Diz o Expresso que Miguel Relvas acaba de contratar um novo assessor. Deve ser mais barato do que contratar os Urbanos. É a única explicação.
"A Confederação [da Indústria] de Portugal (CIP) vai hoje propor na Concertação Social a subida em 30% do Imposto sobre o Tabaco. O objetivo é que a receita adicional obtida neste imposto possa acomodar a descida da taxa social única (TSU) para as empresas exportadoras" [aqui]
Um simples telefonema a um fiscalista teria evitado este enorme embaraço à maior confederação empresarial – mas teria, também, eliminado a possibilidade de vermos, ao vivo e a cores, a fraqueza técnica que impera na indústria da concertação.
São todos contra a TSU – ok. Mas... e agora?
Encontrar uma alternativa orçamental à medida da TSU (para fintar o chumbo do Tribunal Constitucional) seria trabalho fácil de contabilista – mais subsídio no privado, menos subsídio e a coisa fica feita (também com queda do consumo e recessão em 2013, mas fica feita).
Mas, com a medida, o governo tentou ir mais longe. Tentou responder, à sua maneira, a uma pergunta crucial: “Como é que a sobreendividada e frágil economia portuguesa pode ser viável no curto e médio prazo sem poder sobre moeda, juros e política alfandegária, numa união monetária dominada por uma potência hiper-competitiva que foge da inflação como o diabo da cruz?”.
Em todos os programas do tipo FMI há uma medida de desvalorização cambial – todos. A intenção da “medida da TSU” não é diferente de uma desvalorização cambial (como fez o FMI em 1983) ou de um alívio dos encargos sociais para as empresas financiado pelo IVA (como queria o FMI em 2011 e não fez porque, fatalmente, Gaspar e Bruxelas não quiseram). Com intensidades diferentes (maior na “medida TSU”), as três propostas significam uma perda forte de rendimento disponível das famílias.
Contudo, do ponto de vista estrito (e perverso?) da viabilidade política, a vantagem das alternativas ao que temos agora é que as pessoas não percebem o que se passa. No caso da arma cambial a inflação é um imposto difícil de perceber. No caso do IVA as pessoas sentem que estão a entregar dinheiro ao Estado. Ficarmos sem rendimento para entregarmos ao Estado – um cheque em branco para pagar serviços públicos e ajudar no défice, com risco de sermos roubados pelo desperdício – é desgastante politicamente, mas é aceitável. Ficarmos sem salário para entregarmos ao nosso empregador – para eventual defesa do posto de trabalho, com risco de sermos roubados pelos accionistas – já é inaceitável. É uma dose de cavalo de liberalismo – que Gaspar tenta traduzir em “social-democracia” com a promessa de mais empregos – que testa os limites de uma sociedade desigual e longe de ser liberal.
Não surpreende por aí além que Vítor Gaspar – um produto das bolhas privilegiadas do Banco de Portugal, do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia – tenha sido surpreendido pela reacção de “luta de classes”, nem que tenha desconsiderado a viabilidade política da medida em benefício da sua alegada eficácia. Mas que o Primeiro-ministro, político profissional que nunca saiu do burgo, não perceba que está a pisar uma linha de alta tensão é prova de desconhecimento sobre o país que governa. Que decida testar a tolerância colectiva do país da forma descuidada que vimos – a caminho de nova vaga austeritária difícil de explicar e já com o governo ferido pela percepção de que hesita perante os “interesses dos grandes” – é incompetência suicida.
O governo até pode ter o melhor corpo técnico do planeta (façamos esse exercício teórico), mas arrisca tornar-se irrelevante se não souber gerir politicamente – perante o país, como perante a troika e a "Europa" – o ajustamento brutal que é imposto pelos credores.
No momento em que escrevo (10h05), há Governo. Está todo à minha frente na Assembleia da República. Num debate quinzenal.
Passos Coelho, recorde-se, nunca levou o Governo todo a um debate quinzenal - o PM entendia que não fazia sentido o Governo ficar parado, durante duas horas, para se mostrar num debate.
De onde se conclui que hoje temos Governo... paralizado, mas Governo.
Assim... como um manequim numa montra.
É uma confissão.
(texto actualizado)
Manuela Ferreira Leite já tinha dado sinais de uma extraordinária perspicácia ao dizer que isto lhe lembrava os tempos da União Soviética. Ontem, assistiu-se ao anúncio solene da formação da CCCP - Conselho de Coordenação da Coligação Portuguesa.
Confirma-se: vivemos em plena Guerra Fria. Entre o PSD e o CDS.
Curioso é que estava preparada uma sala para uma declaração conjunta PSD-CDS no final da reunião dos dois partidos. Aqui está a prova fotográfica, registada pelo Elevador da Bica.
Curioso é que estavam as bandeirinhas hasteadas, de PSD e CDS, uma ao lado da outra por trás dos microfones de pé.
Curioso é que o plano ficaria bem nas televisões.
Curioso é que a reunião terminou pelas 20.45H, ainda a tempo dos telejornais.
Curioso é que chegaram a ser feitos testes de som.
Curioso é que só houve um comunicado escrito.
Curioso é que ninguém falou à saída.
* Fotografia de Ana Catarina Santos
(Sala do Hotel Tivoli, junto à sala onde decorria a reunião que criou o CCC: Conselho Coordenador da Coligação. 20 Setembro 2012)
A expectativa para a primeira sessão plenária no Parlamento depois do Verão era grande, tendo em conta o clima político escaldante que o país atravessa. E eis senão quando, o tema que o CDS escolhe para a primeira declaração política do ano é: as obras na Rotunda do Marquês de Pombal.
Querem ver que o Conselho de Estado desta sexta-feira é, afinal, sobre as alterações à Rotunda do Marquês?
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.