Terça-feira, 29 de Novembro de 2011

Mário Soares: o político não se assume

 

 

Aos 87 anos não se devia desperdiçar tempo. Foi o que Mário Soares fez com o livro que apresentará amanhã: “Mário Soares, um político assume-se – ensaio autobiográfico, político e ideológico”. O esforço é vão, o resultado sofrível, espreme-se muito e sai pouco. Soares argumenta que o livro não é de memórias, como disse hoje a Ana Sá Lopes na entrevista ao i. Não quer ser julgado como um memorialista, então será julgado como um não-memorialista. "Não é um livro ressentido", afirma. Nem o contrário. É um livro sensaborão escrito em meias tintas por um homem que nunca foi de meias tintas. Uma desilusão.

 

Posso dizer isto, porque peguei no livro novo apenas uma semana depois de ler de empreitada os três volumes das entrevistas a Maria João Avillez, mais “A Última Campanha” do Filipe Santos Costa, mais os “Contos Proibidos do PS” de Rui Mateus”. Isto torna a leitura deste “ensaio” absolutamente inútil. Mário Soares e outros políticos portugueses têm um dever para com as gerações mais novas, que é contarem o que sabem, assumirem de facto que fizeram, interpretarem e até justificarem os erros, darem-nos significado para sucessos, e oferecemrem-nos uma leitura de adversários e companheiros. Soares já fez muito. Deu-nos uma fundação cheia de documentos, mas agora podia ter partilhado uma visão do mundo através das experiências da sua vida extraordinária, uma das mais extraordinárias do século XX português. Invejável: uma vida que valeu tanto a pena ser vivida, para um livro tão pobre.

 

 

Não tem revelações que tornem a leitura obrigatória, nem reflexões ideológicas sobre cada momento histórico vivido e testemunhado pelo protagonista que tragam uma novidade ou suscitem espeicial interesse. O homem que 37 anos depois de ter combatido a revolução – e de ter sido o primeiro menchevique da história europeia a vencer os bolcheviques –, defende hoje no i que, “se a Europa não muda terá de haver uma revolução”. Uma revolução? De que tipo? Tipo PREC? Não explica. Não se percebe. É em tudo contraditório com a sua vida. Partindo do princípio que Soares não terá nem tempo nem cabeça para revelar em memórias futuras o que não revelou até aqui, este texto é de um político que não se assume, ao contrário do que nos engana o título.

 

Eis apenas uns pequenos exemplos daquilo que Soares não assume no volume “um político assume-se”.

 

- Não assume a descolonização – há quem o odeie por isso –, nem deixa para a posteridade um testemunho sobre as circunstâncias em que a descolonização aconteceu: Soares conta e enumera uns episódios dispersos da sua actividade como MNE nos governos provisórios, mas não assume, por exemplo, a descolonização da Guiné-Bissau com a clareza com que o faz nas entrevistas a Maria João Avillez (onde mesmo assim fica muito por contar). Também não explica por que diz (nas entrevistas a Avillez) que o processo de descolonização lhe fugiu das mãos para os militares do MFA, alguns deles afectos ao PCP.

 

- Não assume as políticas que seguiu durante o Bloco Central: dedica apenas oito páginas ao tema, nunca fala de como geriu a intervenção do FMI em Portugal, nem das dificuldades da Governação, nem da fome, nem dos salários em atraso, nem dos protestos e da maneira como lidou com eles, nem dos sacrifícios que exigiu aos portugueses para salvar o país da bancarrota. Em vez de deixar um testemunho político sobre a sua experiência de governação em duas situações dramáticas (1978 e 1983), prefere hoje dizer ao i: "Alguém aceitará que tecnocratas estrangeiros, de várias procedências, governem o nosso país? Mas por que carga de água?" A senhora Ter-Minassian, que se saiba, não tinha nascido ali em Alcabideche...

 

- Não assume o chamado caso Emaudio: a Emaudio era uma empresa gerida pelos soaristas mais próximos de Soares, criada com verbas sobejantes da campanha presidencial do MASP I, depois de uma reunião na casa de Nafarros em 1986. O objectivo era criar um grupo de comunicação social afecto ao PS (ou melhor, a Mário Soares). Para cumprir esse objectivo, o então inquilino de Belém cortejou investidores estrangerios e recebeu no palácio presidencial visitantes tão ilustres como Sílvio Berlusconi, Rupert Murdoch ou Robert Maxell. Nem uma palavra sobre o que era a Emaudio, estratégias e objectivos, nem sequer para esclarecer ou contraditar o que Rui Mateus escreveu no livro “Contos Proibidos” aquela célebre edição da D. Quixote que esgotou em dois dias e nunca foi reeditada. Soares desfaz Rui Mateus em 19 linhas, chama-lhe de ignorante para baixo, coisa que não sei avaliar, mas deixa-me perplexo que tenha deixado nas mãos de tão ignóbil figura as tão importantes relações internacionais do PS, ao longo de tantos anos. Não explica. Nem enquadra aquilo (caso Emaudio) que desaguará de forma muito intrincada no famoso “caso fax de Macau”.

 

- Não assume o tipo de relação que teve com Cavaco Silva: era interessante deixar como testemunho político a justificação da sua actuação como Presidente da República, sobretudo no segundo mandato, dizendo aquilo que verdadeiramente pensa de Cavaco e não diz: que é uma figura sem espessura, sem mundo, sem conversa, sem interesse, sem leituras de jeito para além dos livros de economia. Podia contradizer as acusações que Cavaco lhe faz na “Autobiografia”, justificá-las politicamente e dar-lhe um sentido à luz do que se sabe hoje, mas não. Soares prefere a hipocrisia.

 

É uma pena. Já não está em idade para isso. Aguardo com interesse uma biografia bem feita por um jornalista descomprometido.

publicado por Vítor Matos às 15:16
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4 comentários:
De Maria Teixeira Alves a 30 de Novembro de 2011 às 10:01
Boa crítica
De Emídio Fernando a 30 de Novembro de 2011 às 12:03
O problema, Vítor, é a mentalidade que vai venerando qualquer suspiro do homem. No caso dos jornalistas, que já escreveram sobre o livro, sem terem o teu cuidado de analisar o que já publicado. E o livro surge como uma grande novidade editorial, até dando a entender, com aquele título, que um tipo que foi presidente, pm, eurodeputado e tantas outras coisas só agora é que se assume como político. Nessa tua pesquisa, faltou-te o fantástico "Dicionário Político de Mário Soares", de Pedro Ramos de Almeida. Se o tivesses lido, já não ficarias tão surpreendido. Ele é um menchevique (como achas) que reescreve a História, todos os dias, como os bolcheviques.
De Vítor Matos a 30 de Novembro de 2011 às 12:08
Emídio, gostei. De facto, a reescrita da história não é apenas apanágio de bolcheviques ou estalinistas. Procurarei o livro do Pedro Ramos de Almeida, obrigado pela sugestão.
De Fernanda Valente a 3 de Dezembro de 2011 às 13:04
Uma análise realista que em tudo corresponde à verdade.

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