Hoje, no debate quinzenal com o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho começou a sua intervenção perante uma sala semi deserta. Eram 10 da manhã, hora regimental para o início dos trabalhos parlamentares.
Dois terços dos deputados não estavam ainda no Plenário. Do meu lugar na bancada de imprensa contei, no momento em que Passos dava início ao debate, 81 presenças. Ou seja, 149 cadeiras vazias.
A contabilidade por bancada está aqui.
De uma instituição onde se fala tanto de produtividade, espera-se mais. De uma instituição onde se fala tanto da imagem do país, também.
Já não acompanhava um Congresso presencialmente há algum tempo, estava com uma enorme expectativa. Não que um partido que esteja no poder seja particularmente inovador em termos ideológicos ou de discurso. Mas espera-se que seja criativo, tendo em conta a posição dominante que ocupa, que tenha a capacidade de trazer algo diferente e contrariar os que alimentam a tese de que os Congressos consensuais, de liderança incontestada, são inúteis.
O Congresso do PSD foi um Congresso do passado. As mesmas fórmulas, os mesmos discursos, os mesmos rituais, as mesmas invocações saudosistas de Sá Carneiro. Centenas de militantes inscritos para falarem três minutos, palavras que ninguém ouve. Militantes que viajam de todo o país até Lisboa, para regressarem a casa, às suas concelhias, e dizerem que falaram no Congresso e que apertaram a mão ao líder.
Um Congresso com as mesmas mensagens de sempre. O PSD de Sá Carneiro, o idoso PPD, a social democracia de há quase 40 anos que não – de todo – a da moderna social democracia. Como entender que não houve nenhuma mensagem - nenhuma – virada para os jovens qualificados? Os que saíram do país ou se preparam para sair?
Houve brindes oferecidos aos congressistas e participantes, como nas campanhas eleitorais antes da crise. Mas alguém ainda oferece brindes? E não será ofensivo, em tempos de crise o PSD oferecer brindes? Então, o que temos? Uma pasta cinzenta e laranja do PSD, uma esferográfica cinzenta e preta do PSD, um marcador de livros do PSD, três pin’s do PSD, um crachá do PSD, um bloco de notas do PSD (de capa dura), um livrinho com a proposta de alteração ao programa do PSD, um livro encadernado com o regulamento, as moções e os nomes de todos os delegados e participantes. Tudo nessa dita pastinha que era entregue com a acreditação.
Estamos na era das tecnologias, da inovação, das redes sociais, da força viral da internet. Como querem os partidos chegar aos eleitores com este episódio repetido? Como querem os partidos políticos aproximar-se da geração 2.0 oferecendo-lhes um ZX Spectrum?
"O ministro da Administração Interna Miguel Macedo disse à SÁBADO que vai apresentar um conjunto de propostas ao Sindicato dos Jornalistas e à direcção nacional da PSP para não se repetirem casos de agressões da polícia de intervenção a repórteres em trabalho.
A ideia de Macedo é haver coletes com indentificação de "press" à disposição dos jornalistas juntos dos dispositivos da PSP antes de manifestações que podem comportar algum risco. Os jornalistas que quiserem podem requisitá-los.
"Isto tem de ser na lógica da auto-regulação", disse o ministro à SÁBADO durante o congresso do PSD. "Se não fizermos nada isto pode acontecer mais vezes". Macedo também quer propor regras de posicionamento dos jornalistas nas manifestações de forma a não estarem entre a polícia e os manifestantes."
Nem sei o que dizer desta peça do nosso ascensorista Vítor Matos. Pensamentos avulsos:
1. O essencial do problema na quinta-feira não esteve no facto de ter havido agressões a jornalistas - esteve, sim, na desproporção por demais evidente da carga policial. Não critico a necessidade de uma resposta das autoridades - critico o excesso na resposta.
2. A reacção excessiva e descabida acabou também por cair sobre dois repórteres de imagem. É certo que os jornalistas estão ali a trabalhar e que devem saber que na profissão estão sujeitos a riscos. (Embora neste caso, pelo que vi e ouvi, me tenha parecido apenas selvajaria escusada e não um inevitável osso do ofício). Mas agressões sobre jornalistas têm um significado de intimidação dos media que não é de descurar - além de que levam ao ponto 3.
3. "Regras de posicionamento nas manifestações"? Distribuir coletezinhos na pacatez relativa cá do burgo já é suficientemente ridículo - mas "propor regras de posicionamento" cheira a manipulação óbvia dos jornalistas. Na cabeça do ministro Miguel Macedo o problema não é um repórter com uma máquina fotográfica ser agredido com violência pela polícia quando está no chão - o problema é que não tinha coletezinho e está onde não devia. Preocupante.

No mesmo dia em que a polícia decidiu agredir jornalistas que acompanhavam uma manifestação, o primeiro-ministro decidiu fugir a um grupo de manifestantes e sair pela porta dos fundos.
O Governo conhece bem a máxima de que uma imagem vale por mil palavras. Deve ser por isso que anda, desde o início, tão preocupado com a nossa imagem "lá fora". Se uma imagem vale mesmo mil palavras, bem nos podiam ter poupado ao palavreado destes meses sobre Portugal não ser a Grécia.
Hoje, vai-se às edições online de vários jornais internacionais (de onde retirei estas fotos) e é esta - literalmente - a nossa imagem "lá fora". Por junto, é bastante parecida com a da Grécia.
PS: vale a pena ver esta fotogaleria no Guardian, sobre "um dia na vida de uma fotojornalista em Lisboa". A fotógrafa em causa chama-se Patrícia de Melo Moreira, saiu de casa para fotografar a greve geral para a AFP e acabou a ser notícia, por ter sido – tal como outro fotógrafo, da Lusa - agredida por um polícia.
Em dia de greve geral deixo aqui algumas passagens elucidativas da entrevista de Arménio Carlos ao Jornal de Negócios de hoje. Para perceber porque razão a CGTP continuará a perder influência e associados – algo perigoso para o formato da contestação social em Portugal – aconselho a leitura integral da entrevista (muito bem conduzida pela jornalista Catarina Almeida Pereira).
"Mas os trabalhadores estão a aceitar quase passivamente as reduções salariais. Isso significa que não lhe dão razão.
Não acredito que um trabalhador aceite passivamente a redução do salário. E também não conheço assim tantos casos: uma dezena, duas dezenas, num conjunto de 300 mil empresas.
(…)
Considera que alguém que queria chegar ao trabalho e não conseguiu está em greve?
Não trabalhou… é greve.
Não é uma greve consciente.
Nalguns casos, porque há falta de liberdade no local de trabalho, o facto de não haver transportes é o motivo invocado pelos trabalhadores, e bem, para dizerem que não podem ir trabalhar. As coisas não são tão lineares como parece. (…)
(…)
Mas imagine uma pessoa que ganha o salário mínimo, vive na periferia…
Diga-me uma coisa: alguém que faça questão de vir trabalhar não vem? Vem. Se querem vir trabalhar e sentem que não têm condições para vir trabalhar então têm que se organizar. Somos muito criativos. As pessoas encontrarão soluções.
De táxi?
Pode ter a certeza que não vai ter encargos por causa disso.
(...)
Houve um programa de rescisões amigáveis na CGTP. Confirma?
Não posso precisar agora, mas se houve foram poucas, duas, três, quatro, cinco ou seis."
Pouco passava das 9H da manhã, vivia-se o habitual lufa-lufa do trânsito lisboeta entre o Terreiro do Paço e o Cais do Sodré. E eis senão quando no pára-arranca, se ouviu um "Paaah"! Podia ser um pequeno toque normal, se ao volante não estivesse o mais bem pago chairman da história da EDP. Eduardo Catroga conduzia o seu Mercedes Benz azul marinho quando bateu por trás noutro carro.
Ora, diz o Código da Estrada que quem bate por trás, normalmente não tem razão. Mas Catroga não terá ficado convencido e a Polícia apareceu para resolver o problema.
Primeira infracção: bater por trás. Segunda infracção: não havia triângulo na estrada. Terceira infracção: não vestiu o colete reflector. Infracções registadas pelo Repórter do Elevador.
Se foi autuado pelo Agente de Autoridade, isso é outra história. Mas também... Mais multazinha, menos multazinha num salário de 45 mil euros...
Como vê, Dr. Catroga, também temos um telemovelzinho que tira fotografias, ao jeito PEC 4.
E o Elevador da Bica também tem exclusivos.
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