Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012

Anti-heróis acidentais

A vida de Ernst Hanfstaengl dava um filme. Para já, deu um excelente livro, “O Confidente de Hitler”, pela mão de Peter Conradi (co-autor de “O Discurso do Rei”). Que o comum dos mortais nunca tenha ouvido o impronunciável nome de Hanfstaengl (“Putzi” para os amigos) tem pouco a ver com a incrível história da sua vida – a razão estará, antes, na abundância de heróis e monstros que ocuparam o palco da II Guerra Mundial. A Putzi, não lhe serve nenhum desses rótulos. Assenta-lhe melhor o de anti-herói – tal como a William Dodd, o (também esquecido) protagonista de “No Jardim dos Monstros”. Dois homens cujas vidas se cruzaram no coração da Alemanha nazi, e se voltam a cruzar, por coincidência, nas livrarias portuguesas, nestes dois livros acabados de publicar.

Ernst Hanfstaengl fez parte do núcleo mais restrito de colaboradores de Hitler na sua ascensão, foi o spin-doctor do III Reich para a imprensa mundial, caiu em desgraça e, no fim da guerra, estava do lado americano a combater os nazis. Em boa hora Conradi, com faro de jornalista e talento de romancista, tropeçou na sua história e decidiu contá-la. “O Confidente de Hitler” é daqueles casos em que a realidade supera a ficção. Putzi (1887 - 1975) nasceu em Munique, no seio da melhor aristocracia bávara, filho de pai alemão e mãe norte-americana. Saiu da Alemanha para estudar em Harvard, onde ganhou estatuto de lenda, como grande pianista e amigo de grandes farras (tudo com Putzi era em grande, a começar pelos quase 2 metros de altura). Estabeleceu-se numa galeria de arte em Nova Iorque e tornou-se uma figura da sociedade. Amigo de artistas e jornalistas, também conviveu com Franklin D. Roosevelt, que viria a ser determinante na sua vida.

Hanfstaengl volta a Munique na ressaca da I Guerra Mundial, quando um cabo austríaco começa a agitar as cervejarias da cidade. É aí que Putzi ouve Hitler pela primeira vez, em 1922 – no momento que mudará a sua vida, dirige-se a ele, diz-lhe que concorda com 95% do que ouviu e disponibiliza-se para discutir os outros 5%. Embora crítico das suas ideias mais extremistas, Putzi depressa se torna um esteio no seu caminho para o poder.

Bem-nascido e cosmopolita, culto e à-vontade nos salões, Putzi distingue-se da trupe rude e radical que forma a primeira corte nazi. Hitler torna-se presença habitual em casa de Putzi e este propõe-se “refiná-lo”, qual Pigmaleão. Hitler, por seu lado, para além de uma mal disfarçada paixoneta pela Sra. Hanfstaengl (chega a declarar-se-lhe de joelhos), tem outros interesses na relação com Putzi: este abre-lhe portas e ajuda-o a recrutar apoiantes e financiadores na alta sociedade; e ainda se torna o pianista privado do líder nazi, para quem tocava Wagner pela madrugada dentro, para o ajudar a relaxar.

Quando Hitler chega a chanceler, Putzi fica à frente do departamento de imprensa estrangeira do Reich – é o “gajo porreiro” que manipula os correspondentes internacionais e tenta suavizar o nacional-socialismo, mas também é o excêntrico que recusa usar a saudação “Heil Hilter”, que considera ridícula. Conforme o regime endurece, Putzi vai-se afastando, tanto devido a divergências como à intriga que minava o núcleo-duro nazi. Um afastamento que acaba com a espectacular fuga de Putzi da Alemanha, suspeitando que Hitler o queria matar.

O “pianista de Hitler”, como lhe chamava a imprensa sensacionalista, está refugiado em Londres em 1939 quando é declarada a guerra. Como milhares de alemães, é enviado para campos de detenção, uns após os outros. Depois de intermináveis atribulações e uma passagem pelo Canadá, sempre como prisioneiro dos ingleses, acaba nos EUA, sob protecção direta do presidente Roosevelt, a produzir relatórios para os serviços secretos: comenta os discursos dos dirigentes nazis e produz perfis psicológicos de Hitler e da sua entourage, deliciando Roosevelt com especulação e análise sobre a vida sexual (ou melhor, a falta dela) do Führer.

Com base num notável trabalho de pesquisa – apoiado sobretudo em documentos oficiais e diários, a começar pelos do próprio Putzi –, Conradi tece esta biografia como um thriller político de grande fôlego.

 

Um dos muitos episódios estranhos do seu protagonista envolve Martha Dodd, a vistosa filha do embaixador americano em Berlim. Convencido de que uma das razões da crescente agressividade do Führer era a ausência de vida amorosa e sexual, Putzi decide arranjar-lhe uma namorada. “Martha, você será essa mulher!”, diz o dirigente nazi à perplexa filha do embaixador. Marca-lhe um chá com o ditador, mas o encontro não corre bem.

Este é um dos vários momentos em que “O Confidente de Hitler” e “No Jardim dos Monstros” se cruzam. O livro de Erik Larson retrata Berlim entre 1933 e 1937, os anos em que William E. Dodd representou os EUA na capital do Reich. Se Putzi dominava os meandros do nazismo e da comunidade estrangeira radicada em Berlim, Dodd era o oposto: um peixe fora de água tanto junto dos dignitários nazis como na comunidade diplomática.

Velho historiador, genuíno democrata jeffersoniano, Dodd (1869-1940) foi parar a Berlim graças a um enorme equívoco: tinha pedido a Roosevelt, de quem era amigo, a nomeação como embaixador numa capital europeia onde pudesse cumprir o sonho da sua vida: escrever uma história em quatro volumes do Sul dos EUA (!). Calhou-lhe Berlim...

A principal directiva que Dodd levava era garantir que a Alemanha não falhava os pagamentos das indemnizações da I Guerra Mundial aos EUA. “Quero que faça tudo o que puder para evitar uma moratória”, instruiu-o Roosevelt directamente. Essa continuou a ser a prioridade, mesmo perante os sinais de alarme que Dodd enviava sobre o rearmamento ou a “questão judaica”. Sem saber de diplomacia, o embaixador sabia de História – e via formar-se a tempestade perfeita. “Não tinha ilusões quanto a Hitler quando fui nomeado. Mas pelo menos esperava encontrar algumas pessoas decentes à volta dele. Estou horrorizado por ter descoberto que todo o grupo não passa de uma horda de criminosos e cobardes”, dizia Dodd, pouco depois de ocupar o posto.

A sua filha, Martha, demorou mais até perceber o que havia para além dos salões aveludados e das fardas elegantes dos nazis. Muito solicitada para festas, coleccionava casos amorosos, que lhe valeram o rótulo de “nympho” – entre eles, Rudolf Diels, comandante da Gestapo, e Boris, primeiro secretário da embaixada da URSS, cargo que encobria a sua ligação ao NKVD (antecessor do KGB). Política, amor, espionagem, terror, traição – sim, os ingredientes estão todos lá e Larson maneja-os com arte, sem perder o foco da História com H grande.

Dodd ficou conhecido no Departamento de Estado como “Cassandra”. Putzi foi descrito por um jornal americano como “o bobo da corte de Hitler”. Ambos foram personagens trágicas em circunstâncias dramáticas que mereciam estas biografias.

texto publicado no caderno Atual, do Expresso, 8.12.12

publicado por Filipe Santos Costa às 16:13
link do post | comentar | favorito

autores

pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

arquivos

subscrever feeds