Se Miguel Relvas conseguiu uma licenciatura em apenas um ano, porque é que António José Seguro não há-de conseguir unir o PS em apenas dez dias? Qual é a estranheza? Neste país político tudo é possível.
A miniremodelação deu finalmente à costa e tem como grande novidade o novo secretário de Estado do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes. É do CDS, como era a sua antecessora, Cecília Meireles. É uma das grandes promessas do CDS e uma das maiores apostas de Paulo Portas, como era a sua antecessora.
Mas o ponto interessante é que Mesquita Nunes era, a par de João Almeida, o deputado centrista mais incómodo para o Governo.
Not any more. Sabe muito, o dr. Portas...
Parece que o Governo está desde ontem à tarde em processo de "mini remodelação" - pode parecer um conceito estranho, mas não devemos desvalorizar as pequenas coisas. Parece que, por junto, saem dois, três, quanto muito quatro secretários de Estado. A coisa arrasta-se há bastantes horas e não ata nem desata. Perante esta prova de competência política e capacidade de decisão ainda perguntam porque é que Passos não faz uma remodelação?
Foi algo estranho ouvir ontem o PS a comentar a "mini remodelação" dizendo que o Governo está em "desagregação". Ontem em particular podiam ter carregado um bocadinho menos na hipérbole. Desagregação por desagregação, o PS parece melhor servido.
Há quem veja António Costa como um poço de qualidades políticas. Parece que são bastantes no seu partido (mas não tantos que lhe dêem conforto para o passo decisivo), e constato que são muitos na comunicação social, os que o vêem como o homem capaz de liderar um PS contundente, uma oposição firme e uma alternativa convincente.
Infelizmente o próprio teima em desmenti-los.

Se fosse, era a primeira vez. Ainda está para nascer um homem ou uma mulher. A não ser que já tenha nascido e se chame António José Seguro. Mas os camarados do PS já estão a tratar de pôr a História no seu lugar. O primeiro da linha é sempre para queimar. É da gíria e devia estar nos manuais da malfeitoria política. Nunca desde 1974 um líder partidário dos partidos de poder (PS e PSD) que tenha sucedido ao líder de um ciclo de poder chegou a primeiro-ministro. Nunca. Vale o que vale, mas tem muita força. Isto é muito determinista: Seguro será levado pelos ventos da História?
Considerando que Mário Soares sucedeu a si mesmo até 1985, considerando que no PSD Mota Pinto (foi primeiro-ministro de um governo presidencial quando estava fora do partido) não passou de vice-primeiro-ministro no partido, temos a seguinte cadeia de sucessões:
- Sá Carneiro/Pinto Balsemão - troika/Carlos Mota Pinto - Rui Machete - Cavaco Silva
- Mário Soares - Vítor Constâncio - Jorge Sampaio - António Guterres
- Cavaco Silva - Fernando Nogueira - Marcelo Rebelo de Sousa - Durão Barroso
- António Guterres - Ferro Rodrigues - José Sócrates
- Durão Barroso/ Santana Lopes - Marques Mendes - Luís Filipe Menezes - Manuela Ferreira Leite - Pedro Passo Coelho
- José Sócrates - António José Seguro - ...
De forma intuitiva, os partidos pensam sempre assim, deixam o primeiro a seguir a uma derrota carregar com o ónus do jejum de lugares e da depressão interna da ressaca de poder, a levar pancada de todo o lado, dos adversários por causa da herança governativa, dos camaradas da mesma cor porque um líder sucessor é sempre um desgraçado que ninguém ouve, que ninguém acha que vai lá chegar... tem um destino, está fadado para perder.
Embora o PSD seja um partido mais efeverscente, estamos a ver o filme a repetir-se no PS. Quando cheira a poder começa a caça. Como se sabe que não é preciso muito mais do que fazer de morto sentado na cadeira certa até se chegar à cadeira do poder, estão inauguradas as hostilidades para o assalto ao Largo do Rato, e as probabilidades de a história se repetir ganham muita força. Se António José Seguro conseguir aguentar a ventania será um acidente do destino.
Ouçam, por favor. Vale a pena. Mas ouçam sem pressas. E ouçam cinco vezes. Cinco.
Gosto particularmente desta passagem:
Jornalista - "Pode dar um passo em frente?"
AJ Seguro - "Não, não dou!"
Jornalista - "Pode chegar-se um pouco mais para a sua esquerda?"
AJ Seguro - "Não, não chego!"
E afinal ele confessa-se. E afinal a notícia está logo no primeiro som da peça do Paulo Tavares da TSF.
O mais relevante que Seguro disse não é que "não tem pressa". O mais relevante é que "não dá um passo em frente" e nem se "chega mais para a esquerda". É esse o problema de Seguro. Por isso é que os outros têm pressa.
Não é por acaso que o prof. Marcelo Rebelo de Sousa tem uma paranóia inexplicável com o calendário. O Pedro e o Vítor sabem que quem domina o calendário domina a política e os últimos dias são uma prova de como o controlo do tempo em política exige gelos nos pulsos e nervos de aço.
- Na quinta-feira Marques Mendes diz que Bruxelas poderá dar um sinal de alívio a Portugal no Ecofin do início da semana;
- Na sexta-feira, o Sol diz que o défice é capaz de ficar abaixo dos 5% em 2012;
- Na segunda-feira o Diário Económico diz que Portugal se prepara para rever os termos do plano de resgate e essa informação é confirmada pelo próprio Junker durante o Ecofin;
- Na terça-feira é anunciada a colocação de dívida; Portugal regressa aos mercados:
- António José Seguro dá tiros nos pés a atacar o Governo; o PS aumenta o clima de convulsão interno;
- Na quarta-feira a emissão corre bem e passa de dois para 2,5 mil milhões abaixo dos 5%;
Estas três vertentes - execução orçamental, alargamento dos prazos de pagamento do empréstimo e colocação da dívida - foram cuidadosamente preparadas para serem servidas ao mesmo tempo: entrada, prato e sobremesa. Finalmente parece que o Governo acerta politicamente no meio de todo o desacerto que tem demonstrado.
Gostava de saber como tudo isto foi planeado, gizado e concebido até este desfecho. Manias...
Os economistas costumam dizer que as pessoas tomam decisões racionais. Por alguma razão uma amiga minha, portuguesa, que vive num bairro elegante em Londres, preferiu em 2012 ter um filho em Portugal e não em Inglaterra. Em 2011, a taxa de mortalidade infantil em Inglaterra e Gales bateu o recorde mais baixo de sempre: 4,1 por mil nascimentos; em Portugal foi ainda mais baixo: 3,1 por cada mil bebés nascidos. Em 1970, a taxa de mortalidade infantil em Portugal era de 55,5 por mil. O País desenvolveu-se e estamos à frente do inspirador mundo anglo-saxónico liberal em indicadores fundamentais como este.
A destruição causada pela austeridade poderá ser menor que o poder destrutivo da "refundação" do Estado: se for mal feita e à pressa, pode pôr em causa conquistas que não são privilégios, mas acquis, como a qualidade dos serviços públicos de saúde. A “refundação” é para ser rápida, mesmo que implique um novo contrato social, sem “refundar” a Constituição nem ouvir os eleitores. Não se pode mudar radicalmente o Estado – porque o Estado somos nós – sem pedir aos portugueses para debaterem e se pronunciarem seriamente sobre o tema. Não há condições para fazer um referendo ou ir para eleições nem para adiar o problema até à próxima legislatura, dirão os responsáveis. Passos Coelho não tem mandato para levar a cabo a reforma do Estado importada de instituições estrangeiras que andam a testar modelos econométricos ao País, embora a maioria das previsões saiam furadas. O facto de ter uma maioria não basta. A reforma é obrigatória. Mas não se pode fazer como se Portugal fosse um campo de treino porque as consequências podem ser fatais.
Nos últimos dois anos, Portugal tem sido um campo de testes económico das instituições internacionais. Vítor Gaspar é o chefe do campo experimental. Em vez de lamelas e microscópios, tem modelos econométricos como se as sociedades fossem folhas de Excel.
Isto não é uma guerra, apesar do País ter perdido a soberania. Mesmo que se desvaneça o que Portugal obteve nos últimos 30 anos, ao ponto de ser mais seguro ter um filho em Portugal do que em Inglaterra, o País continuará por aqui e os portugueses "ai aguentam, aguentam". Ser campo de treino é perigoso. Anos antes de derrotar Napoleão, Lord Wellesley – futuro Duque de Wellington – teve em Portugal o seu campo de treino. Aniquilou Massena durante a segunda invasão francesa a Portugal com uma política cruel de terra queimada, que destroçou as tropas napoleónicas, mas que terá matado à fome mais de 50 mil portugueses, 2% da população total. Funcionou. Portugal manteve a sua espécie de independência. Napoleão terá comentado: “Esta devastação total de um país foi engenhosamente concebida. Nem eu, com o meu poder, teria sido capaz de o fazer”.
No longo prazo também estaremos todos mortos. Resta sabe em que condições e entre que tipo de devastação viveremos até lá.
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