Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

25 de abril de 2012: o dia em que Cavaco reabilitou Sócrates

Passado mais de um ano sobre o processo que levou à demissão do Governo de José Sócrates, Cavaco Silva não repetiu no discurso de hoje que "há limites para os sacrifícios", como lembrou, oportuno, o líder do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã.

 

O que Cavaco repetiu foi boa parte dos argumentos que, ao longo de várias sessões legislativas, José Sócrates elencou em inúmeras intervenções, dentro e fora da Assembleia da República. Porque as razões do orgulho português, tal como o PR as apresentou hoje, 25 de abril de 2012, são em grande medida as bandeiras do Governo anterior: o salto que o país deu na ciência, na investigação e desenvolvimento, na cultura, nas artes plásticas, nas indústrias criativas, na inovação em setores tradicionais, no investimento em infraestruturas e em energias alternativas. Até no plano político-diplomático Cavaco se recorreu da herança dos governos socialistas, ao louvar o Tratado de Lisboa e a eleição de Portugal para o Conselho de Segurança da ONU."

 

"Foram inúmeras as vezes que Sócrates, nos debates quinzenais (para nos ficarmos apenas pelo palco parlamentar) invocou estas bandeiras e citou dados como aqueles que Cavaco diz serem hoje razões de sobra para a melhoria da imagem de Portugal no estrangeiro: quadriplicou o número de diplomados, tivemos "um dos maiores crescimentos da Europa" em novos doutorados e a "segunda maior taxa de crescimento da produção científica de todos os países da UE", temos "centros científicos e tecnológicos de nível internacional", duplicámos o investimento em investigação e desenvolvimento, somamos triunfos na cultura - artes plásticas, moda, cinema, arquitetura...

 

"Tudo referindo-se ao horizonte temporal da última década - a mesma a que se convencionou chamar a "década perdida". Tudo setores de que Sócrates fez bandeira. Tudo áreas que os Governos de Cavaco são acusados de terem desprezado.

 

"Com o seu discurso, Cavaco reabilitou uma parte da herança de José Sócrates. Nem de propósito, enquanto o PR falava, um deputado socialista comentava para o colega do lado: "No fim disto, ele dá uma medalha ao Sócrates".

publicado por Filipe Santos Costa às 15:45
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A primeira boa notícia do 25 de Abril de 2012

A primeira boa notícia do 25 de Abril de 2012 é o regresso dos Abrantes à vida. Quase dez dias de silêncio que transformaram a blogosfera em cem anos de solidão. Gosto disto (do regresso, entenda-se). 

Os Abrantes voltaram na noite de 24 para 25 de Abril de 2012, pela calada. Trouxeram as chaimites? Espero que tirem o papel do parquímetro, que os gajos da Emel não curtem muito o 25 de Abril.

Vivam os Abrantes, que a malta já estava a desconfiar que este desaparecimento era mais uma acção da força negra do 31 da Armada. Bom... Ou que o Otelo se tinha passado. Mas isso já não seria notícia. 

 

 

 

publicado por Ana Catarina Santos às 01:30
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Terça-feira, 24 de Abril de 2012

My Carnation Revolution at 39

O texto vai em inglês, porque foi escrito para ser lido por estrangeiros no blogue The Political View que mantenho no Portugal Daily View. É um 25 de Abril em perspectiva. 

 

 

 

The country that awoke with the military coup that established democracy on the 25th April 1974 was very different. Portugal is one of the countries in Europe that made the greatest leap in development in the last 38 years, and that is also one of the reasons for its current problems. On the 25th April 1974, I was 11 months-old, after having been born at the house of a midwife and not in a hospital. My father had returned from the colonial war two years before. My mother taught French and during the fascist dictatorship there was no such thing as maternity leave. Therefore, as she had no one to leave me with, she took me to school in a baby carrier when I was only 15 days-old. The auxiliary staff took care of me, and my mother saw me during the breaks. My paternal grandparents’ home, in the country, had neither running water nor electricity. My maternal grandmother didn’t know how to read or write. My paternal grandfather had been arrested by the PIDE, the political police.

 

Today, my sons play with iPads and iPods, they learn English at age of five, and the social protection we are losing with the troika’s adjustment programme is, still, far superior to that which our parents had back then.

 

The infant mortality rate in 1974 stood at 37.9%. Today it is 2.5%. This indicator is, perhaps, the most relevant of all to show how far Portugal has come since then.

 

In order to understand Portugal today it is necessary to understand that this small country is the European state that underwent more continuous years of war in the 20th century (13 consecutive years in three African countries). In 1975, after the revolution, it received and integrated peacefully 1.5 million Portuguese who had lived in Africa, more than 10% of its population.

 

In 1985, with only a decade of democracy, Portugal entered the EEC and had to adapt to the new rules. It lost industries, its fishing fleet, farmers, but it managed to grow 7% a year. It was an Iberian tiger. In 1999, it joined the euro, perhaps too soon, and then the Portuguese started thinking they were rich. Now we are told we are poor.

 

My parents’ generation feels we are going back to the old days. My generation, which grew up with some abundance and ease, has never experienced such hardships: there is no war, but neither are there any jobs or opportunities. Unemployment, which stands at 14%, is a social affliction which has been unknown in Portugal.

 

Many people with university degrees are opting to emigrate, just like the poor did during the dictatorship. Perhaps things may be better when my eldest son goes to university. I will be 51 years-old. Then, the 25th April will have been 50 years ago. It’s impossible to anticipate what country this might be in 2024.

publicado por Vítor Matos às 16:45
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A ler, a ler

 

Que caraterísticas fazem um líder em tempos de crise? Nassir Ghaemi, psiquiatra norte-americano (também licenciado em História e Filosofia), olhou para a História e criou uma tese: em altura de crise o melhor líder é alguém capaz de pensar fora da caixa. E é bem possível que esse alguém tenha um parafuso a menos (ele não diz assim, mas o cientista é ele, não sou eu).

 

«A maioria de nós assume, de forma simples e razoável, que a sanidade produz bons resultados e que a insanidade é um problema. Este livro defende que, pelo menos numa circunstância de importância vital, a insanidade produz bons resultados e que a sanidade é um problema. Em alturas de crise, é melhor sermos dirigidos por líderes mentalmente doentes do que por líderes mentalmente normais. (...)

 

Em situações de crise há quatro caraterísticas fundamentais que promovem a capacidade de liderança: o realismo, a resiliência, a empatia e a criatividade. Não são traços de personalidade de definição vaga; possuem significados psiquiátricos específicos que têm sido objecto de pesquisa científica. De todas, as qualidades mais estudadas pelos psicólogos são a ciratividade e a empatia, mas para a capacidade de liderança a resiliência e o realismo afiguram-se igualmente importantes, e investigações mais recentes dedicam-lhes alguma atenção. Todos os elementos acompanham a depressão e dois (a criatividade e a resiliência) estão presentes na doença maníaca. (...) A depressão torna os dirigentes mais realistas e empáticos; a mania fá-los mais criativos e resilientes.»

 

Ghaemi analisa os casos de líderes políticos, militares e empresariais com conhecidos disturbios mentais (de Lincoln a Churchill, de Gandhi a Luther King, de Ted Turner a Kennedy) e faz a contra-análise com líderes "normais" (entre eles, Bush e Blair) para sustentar a sua tese: «Quando os tempos são bons e reina a paz, e o navio do Estado precisa apenas de navegar em frente, as pessoas mentalmente saudáveis funcionam bem como dirigentes. Quando o mundo está um tumulto, os dirigentes mentalmente doentes funcionam melhor.»

 

A leitura, garanto-vos, é fascinante. Ainda mais nos dias que correm - em que o mundo, como escreve o autor, «está um tumulto».

publicado por Filipe Santos Costa às 12:58
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Antes é que era, pá

"A inscrição "Paços Coelho" na entrevista do primeiro-ministro na TVI não foi uma simples gralha. Assinalou uma total ignorância sobre a vida nacional. Este terá sido o erro gramatical mais gritante da última década, mas acontece tantas vezes em todos os canais que se trata já de uma característica estrutural da informação na TV portuguesa. Quando falo com jornalistas jovens, verifico que, faltando-lhes cultura geral, vêem-se à nora para escrever sobre matérias de que nada sabem — e não podem informar-se devidamente porque não lhes dão tempo para escrever. A proletarização dos jornalistas é responsável pela decadência, nos velhos e nos novos media, da prática jornalística, que de indústria cultural vai passando a indústria "desculturalizada". Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã, citado no blogue Portugal dos Pequeninos (passagens a negrito escolhidas por mim). 

 

Sim, claro, os jornalistas mais novos e tal, a "falta de cultura geral", a proletarização dos jornalistas e por aí adiante - sempre os mesmos argumentos gastos e preguiçosos para justificar a fantasia de que antes é que era, antes é que os jornalistas eram escritores, antes é que eram gente com "cultura geral", gente que aproveitava o luxo do tempo para "investigar" e confrontar "o poder". Pena é que os jornais hoje - mesmo com todos os problemas graves de que padecem - sejam em média muito melhores do que aqueles feitos nesse passado mítico do jornalismo português. É só ir à hemeroteca e vasculhar nos arquivos. O resto é bla bla bla bla bla e muita snobeira geracional de quem, curiosamente, poderia beneficiar da vantagem de ter memória.     

publicado por Bruno Faria Lopes às 10:37
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Sexta-feira, 20 de Abril de 2012

Razões válidas ou inválidas, mas razões

Nuno Teles (NT) critica no Ladrões de Bicicletas uma série de pontos que referi numa coluna de opinião há uma semana a propósito do aperto no crédito bancário. Tentarei responder. 

 

Nuno Teles: "Primeira razão: as empresas estão muito endividadas e os bancos não querem emprestar mais. É bem verdade. Mas como bem aponta BFL, foram os bancos que andaram a alimentar este endividamento. Diz o jornalista que o fizeram porque tiveram incentivos, como se isso os desculpasse de alguma coisa por oposição às empresas. E estas? Não tiveram incentivos? E já agora, já viu a evolução do endividamento do sector financeiro nos últimos dez anos? Pois."
 

Não argumento que os incentivos que os bancos tiveram serve de desculpa para qualquer coisa (antes pelo contrário) – essa é uma interpretação feita por NT. E sim, já vi a evolução do endividamento no sector financeiro. Parece que a troika também viu, o que terá levado a incluir no programa de ajustamento metas (perigosamente irrealistas) de desalavancagem. Discordo da velocidade imposta ao ritmo de desalavancagem, mas reconheço que seria sempre preciso desalavancar. Pergunto a NT como é possível propôr uma desalavancagem ambiciosa do sector financeiro – mesmo que diluída no tempo – sem desalavancar, por sua vez, famílias e empresas. Pois. 

 

Nuno Teles: "Segunda razão: A troika quer esmagar o mercado interno para promover o sector exportador. Aqui convinha explicar como o primeiro promove o segundo. Eu só me lembro de um mecanismo: a desvalorização salarial. É que se olharmos do ponto de vista do investimento e do crédito, não faz lá muito sentido. Então, provocamos uma redução da procura interna, que reduz rendimentos às empresas, tornando-as mais pobres, com um endividamento mais pesado em relação à sua capacidade produtiva, para que elas passem a investir nas exportações? É isso? O crédito é reduzido a toda a economia (sim, toda, mesmo ao sector exportador, como o jornalista mais à frente reconhece) e isso vai tornar o investimento no sector exportador mais apetitoso? Não percebo. De qualquer forma, diz BFL que o crédito ao sector exportador é pequeno e portanto negligenciável. Eu não sou jornalista, mas basta falar com algumas PME exportadoras para saber o que tem acontecido aos seus "spreads" bancários."

 

Uma vez mais, eu não estou a defender a solução de esmagamento interno – estou a referir-me à realidade imposta pela troika. Como escrevi acima, discordo da velocidade definida para o ajustamento (ainda por cima em paralelo com austeridade orçamental). Contudo, penso que a necessidade de transferir recursos entre sectores não transaccionáveis/transaccionáveis é indiscutível. Basta olhar para a montanha de crédito empresarial no país (a maior do euro) e para a deprimente linha em queda a pique da produtividade do capital em Portugal nos últimos 10 anos (a "culpa" está longe de ser apenas da produtividade do trabalho, como frequentemente se aponta). Como o crédito está muito concentrado em imobiliário, construção, restauração e afins, a "transferência de recursos" significará, só por si, uma quebra no crédito concedido (a destruição é mais rápida do que a criação). É socialmente duro? Sim, é – há milhares de pessoas empregadas em construção, em restaurantes, em promotoras imobiliárias, etc. etc. Mas não vejo outra saída viável. Por isso, quando saem os números do Banco de Portugal sobre crédito devemos tomá-los com um grão de sal e tentar perceber onde está a cair. Em nenhum lado do texto eu digo que o crédito ao sector exportador é neglicenciável – essa é a interpretação, errada, feita por NT. Como o negócio da minha família é exportador – ligado indirectamente à construção (que como está em quebra tem obrigado a empresa a fazer um enorme esforço para exportar mais: é assim que funciona, NT) – até sei em primeira mão o que tem acontecido aos "spreads", ao aperto de contas caucionadas, às letras e afins. Concordo? Não. Mas a ideia central da crónica não é falar nesse problema.

 

Nuno Teles: Terceira razão "objectiva": o recado "implícito" do endividamento junto do BCE por parte da banca nacional - comprem dívida pública de curto prazo. Os pobres dos bancos vêem-se assim forçados a financiar-se a 1% a três anos e emprestar a 18 meses a 4,5%. Parece que têm de ter "colateral" (não é uma borla, diz o jornalista) - curiosamente os títulos comprados servem de colateral. E o jornalista já foi ver o que tem acontecido aos critérios relativos a estas garantias? Diz que foram, e muito, relaxados. Mas mesmo assim, o argumento "objectivo" não convence muito. Os bancos portugueses foram aqueles que mais recorreram, em termos relativos, ao BCE e, no entanto, Portugal está sob "o resgate" europeu. As necessidades de financiamento públicas são, portanto, bem mais pequenas do que acontece com outros países. Há aqui algo que não bate bem, pois não? E, se, por exemplo, a banca portuguesa andasse a comprar dívida italiana, francesa ou alemã?

 

Uma vez mais: não faço uma defesa da banca, faço uma constatação. O BCE efectivamente empresta com um recado implícito de compra de dívida pública portuguesa, italiana, francesa, espanhola e por aí fora. Gosto desta muleta europeia para a crise? Não, nada. Mas é a realidade que temos, como noticiou esta semana o Jornal de Negócios. Por "razão" não quero dizer "defesa moral para isto acontecer" – quero, apenas, mostrar aos leitores um ângulo novo na questão. (Além de ir para dívida, vai também para compensar a destruição de capital com os juros pagos nos depósitos a prazo). O leitor tirará, espero, as suas conclusões.

 

Nuno Teles: "Enfim, confesso que não percebi muito bem o objectivo do artigo. É defender a banca, argumentando que estão a actuar no seu interesse próprio? Se for, pode fazer exactamente o mesmo para empresas portuguesas. Não percebo a discriminação. O mais grave é que o argumento parece uma qualquer legitimação da redução do crédito à economia, como se fosse uma qualquer terapia regeneradora, com os inevitáveis custos de desemprego, mas consequência inevitável da má gestão (de quem?) dos anos anteriores."  

 

Não é esse o objectivo. O objectivo é, repito, mostrar ao leitor uma imagem mais geral face a que normalmente é transmitida ("os bancos não emprestam coisa alguma porque são vampiros"). A pretensão, admito, é levar as pessoas a pensarem noutros factores. Discordo da violência geral da receita: como já nota o FMI, há problemas no acesso ao crédito por empresas exportadoras; por outro lado, o esmagamento súbito do crédito para negócios focados na economia interna é perigoso e contraproducente. Mas a ideia de redução do crédito à economia parece-me, repito, de uma necessidade indiscutível.  

publicado por Bruno Faria Lopes às 15:44
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Segunda-feira, 16 de Abril de 2012

"E" maiúsculo

Há Elefantes com muito nível. 

Derrubar o Rei Juan Carlos é coisa de um Elefante com "E" grande!

 

 

 

publicado por Ana Catarina Santos às 18:57
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Sábado, 14 de Abril de 2012

Não há torcida como esta

E ontem Paulo Portas foi ao Parlamento falar sobre o Tratado Europeu, para júbilo do grupo parlamentar do CDS-PP. E hoje Paulo Portas regressou ao Parlamento para falar da Guiné Bissau. Eis alguns pormenores da bancada centrista, testemunhados pelos repórteres do Elevador da Bica.

 

 

   

  

Cartaz nas mãos de Nuno Magalhães.

 

 

 

 

 

 

Aspecto geral da bancada do CDS em Plenário durante a intervenção do líder. 

 

 

 

 

 

Cartaz nas mãos de Telmo Correia.

 

 

 

 

 

Aspecto geral da bancada centrista no final da intervenção do líder.

 

 

 

 

 

 

Cartaz nas mãos de João Almeida.

 

 

 

 

 

 

Cartoon sobre o mesmo assunto publicado nos jornais da manhã seguinte.

 

 

 

 

 

 

publicado por Ana Catarina Santos às 00:17
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Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

Um mantra

Repitam comigo: não são necessárias mais medidas de austeridade...

Não são necessárias mais medidas de austeridade...

Não são necessárias mais medidas de austeridade...

Não são necessárias mais medidas de austeridade...

publicado por Filipe Santos Costa às 17:10
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Uma festa

 

Duas ex-ministras de Sócrates voltaram ao Parlamento. Coisa breve, mas esclarecedora.

Ouve-se uma, depois outra, e não ficam dúvidas: o pessoal político de Sócrates ainda não percebeu o buraco em que nos meteu. Ainda acham que foi "uma festa" - só se esquecem de dizer que quem paga a conta e arruma a casa, depois da festa deles, é o país todo.

A alucinação continua e os viuvos de Sócrates suspiram por festas. Tornaram-se uma cruel caricatura de si próprios.

publicado por Filipe Santos Costa às 15:54
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