Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

Da falta de leitura

"O velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito, dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, pois fique sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas."

         

Valter Hugo Mãe, "O filho de mil homens"

 

     

 Libreria Acqua Alta, Venezia 

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publicado por Ana Catarina Santos às 03:11
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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Imitar a arte ou plastificar a vida

 

À conta dos Oscars, cumpri mais uma vez o ritual de uma noite pouco dormida. Apesar da coisa este ano ser particularmente pouco entusiasmante.

Estava a olhar para o desfile de nomeados e de premiados e a pensar que bem basta à arte ser reduzida, muitas vezes, à condição de imitação da vida - o que pode nem ter nada de mal se o fizer com competência e tiver alguma coisa a dizer. Infelizmente, entre os candidatos com mais nomeações para os Oscars deste ano, "venceu" O Artista, que nem se deu ao trabalho de ser uma imitação da vida - bastou-lhe ser uma imitação da arte de outros.

Scorsese, o outro mais nomeado, embora fazendo melhor figura, perdeu-se na tentação de plastificar a vida - aqueles lugares, aquelas personagens, aquela luz, gritam artificialismo técnico em cada fotograma, e não há alma que sobreviva a tanto chroma key e a tanto retoque de computador.

Entre o exercício de estilo bacoco de um e o exercício do estado da arte barroco de outro, não há espaço para gente verdadeira dentro destes filmes. Ainda não vi o War Horse, mas suspeito que o cavalo do Spielberg tenha mais espessura dramática do que os bonecos animados do Scorsese e do francês com nome esquisito.

Neste quase deserto, sobra uma obra-prima - Uma Separação, melhor filme estrangeiro - e o talento do lote de premiados nas categorias de interpretação (tirando a caricatura do Sr. Dujardin).

As composições de Meryl Streep, Octavia Spencer e Christopher Plummer são aulas de representação, desempenhos enormes que insuflaram humanidade e alma a filmes que, só por isso, escaparam à mediania.

publicado por Filipe Santos Costa às 11:44
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Never forget

Uma biografia fora de série, sobre uma vida absolutamente extraordinária.
O debate promete. É amanhã, dia 28, às 18h30, na FNAC do Chiado. A não perder
 
 

publicado por Filipe Santos Costa às 11:38
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

The Year of Living Dangerously

publicado por Bruno Faria Lopes às 18:50
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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Os islandeses não acham que vivem na terra do sonho

Onde ir em Fevereiro de 2012? À Islândia, terra de sagas, de óptimo peixe, de boa música electrónica e do mito do “país que mandou a banca bugiar e não optou pela austeridade cega”. Uns dias na Islândia oferecem uma vantagem quando está em causa falar sobre o pequeno país nórdico: a de falar com os islandeses. Chegou a ser divertido ver a cara das pessoas – ministro, jornalista, empresário ou o “cidadão comum” – quando perguntei o que achavam do facto de a Islândia ser um símbolo de esperança para muita gente. “Não é o país em que vivemos”, responderam-me todos – da esquerda à direita – sem excepção.

 

A Islândia não é o país que mostrou por heroísmo do cidadão o dedo do meio aos banqueiros e aos credores. A escolha de não pagar não foi uma escolha – foi fruto da circunstância de o sistema bancário ter inchado até ser dez vezes maior que a economia do país. Os bancos eram demasiado grandes para salvar. “Foi um argumento de força maior”, disseram-me no Ministério da Segurança Social. A esta evidência somou- -se outra circunstância: a Islândia podia deixar cair os bancos porque o impacto no sistema global era muito pequeno. Ainda assim uma nota: o país absorveu cerca de 20% do PIB em custos directos da crise bancária, o segundo maior valor a seguir ao da Irlanda.

 

E os referendos? É verdade que em dois referendos o povo islandês recusou as propostas do governo de pagar pelo menos o fundo de garantia de depósitos a ingleses e holandeses (mais juros). Mas é também verdade que essa decisão de pouco serviu. A Islândia já começou a pagar os 3,8 mil milhões de euros aos governos da Holanda e do Reino Unido, liquidando activos do Landsbanki. E se o tribunal da EFTA condenar os islandeses – por terem discriminado entre depositantes domésticos e estrangeiros – o país arrisca-se a ver os governos britânico e holandês pedirem juros nos tribunais islandeses (taxas judiciais que começam em 10%, explicou-me um professor da Universidade da Islândia). A jogada do referendo foi gira, mas o preço final pode ser maior.

 

O mito continua. O colunista Daniel Oliveira, por exemplo, afirma que o governo não decidiu cortes salariais e que a inevitável desvalorização da moeda “foi resultado da coragem dos islandeses”. Os islandeses com quem falei (e qualquer economista) acham que a desvalorização foi o preço alto a pagar pelo esvaziamento da maior bolha bancária de sempre. O controlo de capitais surgiu não por tenacidade local, mas porque o FMI percebeu que sem isso a moeda poderia pulverizar-se.

 

A desvalorização da coroa – prato clássico do receituário do FMI – tem a vantagem de permitir uma recuperação mais rápida. Mas o preço a pagar é sempre alto – não há saídas indolores de crises de dívida, nem na Islândia do sonho. A subida da inflação resultou numa perda média do poder de compra de 20%. A isto soma-se o maior drama, esquecido em Portugal: 80% das famílias com créditos à habitação (que são dois terços do total das famílias) têm o empréstimo indexado à inflação. Uma arquitecta explicou-me as contas: um empréstimo inicial de 18 milhões de coroas saltou para cerca de 28 milhões, comendo todo o capital de entrada. A prestação mensal da casa cresceu 40%. A hostilidade ao poder político e o sentido de injustiça perante os perdões de dívida concedidos às famílias que mais arriscaram (com empréstimos em moeda estrangeira) são feridas abertas na sociedade islandesa.

 

No final, é verdade que o desemprego é de 7% (mas oscilava entre 1% e 2% – o grau de subida não foi assim tão diferente do nosso) e que quem anda na rua em Reiquiavique não vê pobreza. A Islândia parece bem para um país que perdeu o sistema bancário de um dia para o outro? Sim. Mas isso deve-se a ter moeda própria e ao ponto de partida: uma população menor que a do distrito de Viseu (318 mil pessoas) e um Estado social forte, numa sociedade mais igualitária e que paga 1500 euros em média a um trabalhador pouco qualificado. Não sou só eu quem o diz. É o insuspeito ministro da Segurança Social, o homem que decidiu expandir a rede social para os mais frágeis – mas cortando, na mesma, mais de 5% nos gastos sociais e uns impressionantes 17% na saúde entre 2008 e 2012 (com contributo do governo anterior). Nada mau, para terra de sonho.

 

Opinião publicada no i

publicado por Bruno Faria Lopes às 17:18
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Um óptimo resumo da situação

"It’s not too hard to see what Europe as a whole should be doing: less demands for austerity, much more general reflation [...] It’s much harder, however, to say what the leaders of such peripheral economies should do. Unilateral default won’t solve the competitiveness problem, and at least for now would actually worsen the fiscal squeeze, since they’re all still running primary deficits. (That may change in a year or so). Euro exit would allow a quick devaluation, solving the competitiveness problem — but it would be hugely disruptive and would generate vast ill-will, so it’s hard to see any government taking that step until there really are no alternatives (which may soon be true for Greece, but not the others). So there’s a kind of trap. If you imagine yourself as the Prime Minister of such a country, what can you do? For the most part, I’m afraid, you plead with the troika to make the austerity demands less severe, you do what you can to accelerate improving competitiveness (which isn’t much), and you wait for things either to get gradually better via “internal devaluation” or to get worse and provide the economic and political environment in which euro exit becomes a real possibility."

 

Paul Krugman, roubado aqui.

publicado por Bruno Faria Lopes às 02:07
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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Romeu e Julieta

 
E a música que melhor representa "Poder".
publicado por Bruno Faria Lopes às 15:49
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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

Então parece que em Bruxelas foi assim

"The diplomats said Jan Kees de Jager, the Dutch finance minister, and Wolfgang Schäuble, his German counterpart, sent Greek leaders back to bondholder representatives for further cuts at least four times over the course of nearly 14 hours of negotiations." [aqui]

 

 

publicado por Bruno Faria Lopes às 15:58
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Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

Gouvaia

Palavra do dia: vaia. Ou antes, palavra do dia: Gouvaia.

 

 

publicado por Ana Catarina Santos às 14:10
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Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

Mas porquê tanto empenho em impedir que o PM vá a uma comissão?

O que é estranho na escandalosa decisão de Assunção Esteves, alegremente ratiticada pela maioria PSD-CDS, de bloquear o requerimento potestativo do PCP para ouvir Passos Coelho na 1ª Comissão, não é o grau de prostituição moral a que chegou uma maioria parlamentar amestrada e anestesiada.

Nem é, tão pouco, que uma presidente da Assembleia da República tenha feito a triste figura que fez (que a Ana Catarina aqui tão bem analisa), com os risíveis argumentos que inventou, quando - pelo menos por respeito pelo cargo e pela instituição - devia manter mínimos de decência intelectual.

Mas enfim... não há almoços grátis e a conta pode chegar a qualquer momento.

 

O que é verdadeiramente estranho nesta decisão é que ela tenha sido necessária.

Por muitos defeitos que tenha Pedro Passos Coelho (e abstenho-me de ir por aí, pois ainda a procissão vai no adro), foi capaz de descrispar o relacionamento do chefe do Governo com o Parlamento. Nas idas quinzenais à AR, mostra-se sempre cordato com os deputados de todas as bancadas e tem resistido à tentação de fazer do Plenário uma arena para shows histriónicos, no que parecia uma atitude de respeito pela instituição.

Por outro lado, não sendo um às da retórica nem um artista do debate, o seu desempenho parlamentar tem dado para o gasto, nunca tendo passado, que me lembre, por qualquer momento de particular aflição no hemiciclo.

 

Surpreende, por isso, que a maioria - nas pessoas de Miguel Relvas, Assunção Esteves e de 132 deputados, que aprovaram um entorse ao Regimento da AR sem um suspiro - se tenham dado a tantos esforços para garantir que o primeiro-ministro não teria de ir a uma comissão parlamentar. À porta fechada, note-se. Para falar de assuntos de que só ele é responsável politicamente, insista-se.

 

A não ser que...

... o assunto que levou o PCP a convocar Passos Coelho seja ainda mais cabeludo do que aquilo que podemos imaginar.

Que tantos tenham feito figuras tão tristes e aberto um precendente tão grave em matéria de funcionamento da AR dá que pensar. Dá que pensar, sobretudo, no que Passos Coelho sabe sobre o que se passou nas secretas e no que não sabe sobre o que fazer com elas.

publicado por Filipe Santos Costa às 15:58
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