Véspera de Natal. A C. não dormiu com dores abdominais que pioraram durante a manhã. A perna começou a prender, podia ser apendicite. Ao início da tarde, fomos à urgência do Hospital de São José. Disseram que a urgência não estava cheia, embora houvesse muitos idosos depositados pelas famílias generosas que quiseram para passar o Natal e o Ano Novo descansados. Uma tristeza. Deviam ir presos. A C. não tinha apendicite, fez análises e não tinha qualquer infecção urinária. A médica disse-lhe: agora vai ter de falar com o seu médico e pedir-lhe uma ecografia pélvica. Reparem, estava numa urgência, a 24 de Dezembro, num hospital central, com dores agudas, para ter de pedir ao médico de família uma ecografia que nem o menino de Jesus sabe quando. Saiu do hospital sem diagnóstico e com os mesmos sintomas. É o nosso novo SNS.
Agora vai ser assim: se ela piora - está agora deitada com mais dores - voltamos ao São José. Se aguentar, talvez amanhã não tenhamos outra alternativa senão contribuir para os lucros da Mello Saúde. Não somos ricos, nem pouco mais ou menos. Mas se fôssemos pobres a ponto não termos seguro de saúde ou de não podermos pagar um tratamento ou voltávamos ao hospital ou esperávamos semanas de dor até fazer um exame. Há coisas que a crise não justifica. Nem a pressa de um médico num dia especial.
O Elevador da Bica teve acesso exclusivo ao i-Pad de Pedro Passos Coelho desaparecido no voo da TAAG para Luanda.
Aqui ficam as 20 canções que estavam na playlist do primeiro-ministro.
(Disclaimer: A imagem serve para fins meramente ilustrativos e não tem qualquer relação com o escândalo Strauss-Kahn)
Linda de Suza - Mala de Cartão
Paulo Alexandre - Verde Vinho
Dino Meira - Voltei, voltei
Roberto Leal - Português sem Passaporte
Conjunto Maria Albertina - O Emigrante
Marco Paulo - O Comboio da Meia Noite
Mário Gil - Pelos Caminhos de Portugal
Marante & Diapasão - A Bela Portuguesa
Linda de Suza - Uma Moça Chorava
José Cid - Cai Neve em Nova Iorque
Alexandra - Zé Brasileiro, Português de Braga
Dino Meira - Meu Querido Mês de Agosto
Graciano Saga - Vem Devagar Emigrante
Jorge Ferreira - Portuguesa, és a Mais Linda
Telmo Miranda - Ela é Made in Portugal
Mike da Gaita - Emigrante Português
Tony Carreira - A Terra Onde eu Nasci
Zeca Afonso - Canção do Desterro
Adriano Correia de Oliveira - Cantar da Emigração
Manuel Freire - Ei-los que Partem
Adenda: Ena Pá 2000 - Emigrante
A nação pode ser errante, mas tem um PM com uma noção errada de sensatez. Há palavras que nem aquele tom de voz torna sensatas. Primeiros-ministros são reféns de um cargo, não podem dizer tudo o que pensam sem consequências. Passos, o despovoador, merecia acordar um dia no meio de um pesadelo pós-apocalíptico: Onde está o meu motorista? Emigrou. Os professores das miúdas? Emigraram. O homem do talho? Emigrou. O secretário de Estado adjunto? Voltou a emigrar. O ministro da Economia? Reemigrou, graças a Deus. Depois de fazer o IC19 vazio até Lisboa: os cidadãos, os eleitores, os contribuintes? Emigraram. Os meu antecessores? Emigraram. Os ingleses do Algarve? O Governo inglês veio buscá-los. Ninguém vai pagar a dívida, ninguém vai dar mais um tostão a este Estado sorvedor da riqueza e da pobreza, todos foram para fora porque o primeiro-ministro sugeriu que não há solução cá dentro e o país fechou de vazio. E desapareceu. Já não havia mais nada para governar. Telefonou a Miguel Relvas... Tinha ido para o Brasil.
Que hipóteses tem um país semi-emergente como Portugal de se desenvolver se...
1) prescindiu da sua política comercial
2) prescindiu da sua política monetária
3) prescindiu da sua política cambial
4) prescindiu da quase totalidade da sua política orçamental.
Alguma pista?
O argumento é convencional – e depois? É sempre sedutora a fórmula do strong silent type com natureza de escorpião e coragem para accionar a sua veia escorpiónica em benefício do amor redentor. Fez-me lembrar o "Pale Rider" do Clint Eastwood (e aposto que poderia ter feito lembrar uma dúzia de outros filmes). O resto é muito bom: a realização, os actores (Ryan Gosling e Carey Mulligan em diálogos silenciosos, Ron Perlman, Albert Brooks e Christina Hendricks), a fotografia (muito Michael Mann) e a banda sonora. Não é "a" obra-prima que muitos dizem, nem a prima do mestre d'obra que outros criticam: é uma boa malha que merece ser vista no cinema.
As taxas moderadoras na Saúde não servem para financiar o sistema - basta ver o peso que têm no orçamento total - mas para moderar o acesso aos cuidados de saúde. De fora do aumento das taxas - ou melhor, de fora de qualquer taxa moderadora - fica cerca de metade da população portuguesa, entre doentes crónicos e pessoas com rendimentos muito baixos. A cobrança das taxas às pessoas que a devem pagar é baixa, em alguns casos abaixo dos 50%, ou porque o hospital/centro de saúde não cobra ou porque as pessoas já sabem que se não pagarem não há stress.
No início não percebia porque razão se elege este tema como bandeira de combate político. Na Saúde há problemas com impacto muito maior para as pessoas, potencialmente agravados pela austeridade que se avizinha: as restrições ao acesso a certos tratamentos e meios de diagnóstico, as restrições à entrada de medicamentos inovadores, a fuga de médicos para o privado, etc. etc. Mas depois entendi: esses são temas muito complexos e uma taxa é apenas dinheirinho a sair do bolso do doente, uma coisa do tipo SCUT nos hospitais e centros de saúde. A crítica às taxas moderadoras é um slogan fácil de vender nos media e que substitui o trabalho que dá olhar para o mais importante.
"Se quer que lhe diga que tem razão, eu digo-lhe que tem razão, mas não posso abrir uma exceção para si”, ouvi, no fim da discussão. O cliente (eu) tinha razão, mas era indiferente.
Começo pelo início: comprei bilhete para o Vodafone Mexefest (não era para mim, facto que devia ser irrelevante mas, como se verá, não era). Na sexta-feira, dia 2, fui trocá-lo por uma pulseira no Cinema São Jorge, condição para se entrar nos espetáculos. Não era assim tão simples: a promotora do festival — Música no Coração (MNC) —, insistia em pôr-me a coisa no pulso, e que já não a poderia tirar. Expliquei que não seria eu a usar a pulseira, que estava a levantá-la para outra pessoa.
Eles: “A pulseira tem de ser levantada pelo próprio, somos nós a colocá-la.” Eu: “Ninguém me informou disso quando comprei o bilhete.” Eles: “Está escrito aqui: ‘Troca obrigatória por pulseira no São Jorge’.” Eu: “É isso que estou a tentar fazer, mas não me estão a deixar...”
Seguiu-se uma discussão absurda com uma, duas, três pessoas da MNC. Eu insistia que não me podiam impor condições que não estavam explícitas. Eles respondiam-me que “toda a gente sabe que é assim”. Simpáticos, propuseram-me que vendesse o bilhete, não faltaria quem o comprasse. Por fim, deram-me razão, mas para nada: para a MNC, ser leal com o cliente seria “abrir uma exceção”.
Percebi, no dia seguinte, que a pulseira era, de facto, a marca dos privilegiados: o seu portador tinha o direito de ficar ao frio, à porta do Tivoli, durante o concerto de James Blake. Centenas, numa fila que chegava ao fim do quarteirão, nunca entraram no principal espetáculo do Vodafone Mexefest. Não cabiam na sala, apesar de terem chegado com antecedência de sobra. O disclaimer (“acesso limitado à lotação”) não mudava o essencial: para centenas de pessoas, Blake não passou de um engodo.
Eu, escaldado com a batota da véspera, esperei para ver o que diriam as reportagens sobre a multidão que não viu nem ouviu o cabeça de cartaz. Mas nenhum dos ‘especialistas’ se impressionou com esse pormenor. Tudo isto é triste, tudo isto é música no coração...
Texto publicado hoje no suplemento Atual do Expresso
As afirmações do velho Sócrates são chocantes por virem do velho Sócrates - o Sócrates que imaginamos confortável no seu remanso parisiense, a beber copos de sancerre no Marais e a discutir "a Europa" com os novos amigos, Le Monde debaixo do braço, enquanto o país que ele deixou na falência é tranquilamente triturado. Paris é uma festa.
Mas o velho Sócrates não disse nada de mais. É verdade que a dívida do Estado "não se paga" - pelo menos no sentido habitual do termo. Genericamente, o Estado vai rolando a dívida, pedindo novos empréstimos para amortizar os antigos e pagando de caminho os juros. A dívida vai sendo paga, mas nunca desaparece - ela rola. Se uma pessoa rolar dívida é mau sinal: está, provavelmente, a caminho de uma espiral de crédito e das mãos dos agiotas. As empresas já podem rolar mais facilmente. E o Estado pode fazê-lo ainda mais facilmente porque... é o Estado que, em teoria, não tem um horizonte de vida finito. (Esta é, aliás, uma das razões por que nem sempre a comparação entre as contas do Estado e as contas de uma dona de casa é honesta.) Claro que o rolanço de dívida não deve ser um regabofe: o Estado precisa de controlar as contas públicas de uma forma coerente com o nível de crescimento económico, para manter a montanha de dívida dentro de limites (60% do PIB, diz a "Europa) e domar os juros. (A crise do euro está a matar este mecanismo e a tornar insustentavelmente caro o rolar da dívida).
Sócrates não disse, por isso, nada de mais. O problema é ter sido ele a dizê-lo: o velho Sócrates, o mestre do rolanço de dívida (sobretudo fora do Estado, nas empresas públicas e PPP, onde aprofundou tradições herdadas do passado), o homem para quem esteve sempre tudo bem até que não esteve. Parece que foi aplaudido no final da palestra. Paris é mesmo uma festa.
Este não aprende. Nem tem vergonha.
Continua a ser o mesmo pantomineiro dos últimos anos, que só fala de facilidades e dá sempre os sinais errados ao País. Continua alegre e lampeiro, com uma mão cheia de défice e outra cheia de dívida.
Coerência ninguém lhe nega.
Mas ainda não percebeu que é por estas e por outras que estamos como estamos?
Será inimputável?
PS: Sei de alguém que assinará por baixo as cândidas reflexões do "engenheiro" Sócrates sobre a dívida: Alberto João Jardim. Conforme escrevi aqui, já há mais de um ano, Sócrates e Jardim parecem gémeos separados à nascença.
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