Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013

Freakpolitics: Síndrome de Húbris, a doença política de Relvas

A doença política de Miguel Relvas é tão antiga quanto a política e os gregos chamavam-lhe húbris. Hoje diz-se Síndrome de Húbris. David Owen, neurologista e lorde britânico, ex-ministro trabalhista dos Negócios Estrangeiros nos anos 70 identificou sintomas e “doentes”. Escreveu o livro: 'The Hubris Syndrome: Bush, Blair & the Intoxication of Power' e artigos em revistas especializadas como a 'Brain'

Na antiguidade, era um desafio feito aos deuses pelos que desejavam mais do que lhes fora concedido pelo destino. Deputado desde os 24 anos, Relvas tinha a política no destino, mas desejava mais. Queria ser mais que apenas o “sr.” Relvas, com todo o direito a essa ambição, não fosse a preguiça levá-lo a aceitar a oferta de uma licenciatura para ser “dr”, já depois de ter integrado governos. 
Este ministro também é o Vasco Moscoso de Aragão, do livro 'Os Velhos Marinheiros ou o Capitão de Longo Curso', do escritor brasileiro Jorge Amado, que a dado passo desabafa:

— Você sabe lá o que é andar o tempo todo com coronéis, comandantes, doutores e não ser nada…

Deram-lhe o título. Pior do que isso, descobriram que o título era apenas um papel, falta de moderação, ausência de sobriedade perante todos aqueles que pagaram e trabalharam para serem mais do que o destino lhe tinha dado.Hubris: ficar no Governo depois de se tornar uma anedota nacional, sem autoridade nem credibilidade.

Titanic afundou-se por húbris, a convicção exaltada de que o navio não era afundável, “supremo excesso de confiança”, como escreve Peter Corning, director do Institute of Complex Systems. Civilizações poderosas caíram por húbris, como defende Arnold J. Toynbee que a define como a perda do equilíbrio moral e mental.

Até ver, Relvas é menos afundável que o Titanic, apesar do escândalo da Tecnoforma que já está a ser investigado pelo Ministério Público; apesar das espargatas e mortais à retaguarda no seu dossiê mais prioritário, a privatização da RTP; apesar do caso das ameaças à jornalista do 'Público', que vitimou apenas a jornalista do 'Público'; apesar do envolvimento com o espião Jorge Silva Carvalho e com a maçonaria, que vitimou apenas o seu assessor Adelino Cunha; apesar da coordenação política do Governo ser uma desgraça; apesar de a política de informação e de comunicação do Governo ser uma catástrofe, apesar de isolado, Miguel Relvas não afunda.

Os episódios 'Grândola Vila Morena' são uma consequência pública dessa húbris, confrontada com um governante cuja impopularidade pouco tem a ver com as medidas difíceis que o Governo tem tomado. Segundo David Owen, o Síndrome de Húbris é uma “desordem psicológica desencadeada pelo poder”, que se pode acentuar “em face de uma situação de crise como uma guerra ou um potencial desastre financeiro”. 

Segundo Owen, “a importância potencial do síndrome deriva da extensão dos danos que podem ser causados pelo pequeno número de pessoas que são afectadas por ele”.

David Owen sugere que basta identificar três ou mais sintomas de entre um conjunto de 14 para se estar perante alguém com síndrome hubrístico. Daquilo que sabe, veja se Miguel Relvas encaixa no perfil da doença (outros políticos, como José Sócrates, sofriam de húbris acentuada):

1 – uma propensão narcísica para ver o mundo em primeiro lugar como uma arena para exercer o poder e procurar a glória; 

2 – predisposição para fazer coisas de forma a melhorar a sua imagem;

3 – uma preocupação desproporcionada com a imagem e a apresentação;

4 – uma forma messiânica de falar daquilo que está a fazer e tendência para a exaltação;

5 – identificação com a nação ou a organização ao ponto de o indivíduo achar que os seus pontos de vista e interesses são idênticos;

6 – tendência para falar de si na terceira pessoa ou uso do plural majestático;

7 – confiança excessiva no seu próprio julgamento e condescendência em relação aos conselhos ou críticas dos outros; 

8 – crença exagerada em si mesmo, na fronteira da sensação da omnipotência;

9 –mais do que ser responsabilizável perante tribunal mundano dos colegas ou da opinião pública, acha que será julgado pela História ou por Deus;

10 – crença inabalável de que nesse tribunal será ilibado;

11 – perda de contacto com a realidade, muitas vezes associado a isolamento progressivo;

12 – inquietude permanente, indiferença, impulsividade;

13 – tendência para que, ao apreciar a rectidão moral de uma determinada opção, considere custos e benefícios;

14 – incompetência hubrística: as coisas começam a correr mal por causa do excesso de confiança e ele nem se preocupa com as dissidências.


Crónica publicada no site da SÁBADO

publicado por Vítor Matos às 11:29
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