Sexta-feira, 16 de Novembro de 2012

Só faltava esta: o elogio da "ambição" dos bárbaros, pelo repórter do Público

 

 

 

Lê-se e não se acredita: "Os poucos manifestantes que permaneciam, ora de cócoras, ora de joelhos, a arrancar pedras da calçada em frente à Assembleia da República faziam-no com a ambição de um operário que gosta do seu trabalho."

 

É a entrada de uma "reportagem" com que me deparei no site do Público. O tom geral é este. Era mesmo o que faltava - o elogio do empenho dos bárbaros, com a chancela do que já foi um dos jornais de referência de Portugal.

 

A coisa prossegue: "Estabeleceu-se ali, a 15 metros do cordão policial, uma autêntica e espontânea linha de montagem, em que as pedras da calçada, prontamente arrancadas do chão, eram entregues a outros que as atiravam em direcção ao cordão policial e à Assembleia da República. Adequava-se a pergunta, com a dicção arrastada de Sérgio Godinho com José Mário Branco ao lado: “Que força é essa, que força essa, que trazes nos braços?”"

Bem sei que o Público já teve melhores dias. E digo-o com a amargura de quem começou a fazer jornalismo na redação do Público e sente, a cada edição, a decadência e o desnorte a que o jornal foi condenado por quem o dirige.

 

Apesar disso, nunca se está realmente à espera de ver, mesmo neste Público, tamanho desvelo de um "repórter" embevecido perante aquela rapaziada com "ambição de operário" em "autêntica e espontânea linha de montagem".

 

Como é que este texto me escapou na edição em papel?, questionei-me. E percebi depois que a "reportagem" foi publicada apenas online, não tendo chegado à edição em papel. Desconheço a razão. Mas oxalá tenha sido por vergonha.

publicado por Filipe Santos Costa às 13:31
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012

A velha receita: contar bem uma boa história

 

 

Nestes tempos em que uma parte das revistas nacionais parece acreditar que jornalismo é sinónimo de escapismo, com receitas pré-cozinhadas, humor estafado e futilidades várias, de preferência sobre os ricos e os famosos, só se pode louvar a coragem da Visão por ter feito uma capa com Safira – uma menina que não é rica, nem famosa, nem tem agência de comunicação, mas, ao arrepio do que dita o novo cânone, tem uma história que merece ser contada.

 

Safira tinha quatro anos quando, em julho de 2010, lhe foi diagnosticado um cancro raro e extremamente agressivo num rim. Esta é a história da sua luta, mas não é mais uma reportagem hiper realista sobre a angústia e o sofrimento que o cancro sempre traz. Depois de um primeiro ciclo de quimioterapia e da remoção do tumor, os pais da criança, vendo-a definhar a cada dia, recusam prosseguir a quimioterapia, como propunha o IPO, e vão à procura de alternativas, que não só curem a filha como lhe dêem a expetativa de uma vida sem as sequelas dos tratamentos mais agressivos. Assumem a responsabilidade de desafiar o poder e encontram o que procuram: a vacina de células dendítricas, uma terapia de ponta considerada experimental e olhada com desconfiança pelo establishment médico, apesar de já ter merecido um Nobel da medicina.

 

A peça publicada pela Visão em outubro de 2011, que é a base de "Safira e a Luta contra o Cancro" (ASA), teve grande repercussão, amplificada pelo êxito de audiências que foi a reportagem “gémea” emitida pela SIC. É fácil perceber porquê. Antes de mais, tem extraordinários protagonistas: Safira, com o seu sorriso radioso e caracóis de querubim; e os pais, Gabriel e Gabriela, que desafiam classificações. Primeiro, surgem-nos como uma espécie de neo-hippies (vegetarianos, místicos, adeptos de medicinas alternativas); depois, revelam-se, não os “fundamentalistas da homeopatia e dos vegetais” que “pretendem salvar-nos da civilização”, como os descreve uma médica do IPO, mas gente persistente que insiste em pensar pela sua cabeça.

 

Ora, o poder não gosta de gente que pensa pela sua cabeça, e faz perguntas, e não se conforma com as respostas. O poder, neste caso, da ciência e do Estado: os clínicos do IPO, que resistem a dar a informação pedida e se comprazem na sua autoridade e no preconceito perante as alternativas; e a juíza do Tribunal de Menores, que, a pedido do IPO, manda retirar a criança aos pais, para internamento forçado com vista a prosseguir os tratamentos. Médicos e juízes acabam por ficar com o papel de maus da fita (há boas histórias sem eles?). Não pelas suas motivações, mas pelas acções: ainda que todos queiram para Safira o melhor que podem e sabem, estes não admitem que o melhor que podem e sabem possa não chegar.

 

Sofrimento, amor, coragem, arrogância, obscurantismo, e, tanto quanto é possível saber, um final feliz – Patrícia Fonseca tem muita coisa em mãos e tece a sua narrativa com a lealdade que se exige a um jornalista e a simplicidade que se espera de um contador de histórias. E levanta muitas questões incómodas: sobre a prática do consentimento informado, sobre o totalitarismo de quem se julga inquestionável, sobre a cegueira da justiça, sobre o direito dos pais a escolher os tratamentos dos filhos, sobre a diferença. A autora não é piegas nem panfletária, numa reportagem em que seria fácil cair na tentação. Faz jornalismo, recorrendo à única receita que resulta sempre: pegar numa boa história e contá-la bem contada.

 

Texto publicado no suplemento Atual do Expresso

publicado por Filipe Santos Costa às 12:06
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

Notícias verdadeiras que são mentira quando publicadas

 

O filme Nos Idos de Março não é apenas um ensaio sobre a ambição, o egoísmo pessoal ou a vingança; também não é apenas uma denúncia da inevitabilidade da hipocrisia e do jogo sujo na política, mesmo entre os políticos que se esforçam por ser sérios. Também pensa o jornalismo, e aborda um tema que me interessa: as notícias que são verdade e que se tornam mentira no dia em que são publicadas. Ida, a jornalista do "Times", nunca chega a publicar a história que sabe ser vedadeira, porque não obtém uma confirmação firme, mas só essa eventualidade faz com que tudo mude nos bastidores da campanha. Transpondo para a realidade: um telefonema a um político com uma informação incómoda (ou mesmo sem ser muuuito incómoda), pode gerar uma cadeia de acontecimentos que torna essa notícia (inicialmente verdaderia) numa mentira ou numa informação deslocada.

 

Já me aconteceu uma fonte ligar bem tarde - eu já em casa -, a desmentir uma informação que tinha em página, prestes a fechar. Era um certo político que ia apoiar um certo candidato. Perante a insistência, preferi jogar pelo seguro e telefonei para a revista tirar a informação (que era muito secundária, pouco mais do que uma foto e uma legenda). Umas semanas depois, quando o dito político apoiou o dito candidato telefonei-lhe a chamar-lhe mentiroso. Respondeu-me: se você publicasse aquilo, talvez eu não lhe o meu apoio público [ao tal candidato]. Aí mentiroso era eu. Bom, como há coisas que não dominamos, contei-lhe a história que Ben Bradlee, director do Washington Post, costumava contar aos repórteres do Watergate. Ele um dia deu a notícia de que Edgar J. Hoover ia ser substituído à frente do FBI. Mas , em vez de Hoover ser demitido, aquela notícia teve o efeito de garantir que ele passaria lá o resto da vida. O político respondeu-me que quando estivera no Governo tinha feito muitas dessas. Aos amigos que dão aulas de jornalismo: vejam o filme com os vossos jovens e façam uma discussão sobre as notícias de antecipação verdadeiras que só são mentira se por acaso forem publicadas.

 

publicado por Vítor Matos às 14:11
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

Do desencantamento

Peço emprestado o título da crónica da Fernanda Câncio na Notícias Magazine deste domingo. Ou isto nos desencanta, ou a Câncio da NM não é a Câncio que assina no DN.

 

Ora é preciso recordar que a Câncio do DN apresentou queixas à Comissão da Carteira Profissional contra camaradas jornalistas que se referiram a ela como namorada de José Sócrates. Não é que fosse mentira. A queixas fundamentavam-se na invasão de privacidade. Acontece que, este domingo, a Câncio da NM escreveu uma crónica sobre o seu "desencantamento" amoroso. Assim:

 

"Estamos a tomar o pequeno-almoço ao sol e de súbito o torso que antes víramos denso e liso antecipa a decadência da carne velha; urgem uma visitas à pedicura, o hálito ressuma ao jantar de ontem. (...) Mas a falha num dente que fora idiossincrática de súbito é só isso, um dente com uma falha; as unhas mal aparadas que eram blasés agora são só desmazelo. Sapatos errados, a cor impossível de uma camisa, um cinto sem explicação."

 

Fernanda pode até não estar a falar de José Sócrates, mas sabe que toda a gente vai pensar que é de José Sócrates que ela estava a falar. Espero em nome da coerência que a Câncio do DN apresente queixa à Comissão da Carteira contra a Câncio da NM por violação da privacidade da Câncio do DN. Ou então o tipo da carne velha....

publicado por Vítor Matos às 12:18
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

Os idiotas úteis

 

O programa da troika é duro? É. Muito.

É mais duro do que o PEC 4? Sim, bastante mais duro.

As pessoas vão viver pior? Vão, bastante pior - sobretudo a classe média e a classe média-baixa.

 

O programa é uma derrota do Governo? Sim, em toda a linha - é a demonstração de que os programas anteriores não foram cumpridos e de que o PEC 4 não chegava. É a demonstração de que o País de fantasia de Sócrates só existe nos seus discursos. Ou seja, se não fosse obrigado a fazer o pedido de resgate, Sócrates iria continuar a afundar Portugal, a fazer teatrinho e a brincar às rasteiras políticas enquanto o deixassem.

 

A receita é mais soft do que a da Grécia e da Irlanda? É. Mas isso não se deve ao PM ou à capacidade de negociação do Governo. Ao contrário do que disse Sócrates, no tempo de antena de ontem à noite, o Governo não "conseguiu um bom acordo", pela simples razão de que não está em posição de "conseguir" coisa nenhuma. O País não tem força e este Governo não tem autoridade para isso.

Se este programa não é tão mau como o grego e o irlandês, isso deve-se sobretudo a dois aspectos: por um lado, Portugal já tomou algumas das medidas (como o famoso corte dos salários) que os outros foram obrigados; por outro, a troika (e em particualr o FMI) aprendeu alguma coisa com os erros da Grécia e da Irlanda.

 

Então, como é possível ler e ouvir que este programa é uma vitória de Sócrates? Ou, como dizem alguns, um pouco mais comedidos, uma "meia vitória"? Desde quando é que um atestado de incompetência ao País e ao seu Governo pode ser visto como uma vitória?

 

Tem tudo a ver com a gestão de expectativas. Ao longo das últimas semanas, a comunicação social indígena entreteve-se a fazer manchetes com os piores cenários possíveis. Com base em quê? Em muito pouco: por junto, na extrapolação para Portugal das receitas grega e irlandesa, e no spin de gente do Governo e do PSD, a quem convinha criar um cenário apocalíptico.

 

O interesse dos spin doctors do Governo percebe-se: quanto piores fossem as expectativas, melhor Sócrates sairia na fotografia, com a conversa de ter conseguido o tal "bom acordo".

Já o intuito que moveu os spin doctors do PSD - que andaram este tempo todo a prever o pior dos mundos, com ajuda de 100 mil milhões, o fim do 13º e do 14º mês e quejandos... - é que continua a ser um mistério.

 

Conclusão: a ideia de que, afinal, isto não foi assim tão mau, já se instalou. Com uma mão cheia de péssimas notícias, que o deviam afundar de vez, Sócrates prepara-se para fazer um brilharete. Deve agradecê-lo à proverbial incompetência do PSD e à prestimosa colaboração da comunicação social.

Uns e outros comportaram-se como idiotas úteis.

publicado por Filipe Santos Costa às 12:30
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

O "caso" TSF

O meu nome é Ana Catarina Santos. Sou jornalista da TSF há treze. E orgulho-me muito disso. A minha rádio é a melhor rádio do país. O jornalismo que se pratica na minha rádio é do melhor jornalismo que se pratica no país. Os profissionais da TSF são do melhor que há no jornalismo nacional.

Está em curso uma infeliz campanha de destruição da imagem e credibilidade da TSF, num tom inaceitável. Ninguém me pediu que escrevesse esta “defesa da honra”, nem o que quer que fosse. Mas considero que se estão a ultrapassar todos os limites. Sou livre, felizmente, vivo em democracia e sou responsável pelo que escrevo e afirmo.

Quem me conhece sabe bem como sou crítica em relação ao mau jornalismo e intolerante com falta de ética e profissionalismo. Quem me conhece sabe muito bem que até sou crítica em relação a algumas decisões editoriais da TSF. Crítica e frontal e por isso sinto-me completamente à vontade para escrever estas linhas, completamente insuspeita. Muitas vezes critico o trabalho da minha rádio, o meu inclusive. Só assim, com crítica activa, vigilante e construtiva, podemos melhorar diariamente.

Conheço a minha rádio por dentro e por fora. Conheço as suas práticas, as suas rotinas, as discussões, as preocupações, as pressões (claro que há, mas alguém imagina que não?), sei bem como são escolhidos os temas do dia, o tema do Fórum.

Por isso considero a violência dos comentários inaceitável. O tom de raiva é excessivo. O nível de vocabulário é medonho. As considerações são indignas. Esta campanha repugna-me! Enoja-me! Sei que estes comentários não são de ouvintes TSF. Os verdadeiros ouvintes TSF não são assim. Reconhecem o valor da sua Rádio e a credibilidade da sua informação, respeitam-nos. Os verdadeiros ouvintes TSF sabem do que eu estou a falar.

A TSF tem 23 anos de provas dadas de isenção e rigor. Todos os dias, repito – todos os dias – recebemos queixas de ouvintes e também de partidos políticos (não sejamos inocentes). Nuns dias criticam-nos porque somos a voz do PS, noutros dias já somos a do PSD. Nuns dias, só damos CDS. Noutros, somos máquina de propaganda do PCP ou do Bloco de Esquerda. “Rádio Bagdad”, “Rádio Oficial Laranjinha”, “Rádio do PS”, “Rádio dos Camaradas”, “Gabinete do Cavaco”, etc… Tantos rótulos. Que bom. Incomodamos muita gente, é verdade.

O Fórum TSF foi uma inovação nas rádios portuguesas e foi introduzido pela TSF, como quase todas as inovações feitas na rádio em Portugal. É um espaço aberto à opinião dos ouvintes: sem filtros, sem censura, sem perguntas prévias sobre o que os ouvinte ou convidados pretender dizer em directo. E esta é a regra que existe há duas décadas.

Todos os dias há Fóruns TSF. Todos os dias há quem diga de sua justiça contra ou a favor do Governo. As pessoas inscrevem-se com o nome que querem, com a profissão que querem, apenas registamos o número de telefone no momento da inscrição, para lhes ligarmos de volta quando entram em directo. E o método de entrada no Fórum é todos os dias – repito, todos os dias – igual: as pessoas entram por ordem de inscrição. Que é o que faz sentido, aliás. Ou fará sentido passar para directo uma pessoa que se inscreveu às 11.30h, quando outra manifestou interesse em participar duas horas antes? Ou fará sentido passar para o Fórum um juiz que se inscreveu às 11h, passando à frente de um desempregado que se inscreveu às 9h da manhã? Não faz qualquer sentido, pois não? Não. A regra é sempre a mesma e tem funcionado na perfeição. A TSF não escolhe os ouvintes.

Quem anda na política sabe bem que os Fóruns são escutados muito atentamente nos gabinetes. Mas não é preciso andar na política para se saber que os aparelhos partidários mobilizam militantes ou simpatizantes para participarem nos Fóruns, seja o da TSF ou quaisquer outros, que copiaram o modelo. Os partidos pedem às pessoas da sua confiança para que se inscrevam no Fórum. Isso é ainda mais evidente em períodos eleitorais. Mas a regra existe para todos. Quem conhece melhor as regras do jogo, joga melhor.

Não vou falar em concreto sobre o Fórum em que o PM esteve como convidado. Mas se algum aparelho partidário funcionou no dito Fórum para “promover” o entrevistado; outros aparelhos estão agora a promover a campanha anti-TSF. Estão a desperdiçar munições… O alvo não é o mensageiro, que é sempre o mais fácil de abater.

E a prova de que a TSF é um gigantesco (e cada vez mais raro) espaço de liberdade, é o facto de a antena da TSF continuar a aberta diariamente aos ouvintes no Fórum para dizerem o que quer que seja; é o facto de o mural do Facebook da TSF estar totalmente aberto a comentários (comparem com outros órgãos de comunicação social, só para tirarem a prova); é o facto de o site da TSF ser totalmente livre nos comentários (mais uma vez, comparem com os outros o.c.s.); e é o facto de continuarmos a fazer o nosso melhor jornalismo todos os dias.

Não gosto que digam mal da minha Rádio sem justificação. Não gosto que enxovalhem o meu nome, porque sou TSF, sem fundamento. Não gosto que atirem lama em cima de Profissionais com letra maiúscula. Não gosto que cuspam no meu nome, porque sou TSF. Não aceito que venham grafitar de calúnias na minha porta. É uma vergonha, sim, esta manipulação, esta campanha difamatória anti-TSF. Quem ganhará com isto? Era interessante que reflectíssemos todos sobre o assunto.

Não são só os Fóruns TSF que incomodam. A informação TSF incomoda. O jornalismo da TSF incomoda. A TSF incomoda. Que bom. Que orgulho. Que luxo, nos dias de hoje.

 

Ana Catarina Santos

29 Abril 2011

 

 

publicado por Ana Catarina Santos às 13:30
link do post | comentar | ver comentários (23) | favorito
Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

Como devem os jornalistas usar o Facebook enquanto fonte?

O caso "Joana Latino" que o Bruno refere no post aqui em baixo merece uma reflexão mais aprofundada, não pelo facto de uma jornalista ter sido a protagonista da história (essa é outra discussão), mas porque os jornalistas devem começar a pensar sobre como abordar essa nova realidade que é tratar a informação relevante ou de interesse público veiculada nas redes sociais, como o Twitter ou o Facebook.

 

Num fórum reservado a jornalistas no Facebook dei a minha opinião e fui insultado e vilipendiado por algumas pessoas com responsabilidades em jornais. Não estava em minoria na minha posição. Estava sozinho.

 

Joana Latino, jornalista da SIC, fez um comentário nesse grupo fechado, reservado "apenas" a mil jornalistas, que mais não era do que uma notícia para os colegas que cobrem a área dos media. O DN publicou então uma notícia sobre a matéria, usando o post de Joana Latino sem a contactar e sem lhe pedir autorização.

 

Em abstracto, a maioria esmagadora dos jornalistas nesse fórum defende que, para um meio de comunicação social usar a informação que alguém veicula no Facebook, deve contactar a pessoa e pedir-lhe autorização. É também a opinião de Estrela Serrano, membro da ERC.

 

Na minha opinião, pessoas cujos posts no Facebook sejam objecto de notícia, devem ser contactadas por razões óbvias, para confirmar e aprofundar a história, mas nunca para pedir autorização. Porquê?

 

a) porque o Facebook é um local público, mesmo que seja um grupo "restrito" de mil pessoas. Não é uma mesa de restaurante onde o vizinho do lado ouve a conversa: é como pegar num megafone e gritar dizer o que se pensa a um milhar de pessoas na maioria desconhecidos, com uma agravante que dá segurança ao jornalista que cita: está escrito.

 

b) porque mesmo quem no Facebook fala só para um grupo selecto de amigos pode ser alvo de um "partilhar", que transporta a sua informação aos amigos de outros amigos, portanto, não há privacidade. É também por causa dessa partilha que aquilo é uma rede.

 

c) porque à priori, acho que as pessoas - sobretudo se forem personalidades públicas ou detentoras de informação relevante - devem o bom senso de agir como se estivessem em público, pois o Facebook é uma rede social pública mundial, que serve exactamente para partilhar informação e não para a tornar secreta.

 

d) porque quem escreve no Facebook está a falar para o mundo e tacitamente dá assim autorização para ser citado. Não é por acaso que os políticos apostam nas redes sociais. O contrário é que era estranho: era como se alguém ligasse para o fórum da TSF e depois se queixasse de ser citado num jornal porque estava apenas a falar para os ouvintes daquela rádio e exigisse um pedido de autorização para as suas palavras serem transcritas.

 

e) no meu entender, um jornalista deve partir do princípio que a informação relevante ou de interesse público partilhada por um adulto numa rede social responsabiliza essa pessoa. Quem não quiser correr o risco não se dedica às redes sociais.

 

 

OUTROS CASOS EM QUE OS JORNALISTAS NÃO PEDEM LICENÇA PARA PUBLICAR INFORMAÇÃO RESERVADA

 

1- Um jantar entre três políticos na casa de um deles onde se discute a possibilidade de uma coligação: um amigo do político A passa a informação ao jornalista: o próprio político A não confirma a história; o político B recusa-se a falar do assunto; e o político C diz que não autoriza a divulgação de uma conversa privada num local privado. O jornalista confirma a história junto de cinco amigos de A, B e C. Deve publicar? Sim.

 

2- Um fotógrafo tira uma foto ao ministro da Defesa e, nesse dia, enquanto está a escolher as provas, diz ao colega redactor se já viu o que o ministro leva debaixo do braço. Amplia a foto no computador e mostra um documento classificado como "confidencial", destinado à NATO, a dizer que o Governo vai mandar aviões C-130 para o Afeganistão, com valores de custos, etc. Há três notícas envolvidas: a) o Governo vai mandar aviões para o Afeganistão e ainda não tinha anunciado; b) os custos orçamentais estão lá descritos; c) o facto de o ministro da Defesa não cumprir as regras militares estabelecidas para o manuseamento de documentação com classificação de segurança. Quando se pede um comentário ao ministério, os assessores dizem que o ministro não autoriza a divulgação de informação classificada nem a comenta. Deve o jornalista pedir autorização? Não. Deve publicar? Sim, porque o ministro não esteve à altura das suas responsabilidades para reservar devidamente a informação classificada e também deve ser responsabilizado por isso.

 

3- Um jornalista acede a documentos internos de um ministério que provam que o Governo está a preparar uma decisão que vai contra aquilo que é o discurso oficial. Um funcionário que é fonte do jornalista desvia o documento, fotocopia-o, volta a colocá-lo no lugar e entrega a cópia ao repórter. Pedem-se explicações ao ministério. O ministro diz que não comenta notícias baseadas em material roubado. O jornalista deve publicar? Sim, como é óbvio, sem autorização.

 

E podíamos continuar por aí fora com casos concretos que fazem a vida dos jornais nas democracias. Não faz sentido, assim, que um jornalista tenha de se submeter a uma autorização prévia quando usa declarações escritas no Facebook com relevância noticiosa e interesse público. Isso não invalida o contacto com o visado (até para saber se não é alguém a fazer-se passar por ele). Deve depender da consciência do jornalista a necessidade de citar a fonte da rede social. Não deve depender de autorização.

publicado por Vítor Matos às 23:12
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011

A lógica do Abrantes

O Abrantes pensa que as coisas funcionam assim. A maioria dos políticos pensa que as coisas funcionam assim. Mas a Sábado conta entre as suas virtudes não funcionar sob a lógica que os Abrantes de todas as cores pensam sobre o jornalismo. Engana-se meu caro, engana-se. A minha lógica não é a sua lógica. Não é recado nenhum. Não há carneirada nenhuma. É o que está ali escrito e vale pelo valor seu facial.

publicado por Vítor Matos às 22:40
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

"Exclusivos" jornalísticos

Manchete do Diário Económico online: "PT conclui negócio com a Oi".
Clicamos no título e abre o texto, repetindo o destaque: "PT conclui negócio com a Oi".
Ante-título: "Exclusivo Diário Económico"
Início do segundo parágrafo: "De acordo com as mesmas fontes, a assinatura do negócio não está ainda concluída."

Em que ficamos? Está concluído ou não está concluído? É que se não está concluído, está tudo na mesma e não há notícia. Muito menos para destaque em "exclusivo".

É por estas e por outras que são cada vez mais frequentes as críticas aos jornalistas pela falta de rigor e de credibilidade. Neste caso, com razão.
publicado por Ana Catarina Santos às 06:42
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

Aqui está um vídeo obrigatório que nos faz sorrir amarelo

So you want to be a journalist...


publicado por Vítor Matos às 22:58
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

apresentação

Tudo o que sobe também desce

Conheça a história do ascensor aqui.

autores

pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

arquivos

subscrever feeds