, ao longo de tantos anos. Não explica. Nem enquadra aquilo (caso Emaudio) que desaguará de forma muito intrincada no famoso “caso fax de Macau”.

 

- Não assume o tipo de relação que teve com Cavaco Silva: era interessante deixar como testemunho político a justificação da sua actuação como Presidente da República, sobretudo no segundo mandato, dizendo aquilo que verdadeiramente pensa de Cavaco e não diz: que é uma figura sem espessura, sem mundo, sem conversa, sem interesse, sem leituras de jeito para além dos livros de economia. Podia contradizer as acusações que Cavaco lhe faz na “Autobiografia”, justificá-las politicamente e dar-lhe um sentido à luz do que se sabe hoje, mas não. Soares prefere a hipocrisia.

 

É uma pena. Já não está em idade para isso. Aguardo com interesse uma biografia bem feita por um jornalista descomprometido.

publicado por Vítor Matos às 15:16
link | comentar | ver comentários (4) | favorito
Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

Notícias verdadeiras que são mentira quando publicadas

 

O filme Nos Idos de Março não é apenas um ensaio sobre a ambição, o egoísmo pessoal ou a vingança; também não é apenas uma denúncia da inevitabilidade da hipocrisia e do jogo sujo na política, mesmo entre os políticos que se esforçam por ser sérios. Também pensa o jornalismo, e aborda um tema que me interessa: as notícias que são verdade e que se tornam mentira no dia em que são publicadas. Ida, a jornalista do "Times", nunca chega a publicar a história que sabe ser vedadeira, porque não obtém uma confirmação firme, mas só essa eventualidade faz com que tudo mude nos bastidores da campanha. Transpondo para a realidade: um telefonema a um político com uma informação incómoda (ou mesmo sem ser muuuito incómoda), pode gerar uma cadeia de acontecimentos que torna essa notícia (inicialmente verdaderia) numa mentira ou numa informação deslocada.

 

Já me aconteceu uma fonte ligar bem tarde - eu já em casa -, a desmentir uma informação que tinha em página, prestes a fechar. Era um certo político que ia apoiar um certo candidato. Perante a insistência, preferi jogar pelo seguro e telefonei para a revista tirar a informação (que era muito secundária, pouco mais do que uma foto e uma legenda). Umas semanas depois, quando o dito político apoiou o dito candidato telefonei-lhe a chamar-lhe mentiroso. Respondeu-me: se você publicasse aquilo, talvez eu não lhe o meu apoio público [ao tal candidato]. Aí mentiroso era eu. Bom, como há coisas que não dominamos, contei-lhe a história que Ben Bradlee, director do Washington Post, costumava contar aos repórteres do Watergate. Ele um dia deu a notícia de que Edgar J. Hoover ia ser substituído à frente do FBI. Mas , em vez de Hoover ser demitido, aquela notícia teve o efeito de garantir que ele passaria lá o resto da vida. O político respondeu-me que quando estivera no Governo tinha feito muitas dessas. Aos amigos que dão aulas de jornalismo: vejam o filme com os vossos jovens e façam uma discussão sobre as notícias de antecipação verdadeiras que só são mentira se por acaso forem publicadas.

 

publicado por Vítor Matos às 14:11
link | comentar | favorito
Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

O país que gosta de pensar que só exporta "cérebros"

Há uma ideia feita e muito ventilada sobre a emigração: Portugal é hoje o país que exporta maioritariamente "cérebros". Há milhares de jovens a saírem do país, em média mais qualificados do que os analfabetos que iam para Paris (ou os ainda mais analfabetos que iam para o Brasil no início do século XX?)? Claro – num país que só entre 2006 e 2009 passou a ter mais diplomados do que pessoas só com ensino básico essa evolução é natural. A tendência ganhou muito mais força dado o estado lamentável do país (e não só – isso fica para depois). Mas a emigração qualificada – uma definição que convinha apurar (não me digam que basta ter um diploma qualquer) – tem ganho proporções de mito. Apesar da escassez de números fiáveis qualquer especialista em emigração (eles andam aí) não hesita em dizer que a maioria da emigração ainda é "não qualificada" (ou seja, sem canudo). A tendência para lavar este facto começou ainda nos anos 90. À falta de melhor interpretação fica esta: faz parte do rebranding que a elite gosta de apregoar, para (fazer) sentir que já não vive no país do antigamente.   

Adenda: cito de memória, mas não anda longe disto: Portugal tinha em 2010 tinha pouco mais de 800 mil diplomados; na última década as estimativas disponíveis sobre emigração (uma delas da autoria do actual ministro Álvaro) apontam 700 mil saídas. Topam?
publicado por Bruno Faria Lopes às 17:27
link | comentar | favorito

O cocktail e o molotov

Como veterano das manifestações gregas - que foi à tuga para a guerra urbana sem máscada anti-gás nem mallox na cara -, deixo aqui a minha visão sobre a violência (policial ou dos jovens indignados) à portuguesa. Os "desacatos" são de rir. E já agora a "brutalidade" policial também. Sugiro uma forma de protesto especil para confundir os media internacionais. Atirar cocktails & molotovs. Era giro pá!

 

 

publicado por Vítor Matos às 15:45
link | comentar | favorito
Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011

O lixo agora é Fitch

É claro que a Fitch iria cortar mais tarde ou mais cedo o rating de Portugal para "lixo". E a S&P virá a seguir. Mas estou curioso por ver as reacções a este corte. Se forem menos histéricas do que as de há alguns meses, depois do corte da Moody's, isso será devido a duas diferenças. No plano interno: a perda do estado de graça e do capital de esperança que muitos depositaram no governo. No externo: a percepção sobre a degradação da crise do euro. Por isso - porque a primeira não conta na hora de avaliar o rating e a segunda estava mesmo a ver-se - podemos admitir: a Moody's tinha MAIS do que razão quando cortou o rating de Portugal no verão, não tinha?

publicado por Bruno Faria Lopes às 13:17
link | comentar | favorito

Quatro condições para o sucesso de uma greve ou porque razões a greve geral de hoje não cumprirá as pretensões dos grevistas

O que é que as 10 maiores greves nos EUA nos mostram? O mesmo que provavelmente as 10 maiores noutro país qualquer, ou seja:

 

1. As greves eficazes - que conseguem parte ou a totalidade das reivindicações - são feitas por trabalhadores de sectores com potencial para paralisar a economia. Não é por acaso que as greves míticas aconteceram (e acontecem) nos negócios mineiros, do aço, dos transportes (todos os tipos de transporte), dos correios. Na altura em que foram feitas a paralização destes sectores era (e na maior parte dos casos ainda é) disruptiva da economia e da vida da maior parte dos eleitores.

 

2. As greves eficazes acontecem também em sectores protegidos da concorrência externa, dificilmente substituíveis em pouco tempo. Transportes, aço ou correios são bons exemplos. Têxteis não. 

 

3. Por fim, as greves miticamente eficazes são feitas na maior parte dos casos no pico da dimensão e poder das empresas. Há negócio a perder e margem para ceder.

 

4. Uma última condição: o sentimento da maioria da sociedade tem, pelo menos, de não ser hostil aos grevistas.

 

Estas são quatro condições para uma greve ter possibilidades de ser mais do que uma afirmação de resistência: capacidade de paralisar o país, protecção face concorrência, fmargem por parte dos empregadores e não hostilidade social. (Aqui excluo a repressão violenta, algo com que os grevistas actuais não têm de se preocupar.) 

 

Testando estas condições podemos averiguar do grau de sucesso de uma greve. Nos EUA, por exemplo, a greve no aço em 1919 paralizou metade da indústria, que não tinha concorrência e estava em boa forma - mas o patronato conseguiu colar a greve à ameaça comunista e à imigração ilegal, matando o apoio público. Mas em 1946 os mineiros conseguiram parte do que queriam, porque a economia estava a recuperar e o Presidente Truman não queria comprometer a retoma com uma paralização num sector crucial. Já em 1934, a greve no sector têxtil tinha falhado, pois havia excesso de oferta de têxteis (um negócio cuja ruptura não paraliza a sociedade)  no mercado. Em 1970 e em 1997, os serviços postais fizeram greve e conseguiram o que queriam: tinham apoio da população, perturbavam um sector essencial para as comunicações e faziam perder milhões de dólares por dia.

 

E em Portugal? Em 1988 houve uma greve geral contra as mudanças na lei laboral. Assim de repente, creio que a greve conseguiu o que queria, obrigando Cavaco a recuar. Talvez não tenha sido por acaso: o país tinha acabado de sair de uma taxa de crescimento de cerca de 7% em 1987, a maior desde o 25 de Abril (um recorde que se mantém) e o caminho era o do "pugresso". Havia margem para ceder e havia capacidade de mobilização. Haverá mais exemplos, como os professores ou os camionistas com Sócrates: capacidade de paralizar, sem concorrência, um empregador ainda com alguma margem e uma opinião pública mais ou menos sedada.

 

Hoje, no Estado e no sector privado, estas condições não são cumpridas. Nesta greve geral o sector privado em Portugal não tem pouca margem para sequer de fazer greve, quanto mais obter resultados (há a negociação colectiva, as empresas ou concorrem com o exterior, ou estão com a corda na garganta, ou usam o desemprego recorde para ameaçar os empregados, etc.). A capacidade de ruptura existe sobretudo no Estado (que também está protegido da concorrência), mas esse mesmo Estado não tem qualquer margem para concessões significativas. E, porque essas concessões significam ceder na luta de trabalhadores por direitos já adquiridos, num contexto de emergência económica é fácil colocar a sociedade contra os grevistas (como o governo tem feito).

 

Resultado: uma greve geral tem pouca expressão fora da Administração Pública e não alcança qualquer efeito tangível. Este direito fundamental (no caso de uma greve geral, que ainda por cima tem um objectivo difuso: foco nas reivindicações poderia ser outra condição) está, por isso, reduzido a uma coisa: válvula de escape para a tensão social, devidamente institucionalizada. Assim é em Novembro de 2011.  

 

 

publicado por Bruno Faria Lopes às 01:44
link | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

Freakpolitics - A hormona do amor no plano da troika (29)

A ideia era simples de aplicar e devia constar do memorando da troika. Os actuais sacrifícios dos portugueses poderiam ter sido evitados se os políticos portugueses tivessem sido inoculados, desde há muitos anos, com um esguicho de oxitocina em cada narina, com reforços sucessivos e doses generosas se fossem para o Governo. Os cientistas chamam-lhe a ”hormona do amor”, porque a sua presença no organismo aumenta 40% depois de um orgasmo, é responsável pelo prazer que os pais sentem ao pegar num bebé ou quando um casal de namorados se abraça. Mas não pense que o objectivo de injectar a hormona nos políticos era eles passarem a amar-nos perdidamente. Não: estamos a falar de dinheiro.

 

Um esgicho com a hormona oxitocina “torna as pessoas mais pacientes”, disse à revista Newsweek de há umas semanas Paul Zak, investigador na área da neuroeconomia da Claremont Graduate University. Durante uma experiência que realizou, as pessoas que recebiam uma dose extra de oxitocina tinham capacidade para lidar melhor com os mecanismos de recompensa e conseguiam adiar a gratificação no tempo para terem mais ganhos no futuro: as cobaias inoculadas com a hormona do amor preferiam receber 12 dólares mais tarde do que apenas 10 dólares no imediato.

 

Ora isto tem tudo a ver com política. O artigo de capa da Newsweek é sobre como o cérebro nos leva a gastar dinheiro e porque razão há pessoas com mais propensão a poupar para reforma. Há os consumidores compulsivos, os gastadores, os viciados em crédito, e os que conseguem adiar o prazer de gastar hoje para terem um futuro mais prazenteiro.

 

Os políticos são como os consumidores: procuram mais depressa a recompensa imediata do ciclo eleitoral do que uma aposta no futuro, que está para além da legislatura. Cavaco Silva não resistiu a obras, mais betão e a inaugurações perto das legislativas; António Guterres não aproveitou os anos de desafogo para fazer uma política contracíclica, de modo a poupar nos anos bons para poder gastar nos maus; Durão Barroso dividiu o mandato em dois, os primeiros anos para apertar o cinto e os últimos dois para gastar, mas antes disso foi-se embora obter uma recompensa muito mais imediata em Bruxelas; José Sócrates foi o que se sabe, multiplicou Parceiras-Público-Privadas (PPP), fez disparar o endividamento do Estado, e empurrou os encargos para o futuro de modo a obter benefícios imediatos. Um pouco da hormona do amor não lhe teria feito mal.

 

É preciso “artilhar o cérebro para encontrar prazer nas recompensas futuras”, escreve a Newsweek. Hoje, esse ajustamento está a ser feito à bruta e com grande sacrifício dos portugueses. O problema é olhar para os próximos anos sem se percebe onde estará escondida a recompensa. Os cérebros que não pensam nas consequências de gastar, não se escondem apenas dentro dos crânios que olham para as montras dos centros comerciais. Passam por Governos, Parlamentos e gabinetes. Não era preciso oxitocina, bastava ter havido alguma responsabilidade, mas achávamos todos que éramos ricos e que íamos ser ricos para sempre. Acabada a ilusão, somos obrigados a procurar algum prazer nas recompensas incertas de um futuro longínquo, mais pobres e sem hormona do amor.

 

Crónica publicada no site da SÁBADO

publicado por Vítor Matos às 11:05
link | comentar | favorito

autores

pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

arquivos

subscrever feeds